domingo, abril 27, 2008

Sou um 'mala follá' liverpoolense














PAUL PRESTON
Historiador inglês especialista em Espanha

"Sou um 'mala follá' liverpoolense"
Karmentxu Marín - El País - 27/04/2008
Tradução de Antonio de Freitas

P. A primeira frase de seu último livro é: "Custa julgar a Franco". Começamos bem.

R. O problema é que na Inglaterra, onde exerço minha profissão, Franco ainda goza de boa imprensa. E a um Pinochet, responsável de uma fração mínima do número de mortos de Franco, se lhe considera um monstro. Isto se considera um mistério que o livro tenta resolver.

P. E que graça você vê nisto?

R. Franco não me faz graça. O faço porque sou grande amante da Espanha. Vim a fins dos sessenta e tive um flechaço que se converteu numa espécie de matrimonio estável. E me indigna o que sofreram tantos espanhóis por culpa do ditador.

P. Diz que lhe recorda ao Mago de Oz. E Hitler ao Pequeno Polegar?

R. Não. A Franco lhe vejo como uma pessoa de uma tremenda insegurança, que se ocultava escondendo-se detrás dumas máscaras. Essa é a historia do Mago de Oz: todos lhe tinham medo e, ao final, resulta ser um pequenininho inseguro dentro de um disfarce.

P. O que você acredita que lhe assombraria mais da Espanha de hoje: que os políticos no sigam debaixo de um ‘palio’, que se casem os gays ou que Fraga (ex-Governador da Galicia que foi o ministro mais jovem de Franco) seja democrata?

R. Eu creio que com a imagem de Carme Chacón (atual Ministra de Defesa espanhola) pondo firmes aos militares sim que lhe haveria dado ataque de nervos.

P. O que você vê nos espanhóis? Por que os espanhóis lhes interessa tanto?

R. Não sei. É uma pergunta que sempre me fiz. Eu vim aqui e encantei-me de tudo: o sentido de humor, o calor da gente, a generosidade. Apaixonei-me pelos espanhóis. Há filhos da puta, como em qualquer lugar. Porém, no geral, a maneira de ser dos espanhóis me enlouquece.

P. Por que aos hispanistas gostam tanto das ‘tapas’ e das tabernas?

R. No há nada comparável na Inglaterra. Aqui pedes uma cerveja, e te põem uma cerveja. Na Inglaterra talvez tenhas que ficar numa fila por quinze minutos.

P. Pesquisar sobre Espanha lhe induz a ‘tomar todas’?
R. Não, isso não. Possivelmente o maior hispanista depois de Brenan, John Elliot, é totalmente abstêmio.

P. Você gosta de Zapatero?
R. Não lhe conheço pessoalmente, mas sim, me parece simpático.

P. Acredita que Esperanza Aguirre se parece com a senhora Thatcher?
R. É difícil dizer, porque tampouco a conheço. A Mrs. Thatcher era uma força da natureza.

P. Pois a Aguirre dá-lhe um tempo.
R. Não creio, porque, se tivesse todas as qualidades, más e boas, de Mrs. Thatcher, já havia se apoderado de seu partido.

P. Talvez esteja neste momento.
R. Não acredito.

P. Quantos telejornais faltam a Rajoy?
R. Nem idéia. Sou um ‘guiri’. Vivo longe.

P. O Liverpool empatou terça-feira com o Chelsea na Champions. Aborreceu-lhe este resultado?
R. Deu-me uma alegria enorme porque eu não sou torcedor do Liverpool, que porra, sou torcedor do Everton, que é o time dos liverpoolenses de verdade.
P. E o que lhe parece mais trágico, esse empate ou que lhe interrompam a ‘siesta’?
R. Rapaz, é trágico que não ganhe o Chelsea.

P. Ao Príncipe Charles já lhe passou sua hora?
R. A rainha acaba de cumprir 82 anos e está como uma flor. Se não há um traspasso logo, vai ser muito difícil. E ainda que me caia muito bem, o Príncipe Charles é um personagem não muito popular. Por outro lado, seus dois filhos são super populares. Talvez se salte uma geração. Não sei.

P. E em que ponto está a ‘paella’ de Felipe de Bourbon?
R. Depende das circunstâncias nas quais se faça o traspasso de poderes. Eu tenho muito bom conceito sobre o Príncipe. Falei longamente com ele um par de vezes, e me parece muito inteligente, muito bem preparado. Porém tem a desvantagem de carecer da justificação da Monarquia que leva seu pai.

P. Tem você a língua tão ferina como dizem?
R. Rapaz, é que se fala aqui muito do ‘mala follá granaíno’, porém não é nada em comparação com o ‘mala follá liverpoolense’. Eu sou. E nós somos uns escorpiões.

P. No que você acredita?
R. No trabalho, em meus filhos. E tenho valores políticos, ainda que não milite. Durante a transição aqui, a finais do franquismo... É a única vez em minha vida que militei algo em política. Mas eu sou dos que acreditam que contra Franco vivíamos melhor.

P. Você gosta de todo tipo de música, salvo o rap. Sería capaz de bailar o chiki chiki?
R. Eu nunca fui bom dançarino, ainda que nos anos sessenta ganhei um prêmio de rock and roll. E o chiki chiki... Eu creio que o chiki chiki é outra atividade. Para o chiki chiki não faz falta ter parceira disposta? Porque se não, não me interessa. Porém tenha em conta que meu vocabulário é muito limitado. Insisto: sou um pobre ‘guiri’.

Perfil
Tem 61 anos, dois filhos e um castelhano mais típico que o falado na Rua de Álcalá, em Madri. Acaba de publicar “El gran manipulador. La mentira cotidiana de Franco.” Gosta de comer, beber - cita os caldos espanhóis como si fossem a guia telefônica-, cozinhar e ler novela ‘noir’, "minha grande debilidade", da que consome uma centena de títulos ao ano. Diz "adorar o futebol", esporte que praticava quando era jovem, quando "se sobressaia com os dardos" e era "um craque com o pebolim".

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Paul Preston

De Wikipedia, la enciclopedia libre

Paul Preston (Liverpool, Reino Unido, 1946), historiador autor de diversas obras sobre la Historia Contemporánea de España, es Doctor en Historia por la Universidad de Oxford y catedrático de Historia Contemporánea española y director del Centro Cañada Blanch para el Estudio de la España Contemporánea. También fue profesor de Historia en la Universidad de Reading, en el Centro de Estudios Mediterráneos, en el Queen Mary College y en la London School.

Junto a Ian Gibson y Hugh Thomas, constituye el núcleo de los hispanistas británicos que han dedicado su esfuerzo al estudio de la historia reciente española, especialmente a la de la Segunda República y la Guerra civil españolas.

Posee la Encomienda de la Orden del Mérito Civil y es miembro de la Academia Británica.
Biografía

Nacido en la ciudad de Liverpool, Inglaterra. Impartió clases en la Universidad de Reading entre 1973 y 1991.

Más tarde ejerce como profesor de Historia Contemporánea en el Queen Mary College de la Universidad de Londres, y después pasa al London School of Economics & Political Science (del inglés, literalmente Instituto de Economía y Ciencias Políticas de Londres) como Catedrático y Director del Centro Cañada Blanch para el estudio de la historia contemporánea de España de la misma universidad. Escribe artículos en diversas publicaciones y colabora también con la BBC como comentarista de la actualidad española. Se le acusa de no ser neutral ni objetivo en sus escritos y de dar importancia excesiva a testimonios de terceros (...dijo que se había dicho, en una conversación con él..., cuando el caudillo vivía me dijo...,etc.) y de idealizar a los voluntarios extranjeros, especialmente anglosajones o escritores y periodistas como él (por ejemplo, Ernest Hemingway).
Sus obras se centran en la Historia reciente de España, desde la Segunda República Española (1931-1936), muy especialmente la Guerra Civil Española (1936-1939) hasta la Transición Española (1976 - 1982).

En el plano personal, es aficionado del Everton

Obras principales
• Franco: Caudillo de España (1994)
• Palomas de guerra y España y las grandes potencias en el siglo XX
• Franco y La política de la venganza: el fascismo y el militarismo en la España del siglo XX
• La política de la venganza: el fascismo y el militarismo en la España del siglo XX (1997)
• La Guerra Civil (2000)
• Palomas de guerra. Cinco mujeres marcadas por el conflicto bélico (2001)
• La destrucción de la democracia en España (2001)
• Las tres Españas del 36 (2001)
• Juan Carlos: el Rey de un pueblo (2003)
• El triunfo de la democracia en España
• Las tres Españas del 36
• Idealistas bajo las balas (2007)
• El gran manipulador. La mentira cotidiana de Franco (2008)

Véase también
• Ian Gibson Hispanista y ensayista.
• Hugh Thomas

Enlaces externos
• Entrevista al historiador Paul Preston: "Juan Carlos se ha convertido en el rey de los republicanos" de Pascual Vera, Universidad de Murcia (2003)
• La Transición Española de Paul Preston, monografía especial de 16 capítulos del volumen 13 de la colección Historia de España de Historia 16.
• Entrevista con Paul Preston en sobre su libro Idealistas bajo las balas. La Ventana, Cadena Ser.

sexta-feira, abril 18, 2008

É preciso














É preciso viver,
sair da casa paterna,
quebrar a cara na cidade grande,
viver.

É preciso rasgar
as velhas poesias,
os velhos sentimentos,
e sentir coisas novas,
escrever novos versos,
viver.

segunda-feira, abril 07, 2008

A economia de mercado não é suficiente para criar uma civilização


ENTREVISTA com André Compte-Sponville

“A economia de mercado não é suficiente para criar uma civilização”
Milagros Pérez Oliva – El País - 24/02/2008

Tradução Antonio de Freitas Jr.


Um dos poucos filósofos que conectam com o grande público. Defende a espiritualidade laica e a “alegre desesperança” em um tempo de muitas perguntas e poucas respostas.

É capaz de encher grandes auditórios falando de filosofia, e seus livros, com títulos tão expressivos como “Pequeno tratado de grandes virtudes”, “É moral o capitalismo?” ou “A felicidade, desesperadamente”, venderam como best sellers. Em sua casa de Paris, muito próximo da Gare de Lyon e do Sena, no último andar de uma vetusta casa senhorial, André Compte-Sponville se deixa levar pelo caudal de seu pensamento. Se mostra cálido e acolhedor, porém guarda uma educada distancia até que o gravador é ligado. Então se senta no extremo da poltrona, se inclina sobre o aparato e permanece assim a maior parte do tempo. É um homem atraente, e ele sabe disto. Alto, delgado, de cabelo lacio e indômito, o corte que leva lhe dá o ar de um adolescente inconformista, ainda quando já esteja na metade dos cinqüenta. Têm dois filhos aos que adora, porém que não lhe seguiram nem em seu amor pela filosofia nem na paixão intelectual.
Acabam de publicar na Espanha “La vida humana”, ilustrado com desenhos de sua mulher, a pintora Sylvie Thybert. Em 1998 deixou a universidade para dedicar-se exclusivamente a escrever. Quando começou a ensinar filosofia não podia imaginar que se produziria este renascer. O atribui ao declive das respostas pré-fabricadas que nos anos cinqüenta davam as grandes religiões e as grandes ideologias, como o marxismo. “Como as pessoas tinham muitas respostas e poucas perguntas, não necessitavam da filosofia. Agora há muitas perguntas e poucas respostas, e isso é bom para a filosofia”, disse. Porém há outra razão: a filosofia se fez mais acessível. Ele foi um dos primeiros filósofos a escrever livros sem notas de rodapé, isto é, para o grande público. Em 2006 apareceu “El alma del ateísmo. Introducción a uma espiritualidad sin dios”. Por aí começamos.

P - Em ‘El alma del ateísmo’, você confessa que teve como uma necessidade imperiosa, uma espécie de urgência de falar de espiritualidade. Por quê?

R - Tive uma urgência pessoal, do tipo existencial, porque a vida é curta e pensei que seria uma pena esperar a estar morto para ter uma vida espiritual, sobretudo se, como eu, você acredita que depois da morte no há nada. Porém também há uma urgência social porque creio que estamos ameaçados por dois perigos simétricos: por um lado, o fanatismo, o integrismo e o obscurantismo, e por outro, o niilismo. E tenho a impressão de que a civilização ocidental não sabe muito bem o que fazer diante destes dois perigos.

P - Sabemos bem que é o fanatismo religioso, porém o que é hoje o niilismo?

R - Como sabes, 'niil' em latim significa 'nada', assim que os niilistas, para mim, são as pessoas que não acreditam em nada, que não respeitam nada, que não têm nem valores, nem princípios, nem ideais. Há um novelista, Michel Houellebecq, um autor com talento ainda que bastante sórdido e antipático, que me parece interessante porque faz uma descrição niilista de uma sociedade niilista. Em sua última novela, por exemplo, o personagem principal, que é o próprio autor ou ao menos se parecem muito, disse (é uma expressão vulgar; eu sinto muito): “A mim só me interessa meu pau, nada mais”. Um niilista é isso: alguém ao que não lhe interessa nada mais que sua pequena trivialidade, seja o sexo, o dinheiro, o luxo. O que nos têm que dar mais medo é que não temos nada com que possamos nos opor ao fanatismo de alguns e ao niilismo dos outros. Combater a Bin Laden ou ao Opus Dei com as posições de uma sociedade como a que descreve Houellebecq nos leva ao desastre. Por isso decidi lutar contra os dois adversários: contra o fanatismo, obviamente, porém também contra o niilismo.

P - O niilismo renuncia aos valores, porém o fanatismo intenta se apropriar dos mesmos. Frente a ambos defende você uma espiritualidade laica. Em que consiste?

R - Na defesa dos grandes princípios que a historia selecionou como valores de progresso, desde o “não matarás” do cristianismo até os valores de igualdade e liberdade da Ilustração. Não se trata de inventar uma nova moral, senão de transmitir a moral que recebemos e que se foi elaborando ao largo de milênios. Foram milênios de historia acumulada que cada geração transmitiu a seus filhos o que em sua opinião era o melhor daquilo que haviam recebido, e isto terminou por conformar uma civilização.

P - Em uma de suas conferencias fez um símil que eu gostei especialmente: “A moral é para a civilização o que os genes são para a biologia”.

R – É assim. Eu quando leio os evangelhos, estou de acordo no essencial com seus postulados morais, igual que quando leio a Platão, Aristóteles, Epicuro ou aos estóicos. O que seria uma pena é que, pelo fato de não crer em Deus, como é meu caso, prescindamos dessa herança, porque isso conduz ao niilismo e joga lenha no fogo dos fanáticos, que dirão que a única maneira de escapar do niilismo é a religião. Não é necessário crer em Deus para estar ligado a uns valores morais.

P - As diferentes igrejas estão muito enfrentadas, porém há algo no que coincidem e se apóiam: fazer frente ao laicismo. O novo fanatismo religioso é uma demonstração de debilidade ou de força?

R - Creio que ambas as coisas. Primeiro, uma demonstração de debilidade, de angustia diante da idéia de que algo está a ponto de terminar, obviamente a influencia massiva da religião. Mas também é uma reação de força, porque está claro que nos equivocamos ao pensar que o problema havia desaparecido. Na minha época universitária se considerava que a religião era uma velha lua que se havia deixado para trás. Quarenta anos depois, a velha lua segue ai. É certo que esta forma de fanatismo ocorre especialmente no mundo muçulmano, mas também, ainda que menos grave, em certas reações integristas da Igreja católica.

P – Na Espanha as sofremos muito ultimamente. Não crê que com esta atitude a Igreja corre o risco de ressuscitar o anticlericalismo?

R - Seria um erro basear-se nisto para declarar a guerra à religião, porque para mim o adversário não é a religião. Que as pessoas acreditem ou não em Deus, pra mim não me incomoda em absoluto; de fato, muitos de meus amigos são cristãos. Os adversarios são o fanatismo e o niilismo. E é muito importante não se equivocar de adversário, porque se se luta contra a religião em geral, se está metendo a todos os crentes no mesmo saco que os fanáticos, que é o que querem estes últimos, obviamente. Eu luto contra os fanáticos e contra o obscurantismo, mas me considero aliado de todos os espíritos livres, abertos e tolerantes, creiam ou não em Deus.

P - Desde o materialismo histórico inicial, como evolucionou seu pensamento?

R - Sigo sendo materialista, e também racionalista e humanista, se quiser qualificar-me com palavras terminadas em ista. Que significa ser materialista? Significa que penso como Epicuro e como Marx também, que tudo o que existe é material, que não há um Deus imaterial nem uma alma imaterial, e que o que pensa em mim é o cérebro. Mas também sou humanista, não um humanista especulativo que celebra a grandeza da natureza humana, na qual não creio, senão um humanista convencido de que, dado que não existe um Deus, a humanidade é o mais apreciado que temos e há que preservar-la apesar de suas debilidades.

P – Me surpreendeu muito a parte de seu livro na qual fala do 'sentimento oceânico'. Narra você uma experiência transcendente que teve em um bosque! Como se chega a esse estado?

R - Desde que se publicou o livro recebi muitíssimas cartas e falei do tema com muita gente. Há duas categorias de pessoas: umas que me disseram que se alegraram muito porque havia descrito com palavras umas experiências que elas também haviam vivido, mas não sabiam como expressar, e outras que me disseram que nunca experimentaram nada parecido. Assim que cheguei à conclusão de que este sentimento oceânico é uma experiência que não é única nem excepcional, porém que tampouco é universal, porque há milhões de pessoas que a experimentaram e milhões que não.

P – E que é exatamente?

R – A expressão “sentimento oceânico”, como você sabe, já era utilizada por Freud, que a tomou emprestado de seu amigo o escritor Romain Rolland, para descrever experiências místicas, ou seja, o que agora os psicólogos definem como estados modificados da consciência. Este sentimento oceânico se caracteriza por uma sensação de mistério e de naturalidade indissociáveis, uma sensação de plenitude, de unidade, de simplicidade, de eternidade, de serenidade. Porém isto não tem lugar no encontro com um ente superior, não estou falando da transcendência. É o que eu denomino “mística da inmanencia”, a sensação de ser um com a natureza, um com o todo. Romain Rolland o denominou “sentimento oceânico” porque somos um com todo, como a onda ou a gota de água são um com o oceano.

P – Às pessoas educadas no materialismo ficam nervosas ao ouvir falar de espiritualidade, e mais nestes termos, não?

R - Sim, sim que costumar acontecer. Em meu caso, quiçá tive a sorte de haver sido primeiro cristão e logo ateu, e estou mais familiarizado. Alguns amigos meus são materialistas, por assim dizer, desde que nasceram, costumam ser filhos de comunistas. E quando vejo a meus amigos ficarem nervosos falando destas coisas, penso que lhes falta algo: uma dimensão poética. Não há que confundir religião com espiritualidade. Esse é um erro que cometem às vezes tanto os crentes como os ateus: pensar que somente é possível ter espiritualidade quando se professa uma religião.

P - Você conheceu a Louis Althusser, que foi uma autoridade do pensamento marxista. Também o foi Nikos Poulantzas. Alguns dos intelectuais que pertencem a essa geração tiveram um final trágico, como o próprio Althusser. Poulantzas se jogou do alto de um edifício, e Gilles Deleuze se suicidou também. Alguns viram nestas mortes trágicas uma metáfora sobre o ocaso de um pensamento.

R – Eu não comparto esta idéia, porque é certo que Poulantzas se suicidou como você disse, porém Gilles Deleuze se suicidou porque estava muito, muito enfermo: lhe doíam muito os pulmões e já não podia respirar. E quando a vida se torna demasiado difícil, o suicídio pode ser uma reação saudável. Ele se suicidou muito velho e muito enfermo, o que não foi o caso de Poulantzas, que se suicidou jovem e, pelo que sei, à causa de uma depressão. E também é diferente o caso de Louis Althusser, que estrangulou a sua mulher e teve um final de vida extremadamente infeliz.

P - Como recorda a figura de Althusser?

R - Fui aluno e amigo seu e sentia muito afeto por ele. Creio que seu principal mérito foi tentar explorar o que resultou ser um ponto morto, levar totalmente a sério a idéia de que o marxismo era uma ciência e que a partir dele se podia elaborar uma filosofia. Althusser tentou, com o talento que todos sabemos que tinha, e não conseguiu. Resulta trágico pensar que haja trabalhado 50 anos para chegar praticamente a nada. Em Althusser confluía ademais outra dimensão, que era sua enfermidade. Como você sabe, sofria um transtorno maníaco-depressivo…

P - O que agora se catalogaria como um transtorno bipolar. O tratavam?

R - Sim, estava em tratamento, porém tinha uma desvantagem muito grande: que não reagia aos sais de lítio, que era então o único medicamento eficaz. Não sei se lhe submeterem ademais a eletrochoques, creio que sim, porém o caso é que o tratamento não surtiu efeito e não impediu que matara a sua mulher em uma fase maníaca aguda. Nem lhe impediu tampouco ser consciente desse horror durante os dez anos que sobreviveu ao assassinato.

P - Você lhe acompanhou até o final…

R - Sim, nos víamos muitas vezes. E de fato tivemos uma relação mais próxima depois de que assassinara a sua mulher que antes, porque antes era meu professor, nos tuteábamos e sentia muita admiração por ele, porém havia certa distância. Depois nos aproximamos muito. Era um amigo maravilhoso e o homem mais triste que jamais conhecido.

P - O próprio Althusser escreveu depois um livro com um dos títulos também mais tristes, ‘L’avenir dure longtemps’. A idéia de que o futuro não se acaba nunca é terrível, não crê?

R - Sim, está certo. O fato de que se encontrara em um ponto morto filosófico não era a causa de sua patologia mental, está claro; não era infeliz só por isso. Porém creio que a sensação de haver fracassado na filosofia deve ter aumentado muito seu sofrimento.

P - Você se define a si mesmo como um filho de Maio de 68. Que resta de tudo aquilo? Como o vê agora?

R - A verdade é que tenho uma postura bastante ambivalente. Guardo um recordo maravilhoso porque foi uma grande sorte viver aquele momento com 16 anos. Seguem-me fascinando esses meses de maio e junho que vivemos, porém não tanto os 40 anos que lhes seguiram. Pra mim, eu gostaria dizer que Maio de 68 esteve bem, porém que já terminou. Nicolas Sarkozy propôs erradicar, abolir, tudo o relativo a Maio de 68, porém eu digo que o que há que fazer é superá-lo. Porque no fundo, foi uma crise de adolescência da sociedade francesa. E podemos dizer que tivemos sorte, porque a maioria destas crises são tristes e lúgubres, enquanto que a nossa foi festiva e alegre. Mas há que superá-la, e só há duas formas de fazê-lo: voltar à infância, ao infantilismo, ou seguir crescendo para alcançar a maturidade.

P - A verdade é que não se vislumbra um pensamento tão forte, capaz de despertar tantas esperanças…

R – Eu não creio que aquele pensamento fosse tão forte. O paradoxo é que se baseava em categorias políticas do século XIX, porque Marx é um escritor do século XIX, e os da geração de 68, que eram mais bien libertários, acabaram adorando a ditadores como Lênin, Stalin, Mao… Aquele pensamento fracassou porque era mal, é assim de simples: Marx se equivocou, Lênin se equivocou e Stalin mais ainda, ou ao menos de uma forma mais criminal.

P - Se estas ideologias fracassaram, que significa hoje ser de esquerdas?

R - Fundamentalmente estar do lado dos mais pobres e dos mais débeis. Porém, o que faz com que melhore a situação dos mais pobres? O Estado, como costuma dizer a esquerda, ou a economia de mercado? Pois depende: na França, curiosamente, temos a idéia de que ser de esquerdas é estar a favor do Estado, e ser de direitas, a favor do mercado. Contudo, cuidado!, se o mercado favorece aos pobres mais que o Estado, ser de esquerdas é estar a favor do mercado.

P - Você como se define?

R - Como liberal de esquerdas: de esquerdas porque cheguei à conclusão de que o objetivo da política é ajudar aos mais débeis, aos mais desfavorecidos; porém liberal, porque inclusive para os mais pobres, a economia de mercado é mais favorável. Agora bien, não se pode contar com o mercado para que faça justiça: é o Estado o que tem que regular o mercado para conseguir que os mais pobres também tenham sua oportunidade. Creio que a economia de mercado triunfou, porém ainda que seja fantástica para criar riqueza, nunca foi suficiente para criar uma civilização, nem sequer para criar uma sociedade que seja humanamente aceitável. Necessitamos que o Estado se ocupe do que não se pode vender, isto é, do essencial.

P - Em seu livro ‘La felicidad, dessesperadamente’ defende que para ser feliz é melhor desejar unicamente o que depende de nós mesmos.

R – Os estóicos distinguiam entre o que depende de nós e o que não. E é melhor desejar aquilo que depende de nós, porque nesse caso querer significa atuar, que desejar aquilo que não depende de nós, porque então há que contentar-se com esperar. Obviamente, um encontra mais felicidade na ação que na esperança, porque se desejas o que não depende de ti, terás medo de que não suceda. O caminho até a felicidade é o caminho da ação, do amor.

P - Comparto o que disse em ‘La vida humana’ quando afirma que o amor mais forte que há é o amor pelo filho.

R - Sim, é verdade, esse amor é o que está por cima de todos. Ao menos é o que eu vivi. Um pode estar apaixonado, querer a seus amigos, a seus pais, porém creio que o amor mais forte é o que sentimos por nossos filhos, o único que é incondicional. E desde este ponto de vista, que Deus seja pai na tradição cristã não é uma casualidade, ainda que na minha opinião, se houvesse sido mãe, haveria sido ainda melhor. Mas não há nada como o amor pelo filho, e creio que a humanidade deve sua sobrevivência a cinco mil anos de amor maternal.

P - Também destaca o amor da mãe, ainda quando essa mãe não seja, como a sua mesma, perfeita; “inclusive quando seja uma mãe patológica”, diz no livro. A que se refere?

R - Minha mãe era depressiva e alcoólatra. Sofria um tipo de histeria – bom, eu não soube disto até muito mais tarde – que se converte em depressão ao entrar nos 40 ou os 50, quando a sedução aparece já como algo impossível. Ao tornar-se depressiva, como a relação com meu pai tampouco estava bem, começou a beber. O alcoolismo é em si mesmo um sintoma neurótico, e a mistura histeria–depressão-álcool define um quadro claramente patológico. Porém, ao mesmo tempo nos amava – pelo menos a meu irmão e a mim, porque minha irmã era uma pessoa mais difícil– com paixão.

P - Podia perceber esse amor por cima de todos os problemas?

R - Claro, eu passei toda a infância temendo morrer antes dela porque não sabia como poderia sobreviver sem mim. Ela tentou suicidar-se duas vezes quando éramos pequenos, e na terceira, quando já éramos maiores, conseguiu. Nos ocupávamos muito dela, mas estava enferma. E ao final se suicidou.
Quando me ouvem falar do amor maternal, as pessoas me dizem: “Tú deves ter tido uma mãe maravilhosa”. Eu tive uma mãe que me amou mais que a ninguém, aparte de meu irmão. E isso é algo que passa quase sempre: as mães amam a seus filhos mais que a qualquer outra pessoa. Isto é o que mais me comove deste amor: que é o amor mais excepcional que há, porque ninguém nunca me amou como ela, e ao mesmo tempo é o mais banal, porque há milhares de milhões de mulheres que amam a seus filhos do mesmo modo.

P – No seu livro diz que quando tinha 20 anos acreditava que lhe havia passado tudo... mas o pior ainda estava por chegar. A que se referia?

R - Aos 20 anos eu era muito, muito desgraçado porque aprendi a amar no quadro da infelicidade da minha mãe. Não suportava que minha mãe fosse infeliz, mas o era, e portanto, eu também, e ademais meus pais se levavam horrivelmente mal. Assim que pensava que o pior já havia passado porque acreditava que o pior havia sido minha infância. Mas me equivoquei porque mais tarde perdi a meu primeiro filho, uma menina, às seis semanas, e isso foi muito pior que o que havia vivido em minha infância. Logo perdi a minha mãe daquela maneira. Quando te ocorrem estas coisas, sentes uma pena atroz. Quiçá pela família tão difícil na que cresci, fui sempre mais sensível que outros à fragilidade da existência. Mas em geral vivo no que em termos filosóficos denomino “a alegre desesperança”: uma vez que entendemos que há cosas que não podemos controlar e que só nos espera a morte, nos damos conta de que o melhor que podemos fazer é desfrutar ao máximo da vida que temos.

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André Comte-Sponville
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

André Comte-Sponville (
1952, Paris) é um filósofo materialista ateu francês. Estudou na École Normale Supérieure.

Sponville utiliza o referencial de Jean Paul Sartre que já havia dito que "todos somos responsáveis por todos" e de Dostoievsky, "somos todos responsáveis por tudo, diante de todos".

Foi membro do clube de Roma entre 1989 a 1997. E atualmente é professor na Universidade de Paris.
Criticou a entrada de
Mikhail Gorbatchev no Clube de Roma, em 1994.

Obras: A Felicidade, Desesperadamente; Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999, Tradução de Eduardo Brandão.

segunda-feira, março 31, 2008

No seu próprio filme




















E muitas vezes
não fui eu.

Fui John Wayne,
capturando rinocerontes selvagens
em Hatari,

fui Elvis,
numa briga de bar
rodeado por mil garotas
dançando ula-ula,

fui Buck Rogers,
cruzando galáxias
num caça estelar,

fui Michael Corleone
decidindo sobre a vida
e a morte
das pessoas,

fui Roberto Carlos,
em ritmo de aventura,
e fui Didi Mocó,
nas minas do rei Salomão.

Mas acredito,
piamente,
que ser adulto
é ser você mesmo,
no seu próprio filme.

segunda-feira, março 24, 2008

O poder tem medo da Internet

ENTREVISTA Manuel Castells - PROFESSOR DE SOCIOLOGÍA

Por MILAGROS PÉREZ OLIVA - El País - 06/01/2008

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Se alguém estudou os interiores da sociedade da informação foi o sociólogo Manuel Castells (Hellín, 1942). Sua trilogia A Era da Informação: economia, sociedade e cultura (Editora Paz e Terra) foi traduzida a 23 idiomas. É um dos primeiros cérebros resgatados: voltou à Espanha, para dirigir a pesquisa da Universitat Oberta de Catalunya, em 2001, depois de haver pesquisado e ministrado aulas durante 24 anos na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Uma de suas pesquisas mais recentes é o Projeto Internet Catalunha, no qual durante seis anos analisou, mediante 15.000 entrevistas pessoais e 40.000 através da Internet, as mudanças que Internet introduz na cultura e na organização social, além de acabar de publicar, com Marina Subirats, Mujeres y hombres, ¿un amor imposible? (Alianza Editorial), onde aborda as conseqüências destas mudanças.

Internet amplifica a mais velha brecha social da historia, que é o nível de educação

Pergunta. Esta pesquisa mostra que Internet não favorece o isolamento, como muitos crêem, senão que as pessoas que mais chateam são as mais sociáveis.

Resposta. Sim. Para nós não é nenhuma surpresa. A surpresa é que esse resultado haja sido uma surpresa. Há pelo menos 15 estudos importantes no mundo que dão esse mesmo resultado.

P. Por que o senhor acredita que a idéia contraria se estendeu com sucesso?

R. Os meios de comunicação têm muito que ver. Todos sabem que as más noticias são mais noticias. Você utiliza Internet, e seus filhos, também; mas ocorre que é mais interessante crer que está cheio de terroristas, de pornografia... Pensar que é um fator de alienação resulta mais interessante que dizer: Internet é a extensão de sua vida. Se você é sociável, será mais sociável; se não é, Internet lhe ajudará um pouquinho, mas não muito. Os meios são em certo modo a expressão do que pensa a sociedade: a questão é por que a sociedade pensa isso.

P. Por medo ao novo?

R. Exato. Mas medo de quem? Da velha sociedade a nova, dos pais a seus filhos, das pessoas que tem o poder ancorado em um mundo tecnológica, social e culturalmente antigo, com relação ao que lhes chega de novo, que não entendem nem controlam e que percebam como um perigo, e no fundo o é. Porque Internet é um instrumento de liberdade e de autonomia, quando o poder sempre esteve baseado no controle das pessoas, mediante o controle da informação e da comunicação. Mas isto se acaba. Porque Internet não se pode controlar.

P. Vivemos em uma sociedade na qual a gestão da visibilidade na esfera pública mediática, como a define John J. Thompson se converteu na principal preocupação de qualquer instituição, empresa ou organismo. Mas o controle da imagem pública requer meios que sejam controláveis, e se Internet não é...

R. Não é, e isso explica porque os poderes têm medo da Internet. Eu estive em não sei quantas comissões assessoras de governos e instituições internacionais nos últimos 15 anos, e a primeira pergunta que os governos fazem sempre é: como podemos controlar a Internet? A resposta é sempre a mesma: não se pode. Pode haver vigilância, mas não controle.

P. Se a Internet é tão determinante da vida social e econômica, seu acesso pode ser o principal fator de exclusão?

R. Não, o mais importante seguirá sendo o acesso ao trabalho e à carreira profissional, e antes o nível educativo, porque, sem educação, a tecnologia não serve para nada. Na Espanha, a chamada brecha digital é por questão de idade. Os dados estão muito claros: entre os maiores de 55 anos, somente 9% são usuários de Internet, mas entre os menores de 25 anos, são usuários 90%.

P. Então, é somente uma questão de tempo?

R. Quando minha geração desaparecer, no haverá brecha digital no acesso. Agora vejamos, na sociedade de Internet, o complicado não é saber navegar, mas saber onde ir, onde buscar o que se quer encontrar y que fazer com o que se encontra. E isto requer educação. Na realidade, Internet amplifica a mais velha brecha social da historia, que é o nível de educação. Que 55% dos adultos não tenham completado, na Espanha, a educação secundaria, essa é a verdadeira brecha digital.

P. Nesta sociedade que tende a ser tão líquida, na expressão de Zygmunt Bauman, em que tudo muda constantemente, e que cada vez está mais globalizada, pode aumentar a sensação de insegurança de que o mundo se move debaixo dos nossos pés?

R. Há uma nova sociedade que eu tentei definir teoricamente com o conceito de sociedade-rede, e que não está muito longe da que define Bauman. Eu creio que, mais que líquida, é uma sociedade em que tudo está articulado de forma transversal e há menos controle das instituições tradicionais.

P. Em que sentido?

R. Se estende a idéia de que as instituições centrais da sociedade, o Estado e a família tradicional, já não funcionam. Então se move toda a terra sob nossos pés. Primeiro, as pessoas pensam que seus governos não as representam e não são confiáveis. Começamos, pois, mal. Segundo, pensam que o mercado vai bem aos que ganham e mal aos que perdem. Como a maioria perde, há uma desconfiança de que a lógica pura e dura do mercado lhe pode proporcionar às pessoas. Terceiro, estamos globalizados; isto quer dizer que nosso dinheiro está em algum fluxo global que não controlamos, que a população se vê submetida a umas pressões migratórias muito fortes, de modo que cada vez é mais difícil encerrar às pessoas em uma cultura ou em umas fronteiras nacionais.

P. Que papel desempenha a Internet neste processo?

R. Por um lado, ao permitirmos aceder a toda a informação, aumenta a incerteza, mas ao mesmo tempo é um instrumento chave para a autonomia das pessoas, e isto é algo que demonstramos pela primeira vez na nossa pesquisa. Quanto mais autônoma é uma pessoa, mais utiliza a Internet. No nosso trabalho definimos seis dimensões de autonomia, e comprovamos que quando uma pessoa tem um forte projeto de autonomia, em qualquer dessas dimensões, utiliza a Internet com muita mais freqüência e intensidade. E o uso da Internet reforça ao mesmo tempo a sua autonomia. Porém, claro, quanto mais uma pessoa controla a sua vida, menos ela confia nas instituições.

P. E maior pode ser sua frustração pela distância que há entre as possibilidades teóricas de participação e as que exercem na prática, que se limita a votar a cada quatro anos, não acredita?

R. Sim, há uma defasagem enorme entre a capacidade tecnológica e a cultura política. Muitos municípios instalaram pontos Wi-Fi de acesso, mas se ao mesmo tempo não são capazes de articular um sistema de participação, servem para que as pessoas organizem melhor suas próprias redes, mas não para participarem na vida pública. O problema é que o sistema político não está aberto à participação, ao diálogo constante com os cidadãos, à cultura da autonomia, e, portanto, estas tecnologias o que fazem é distanciar ainda mais a política da cidadania.

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Manuel Castells
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Manuel Castells (Hellín, 1942) é um sociólogo espanhol. Entre 1967 e 1979 lecionou na Universidade de Paris, primeiro no campus de Nanterre e, em 1970, na "École des Hautes Études en Sciences Sociales".

Foi nomeado em 1979 professor de Sociologia e Planejamento Regional na Universidade de Berkeley, Califórnia. Em 2001, tornou-se pesquisador da Universidade Aberta da Catalunha em Barcelona. Em 2003, juntou-se à Universidade da Califórnia do Sul, como professor de Comunicação.
Segundo o Social Sciences Citation Index Castells foi o quarto cientista social mais citado no mundo no período
2000-2006 e o mais citado acadêmico da área de comunicação, no mesmo período.
Atualmente Castells reside em
Barcelona e Santa Monica, junto com a esposa Emma Kiselyova.

Teoria
Durante a
década de 70, Castells teve um importante papel no desenvolvimento da sociologia urbana Marxista. Enfatizou o papel dos movimentos sociais na transformação conflitiva da paisagem urbana.
Introduziu o conceito de "consumo coletivo" para compor um amplo alcance dos esforços sociais, deslocado do campo econômico para o campo político pela intervenção do Estado. Ao abandonar as estruturas Marxistas no início da
década de 80, começou a se concentrar no papel das novas tecnologias de informação e comunicação na reestruturação econômica.

Nos meados da década de 90, juntou os lados de sua pesquisa em um sólido estudo, chamado "A Era da Informação", publicado como uma trilogia entre 1996 e 1998.

Sociedade em Rede
O primeiro volume da Trilogia, "Sociedade em Rede - A Era da informação: Economia, sociedade e cultura", mapeia um cenário mediado pelas novas tecnlogias de informação e comunicação - TICs - e como estas interferem nas estruturas sociais. O autor constrói seu raciocínio partindo da história do forte desenvolvimento das tecnologias a partir da década de 70 e seus impactos nos diversos campos das relações humanas. Demonstra como tecnologias, inicialmente impulsionadas pelas pesquisas militares, foram amplamente utilizadas pelo setor financeiros, justamente em um momento de necessidade de reestruturação do capitalismo. Aproveitando-se do processo de desregulamentação promovido pelos EUA e organismos internacionais, como Banco Mundial e FMI, o capital financeiro multiplicou sua circulação entre os diversos mercados mundiais, em movimentos cada vez menos vinculados ao processo produtivo. As tecnologias também tiveram papel fundamental na reestruturação das empresas, que puderam horizontalizar suas estruturas e, por meio de TICs de baixo custo, transnacionalizar a produção. Ao analisar a questão da produtividade, Castells ressalta que a introdução das novas tecnologias somente começou a ter efeito a partir do final da década de 1990, o que justificaria a ausência de aumento de produtividade no período 1970-80. Ressalta, também, o impacto dessa reestruturação do capital financeiro e da nova sociedade organizada em rede em relação ao trabalho. Argumenta que, mais do que as novas tecnologias, as políticas empresariais e governamentais, bem como aspectos institucionais e culturais é que determinam os impactos na questão do emprego. Sustenta, ainda, que há um processo tendente à dualização do trabalho, com aumento substancial dos trabalhadores de alto nível e também de nível de menor qualificação, havendo um claro achatamento dos empregados de padrão intermediário de conhecimento e rendimento. Castells, igualmente, apresenta sua formulação teórica do que intitula "a cultura da virtualidade real", lembrando que as culturas consistem processos de comunicação e que, uma vez sendo a comunicação baseada em sinais, não há separação entre "realidade" e representação simbólica. Isso é importante para destacar que as relações humanas, cada vez mais, se darão em um ambiente multimídia, cujos impactos ainda estão por serem estudados.

segunda-feira, março 17, 2008

Rotina














Almoçar com o Ricardo Peixoto,
Beber chope no Água Doce com o Eracy,
Escrever poesia com o Josélio,
Encontrar a Geovana no Café Viena,
Ir a Londres com o Enrique,
Tomar um café com o Alfonso,
Escutar a poesia beat do Rossini,
Conversar com o Chico Ramos,
Jogar tênis com o Roney Pang Hsao,
Percorrer a feira do Paraguai com o Flavio,
Matar o tempo com o Juan Carlos,
Ouvir as incríveis estórias do Clidenor,
Sorrir das loucuras da turma do Jamais,
Pensar na vida numa mesa do Café Daniel Briand,
Debater política com o Mauro,
Dar um tempo no bar do Jesus,
Escrever minha tese no café do Dani,
Aprender sobre a vida com o Rafa Guardiola,
Buquinar na livraria do Gaspar,
Tomar um canadian com o Pepe Txontas,
Encontrar o Marcos Hidd sábado de manhã,
Ler “El País” numa calçada de Valencia,
Andar à noite pelo bairro de Carmen,
Passear domingo na Fnac,
Visitar a feira dos ciganos,
Comer acarajé na feirinha da torre,

Amar você,
Amar você,
Amar você.


Da série "Vida errante" ou "só me faltava essa, poesia".

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Mensaje del Comandante en Jefe


Les prometí el pasado viernes 15 de febrero que en la próxima reflexión abordaría un tema de interés para muchos compatriotas. La misma adquiere esta vez forma de mensaje.
Ha llegado el momento de postular y elegir al Consejo de Estado, su Presidente, Vicepresidentes y Secretario.
Desempeñé el honroso cargo de Presidente a lo largo de muchos años. El 15 de febrero de 1976 se aprobó la Constitución Socialista por voto libre, directo y secreto de más del 95% de los ciudadanos con derecho a votar. La primera Asamblea Nacional se constituyó el 2 de diciembre de ese año y eligió el Consejo de Estado y su Presidencia. Antes había ejercido el cargo de Primer Ministro durante casi 18 años. Siempre dispuse de las prerrogativas necesarias para llevar adelante la obra revolucionaria con el apoyo de la inmensa mayoría del pueblo.
Conociendo mi estado crítico de salud, muchos en el exterior pensaban que la renuncia provisional al cargo de Presidente del Consejo de Estado el 31 de julio de 2006, que dejé en manos del Primer Vicepresidente, Raúl Castro Ruz, era definitiva. El propio Raúl, quien adicionalmente ocupa el cargo de Ministro de las F.A.R. por méritos personales, y los demás compañeros de la dirección del Partido y el Estado, fueron renuentes a considerarme apartado de mis cargos a pesar de mi estado precario de salud.
Era incómoda mi posición frente a un adversario que hizo todo lo imaginable por deshacerse de mí y en nada me agradaba complacerlo.
Más adelante pude alcanzar de nuevo el dominio total de mi mente, la posibilidad de leer y meditar mucho, obligado por el reposo. Me acompañaban las fuerzas físicas suficientes para escribir largas horas, las que compartía con la rehabilitación y los programas pertinentes de recuperación. Un elemental sentido común me indicaba que esa actividad estaba a mi alcance. Por otro lado me preocupó siempre, al hablar de mi salud, evitar ilusiones que en el caso de un desenlace adverso, traerían noticias traumáticas a nuestro pueblo en medio de la batalla. Prepararlo para mi ausencia, sicológica y políticamente, era mi primera obligación después de tantos años de lucha. Nunca dejé de señalar que se trataba de una recuperación "no exenta de riesgos".
Mi deseo fue siempre cumplir el deber hasta el último aliento. Es lo que puedo ofrecer.
A mis entrañables compatriotas, que me hicieron el inmenso honor de elegirme en días recientes como miembro del Parlamento, en cuyo seno se deben adoptar acuerdos importantes para el destino de nuestra Revolución, les comunico que no aspiraré ni aceptaré- repito- no aspiraré ni aceptaré, el cargo de Presidente del Consejo de Estado y Comandante en Jefe.
En breves cartas dirigidas a Randy Alonso, Director del programa Mesa Redonda de la Televisión Nacional, que a solicitud mía fueron divulgadas, se incluían discretamente elementos de este mensaje que hoy escribo, y ni siquiera el destinatario de las misivas conocía mi propósito. Tenía confianza en Randy porque lo conocí bien cuando era estudiante universitario de Periodismo, y me reunía casi todas las semanas con los representantes principales de los estudiantes universitarios, de lo que ya era conocido como el interior del país, en la biblioteca de la amplia casa de Kohly, donde se albergaban. Hoy todo el país es una inmensa Universidad.

Fidel Castro Ruz

18 de febrero de 2008
5 y 30 p.m.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

Da simpatia e outros demônios














Simpatia e antipatia são coisas sem explicação. A pessoa vê e pensa: não dá. É como dizia meu primo de Minas, não li e não gostei. Afinal, como é possível não gostar de um autor que nunca leu? São estas coisas que denominamos simpatia ou antipatia.

Como é igual a todo mundo. Existem pessoas, países e coisas por quem presumo a maior simpatia deste mundo. Ao contrário, não gosto nem de me lembrar dos antipáticos, cuja tênue lembrança amarga o gole da cerveja mais gelada.

Dentre as pessoas que nunca conheci, e por quem tenho a maior simpatia está o Pepê. Sim, o Pedro Paulo marido da Carolina, nosso famoso piloto de asa delta, morto há alguns anos. Tudo que já li sobre o Pepê me faz um de seus maiores fãs. Não que’u seja desportista, como ele, muito ao contrário. Todas as vezes que tive vontade de praticar um esporte, me sentei e bebi algo, esperando passar esta vontade. Não sendo um desportista, minha simpatia pelo Pepê é algo simpático. Talvez, tenha começado pelo seu nome Pedro Paulo, é algo tão simples, tão básico, tão autêntico.

Depois, o Pepê era um garoto do Rio, tudo o que um garoto nascido no interior do Brasil nunca podia ser. Às vezes penso se não é influência do filme “Menino do Rio” que assisti quando era criança e sonhava viver todas aquelas aventuras com a filha de nossa vizinha, na época.

Ademais, o Pepê tinha um barraca na praia e era casado com uma garota chamada Carolina. A junção dos nomes é divina. Pedro Paulo e Carolina. Deus, como queria ter sido amigo deste casal. Como imaginei-me o melhor amigo do Pepê, compartilhando suas viagens e opiniões sobre este nosso mundo.

Acontece que ele se foi muito cedo e eu vivia muito longe, e quiçá, ainda viva. E, infelizmente, não tínhamos muita coisa em comum.

Tudo isso é pra dizer que outro dia li uma nota numa revista semanal, com atraso, sobre o casamento do Nelsinho Mota com a Constanza Pestolazo, em Nova Iorque. Eles, nem sequer me imaginam, mas eu os admiro e devoto por eles uma grande simpatia há anos. São pessoas lindas, bem sucedidas, que dá gosto em dizer que são brasileiras, muito embora estejam desde muito espalhadas pelo mundo. Um casamento de duas pessoas super simpáticas, na casa dos cinqüenta, que eu sempre admirei. É a maior prova que o amor não tem idade, quando se é simpático, e uma grande esperança para mim, sobre o amor.

Nelsinho e Constanza, que vocês continuem a se encontrar pelo mundo, e a serem estas pessoas, simpáticas, que vocês são. Eu, onde estiver, os admiro e dou graças a Deus por vocês serem o que são, além de rogar por vossas felicidades, e de pedir a Deus um amor assim.

* Escrito na cidade de Valencia, Espanha, em 22 de setembro de 1999.

sexta-feira, dezembro 28, 2007

Juan António Cebrián, sit tibi terra levis



Alegre y feliz como
una lombriz.

Juan António Cebrián




Uma das maravilhas que descobri nos meus anos de Espanha foi o rádio. Sim, o rádio como companheiro de madrugadas, em longas jornadas de leitura, escrita e insônia, muita insônia. A Espanha possui algumas estações de rádio que são verdadeiras maravilhas de informação, diversão, cultura e que funcionam durante as vinte e quatros horas do dia. Com a rádio espanhola aprendi muito sobre a Espanha, sobre a língua castelhana e, principalmente, sobre a “Hispanidad”, esta sensação de inclusão num universo muito maior que o da restrita “Comunidade de Povos de Língua Portuguesa” em que vivemos, sem darmos conta.

A “Hispanidad” suplanta e inclui a “Comunidade de Povos de Língua Portuguesa”, supera as divergências Ibero-americanas e une a todos os mais de quatrocentos milhões de “hispano-hablantes” num abraço que transpassa os séculos, os impérios do passado e forja a têmpera de uma cultura esplêndida.

E aqueles programas radiofônicos que eu escutava nas minhas noites insones, naquela Espanha de começo de século XXI, possuíam nomes hilários. “Cuando los elefantes sueñan con la música”, “brasilidad y negritud”, com Carlos Galilea na Radio Nacional de Espanha, Radio 3, que em certa noite nos disse que somente fez da música sua profissão graças a Milton nascimento e à Turma do Clube da Esquina. “Goma espuma”, na M80 Rádio, com Juan Luis Cano e Guillermo Fesser, que ouvia todas as manhãs, geralmente ressacado.

Contudo, um programa era o meu favorito naquelas madrugadas: “La Rosa de los Vientos”, com Juan António Cebrián.

“La Rosa de los Vientos”, nesta época, era um programa diário que deliciava minhas noites espanholas com muita informação, dicas de música, de meio ambiente, de viagens pelo planeta, algumas extravagâncias paranormais e muita História. O programa era apresentado por Juan António Cebrián, um locutor de voz de veludo, que antes já havia apresentado uns programas no mesmo formato da “Rosa...”, tais como 'La Red' , 'Azul y verde' e mais famoso de todos o 'Turno de noche'.

A equipe da “Rosa...” era formada por gente fantástica como Bruno Cardeñosa, Fernando Rueda, José Manuel Escribano e a dupla de pesquisadores Jesús Callejo e Carlos Canales. Mas meu quadro favorito era quando Juan Antonio apresentava suas “Pasajes de la Historia”, sempre contando algum trecho famoso da História.

Quando voltei ao Brasil em 2003 continuei ouvindo a “La Rosa de los Vientos” através da internet, mas o programa já não era diário e tudo havia mudado.

A vida nos afasta a cada dia do que somos e do que queremos. De alguma maneira, esta parte da Espanha foi desaparecendo lentamente de mim.

Daí a triste surpresa descobrir que Juan António Cebrián faleceu na tarde de sábado, dia 20 de outubro deste ano, aos 41 anos de idade, vítima de infarto fulminante. À noite, no momento de começar “La Rosa de los Vientos”, uma voz anunciou a morte de seu mentor e apresentador: "Ha fallecido Juan Antonio Cebrián, de repente, por culpa de un infarto traicionero que llegó esta tarde sin avisar, sin darle ocasión a Juan Antonio de despedirse de ustedes, la familia de los oyentes de Onda Cero y la familia de sus oyentes de La Rosa de los Vientos".

Comunicado de Onda Cero:
Ha fallecido Juan Antonio Cebrián, de repente, por culpa de un infarto traicionero que llegó esta tarde sin avisar, sin darle ocasión a Juan Antonio de despedirse de ustedes, la familia de los oyentes de Onda Cero y la familia de sus oyentes de La Rosa de los Vientos. Esta noche no va a haber Rosa de los Vientos, porque se nos ha muerto el alma de este programa, el hombre que lo creó, lo inventó, lo hizo crecer y lo condujo con mano maestra hasta convetirlo en lo más hermoso que puede llegar a ser un espacio de radio: un programa de culto, una parte de la vida de cientos de miles de personas que escuchaban, admiraban y querían a Juan Antonio Cebrián. Su muerte nos ha dejado a todos perplejos, y deja a nuestra cadena huérfana de una de sus voces más genuinas, una voz que siempre tuvo el sello de esta casa, la impronta de Onda Cero. Juan Antonio ha formado parte de esta aventura desde que levantamos el telón, hace ya diecisiete años. Un buen día llegó al estudio con su música favorita en una mano y su innata capacidad de transmitir en la otra: el resultado fue “Discos Cero”, el primer paso de una carrera que, para él, era una forma de ver y entender la vida. En aquella Onda Cero que empezaba, a Juan Antonio Cebrián le bautizamos entre todos como “el Cebri”: inquieto, curioso, creativo; inventor de programas muy diversos —”Bienvenidos al club”, “La Red”, “Azul y verde”—, que compartieron siempre un denominador común: el afán por divulgar, la otra gran pasión de este Cebri que hoy se nos ha marchado sin previo aviso: la divulgación histórica. Solo él era capaz de convertir a Juana la Loca en un vivisimo personaje radiofónico. Gracias a él aprendimos, entre excursiones científicas, grandes enigmas, y criticas de cine antológicas, gracias a él aprendimos a disfrutar de aprender escuchando la radio. Un buen día Juan Antonio, hombre de radio, descubrió que a sus oyentes del “Turno de noche” les fascinaba descubrir “Pasajes de la Historia”. Y así empezó una irrepetible serie radiofónica, que acabaria siendo el germen, también, de la carrera literaria de Cebrían, el escritor, el divulgador, el autor que cosechaba, libro tras libro, abrumadores éxitos de ventas.
Esta noche la familia de Onda Cero, y la familia de La Rosa de los Vientos, está enlutada. Hoy la vida —siempre imprevisible— nos ha dejado sin uno de los grandes de este medio. Sólo la muerte le podía impedir acudir a la cita con la audiencia. Sólo la muerte podía apartarle de este micrófono que era suyo. Esta es la noticia que ojalá nunca hubiéramos tenido que dar. Que se nos ha ido Juan Antonio Cebrián. Uno de los grandes. Uno de los buenos. Uno de los nuestros.

De maneira que o Natal de 2007 será um pouquinho mais triste, ainda que este ano tenha nascido minha filha Isabela e tudo o mais de bom que me aconteceu. Este ano de 2007 será, também, o ano em que morreu Juan António Cebrián, um amigo e companheiro, “alegre y feliz como una lombriz”.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Faz parte do meu show, meu amor

Something's telling me
it might be you
It's telling me
it might be you...
All of my life...
I think we're gonna
need some time
Maybe all we need is time...
And it's telling me
it might be you
All of my life...

Maybe it's you...
Maybe it's you...

I've been waiting for
all of my life...

All of my life
(It might be you)

Stephen Bishop


Eis que quando, por fim, encontrei um caminho tranqüilo para viver, depois de anos de aventuras e solidão, mesmo acompanhada, Deus, este eterno gozador, me pregou mais uma peça. Meu caminho cruzou com o teu, da maneira mais suave e doce, jamais imaginada por mim ou pelo roteirista deste papel que represento quase quarenta anos no grande teatro da vida. “Minha alma cansada não faz cerimônia, você pode entrar sem bater”, diria o Dusek.

Eu já havia cruzado oceanos demais, já havia vivido em demasiados lugares distantes e em tantas casas que o meu mapa-múndi já tinha amarelado. Eu já tinha vivido tantas vidas e personagens que, por fim, estava tentando encontrar-me em algum personagem da “Família Soprano”, depois de anos assistindo a “Doctor en Alaska”. E tantas vezes marinheiro em terras de além mar que já me sentia um estrangeiro no meu próprio país. Brasília me parecia tão distante como Adis Abeba.

Depois de esperar, solitário, em tantos bares fumacentos e escuros, de haver convidado a uma bebida a tantas mulheres vazias de mim mesmo e, principalmente, de ter-me envolvido com tantas pessoas sem alma, o destino me fez a odiosa piada de encontrar-te no momento mais difícil para mim. “Eu estava em paz quando você chegou”, como disse o Nando Reis, mas eu é que estou fazendo um “relicário imenso desse amor”.

Durante todos esses anos te confundi, confesso, com outras pessoas. E desperdicei tanto daquilo que havia guardado pra ti com pessoas inconfessáveis, cheias de sentimentos de perda, rancor e esquecimento. Seres humanos vivendo no limite desta maravilhosa denominação. Quase nada de nada. E fui perdendo o pouco de mim que guardava pra ti, esquecendo que o amor é a pergunta e a resposta, aceitando ser mais um na multidão dos miseráveis que nunca amaram.

Assim que, depois de já ter desistido de te buscar, te encontrei num cantinho do mundo, justo como tinha me avisado um manão. Após infinitos anos senti o amor escorrendo pelos meus dedos, pela minha cama, pela minha vida, por mim. Saber que você existe, que acorda e adormece, que vive, toma café, come salada, paga uma conta, se veste e passa creme no corpo, anda pela rua, pega um metrô e cruza por mim numa avenida, aterroriza meu dia. Entorpece minha alma. Dispara meu coração.

Você jamais poderá imaginar a alegria que senti quando ouvi de teus lábios... “eu te amo”. Se eu gostasse de futebol seria gol do tricolor das Laranjeiras no Maracanã lotado, tremendo as arquibancadas. Gooooooooooooooooooooooool. Fui o babaca mais feliz do mundo. Mais feliz, provavelmente, que aquele goiano que ganhou sozinho 32 milhões na megasena, apostando um único real pela primeira vez. Doce agonia. “E até quem me vê, na fila do pão, sabe que eu te encontrei, pequena” como cantaram Los Hermanos.

Com você encontrei sentido para tantas canções que carrego comigo e para tantos sabores indescritíveis. Tua cara linda sorrindo pra mim, tua boca perfeita, minhas mãos deslizado entre tuas coxas, tua pele feita pra mim... tudo isso levarei comigo pra sempre. Nossos filhos não nascidos nos olham agora neste inútil adeus cheio de saudade e meu estômago já começa a revirar. Todos os nossos filhos não nascidos estão reunidos agora, torcendo pela felicidade e a “paichão” eterna de seus pais.

Teus pedidos de decisão, tua certeza em seguir comigo, teus olhos cheios de medo e angustia... É que eu sou lento mesmo, sem coragem, até pra dizer adeus. Deus meu, como me odiei em noites de gozo e sorrisos amarelos. Porque difícil é dizer adeus a quem se ama, é impossível, é não querer seguir vivendo. E pior é saber que o tempo, grande inimigo é o tempo, tornará esse amor cada dia um pouquinho menor e mais bobo, como se todos os amores deste mundo já não fossem ridiculamente bobos.

Você não sabe o ciúme que sinto de você, é horrível. Não posso nem ouvir em qualquer música alguma referência à cidade do Rio de Janeiro. É horrível ouvir o Cazuza cantando das pedras do Arpoador... e o Chico falando do Planetário? Então me lembro das palavras de Dido em “Thank you”, que você me mostrou, cantando “I want to thank you giving me the best day of my life, Oh just to be with you is having the best day of my life”… e te agradeço por tudo, por todo esse amor.

E, é claro, que escorrerá aquela lágrima solitária, fruto de tudo que não vivemos e da noite sem nuvens que nos cobre neste momento sem lua, sem gol, sem palavras, sem você e sem nós.

terça-feira, setembro 04, 2007

Algumas vezes

Si, mañana
Será un día alegre
Y habrá boda y fiesta.
Y probablemente
Sonreiré.

Pero hoy,
Buscaré la felicidad
a ratos,
Aunque me lo creo
Que la verdadera infinita
Felicidad
Ven en toneladas
Duraderas.


“Oceano imenso –
Escritos perdidos de Espanha”,

Antonio de Freitas


Algumas vezes, na minha vida, já estive tão perdido quanto qualquer garotinho no primeiro dia de colégio. Com medo de errar, dos outros rirem de mim, em busca de proteção e de algo que eu nunca soube muito bem o que seria ou sequer existia. E durante alguns anos, enquanto eu me encontrava assim, outras pessoas me seguiram. Como se eu estivesse menos perdido que qualquer uma delas. Porque sempre haverá alguma outra pessoa mais perdida, triste e solitária que você mesma, sempre. Aconteça o que acontecer.

Já tive as despedidas mais tristes do mundo, entre lençóis de linho branco e aeroportos desertos de todos os sentimentos bonitos ou belas imagens cinematográficas. Já desperdicei meu tempo com pessoas que apenas se aproveitaram de mim, enquanto eu vivia uma viagem hedonista de encontro à dor. Já fingi sentir prazer enquanto escondia minhas lágrimas de desespero e guardava minhas lágrimas de diamantes retribuídos em nome da carne que eu servia. Já machuquei e me machuquei, muito. Já fiz chorar e já chorei algumas vezes.

Por isso mesmo, quando encontro alguém que ainda possui muito de seu coração salvo de tantas maldades deste mundo e vive num ritmo de procura e medo, buscando agarrar-se desesperadamente a alguém ou a algo, sempre atirando o escuro, escondendo sua verdadeira dor e evitando cada dia a derradeira hora de encontrar-se cara a cara, meu coração velho senti que pode ajudar, que pode fazer alguma coisa, além de abrir a carteira.

E desejo, firmemente, que este alguém siga seu caminho, e não esta porcaria de caminho que seguiu até aqui, entre vergonha, amores furtivos e gozos sob o manto da mentira. Quero o brilho do sol pra você, quero passeios de mãos dadas pelo parque entre grama e árvores gigantescas, quero a alegria sincera dos sorrisos de amor no seu rosto lindo entre minhas mãos, quero a certeza que dá na gente quando se descobre que existe um outro alguém neste planeta maluco que você quer só pra você. Quero que dancemos na chuva durante a madrugada de outono, numa rua completamente vazia.

Algumas vezes encontro gente no meu caminho que desejo levar para sempre no meu coração. Mas meu coração é pequeno, não cabe todo mundo nem muito menos os meus sentimentos bobos. Então eu espero que me levem dentro de seus corações, que se lembrem de mim quando chegar meu fim, que cuidem de mim naquele hospital de campanha no meio da guerra estúpida, que me levem pra passear no lago ao entardecer, que me sirvam uma imensa dose de uísque com três cubos de gelo em copo tubo, que me dêem banho e façam minha barba, que preparem meu cachimbo com tabaco de chocolate do Tenensee e que me deixem em paz na minha melhor poltrona com meus livros e minha música.

Algumas vezes fico numa bobeira sem tamanho por horas, pensando em momentos tristes ou em pessoas alegres que entraram na minha vida e que sabem que não podem ficar, pelo menos neste momento dela. Algumas vezes fecho meus olhos e me imagino dando um loop completo, num velho avião militar da primeira guerra mundial, numa ensolarada manhã de domingo. Ouvindo a toda castanha a Frank Sinatra cantar “I got you under my skin”.



sexta-feira, agosto 10, 2007

We shall never surrender





We shall not flag or fail. We shall go on to the end. We shall fight in France, we shall fight on the seas and the oceans, we shall fight with growing confidence and growing strength in the air, we shall defend our island, whatever the cost may be. We shall fight on the beaches, we shall fight on the landing grounds, we shall fight in the fields and in the streets, we shall fight in the hills; we shall never surrender.
1. We make a living by what we get, but we make a life by what we give.

2. There is no such thing as a good tax.

3. Some see private enterprise as a predatory target to be shot, others as a cow to be milked, but few are those who see it as a sturdy horse pulling the wagon.

4. The inherent vice of capitalism is the unequal sharing of blessings; the inherent virtue of socialism is the equal sharing of miseries.

5. We contend that for a nation to tax itself into prosperity is like a man standing in a bucket and trying to lift himself up by the handle.

6. An appeaser is one who feeds a crocodile—hoping it will eat him last.

7. The problems of victory are more agreeable than the problems of defeat, but they are no less difficult.

8. From now on, ending a sentence with a preposition is something up with which I shall not put.

9. A fanatic is one who can’t change his mind and won’t change the subject.

10. Bessie Braddock: “Sir, you are drunk.”Churchill: “Madam, you are ugly. In the morning, I shall be sober.”

11. Nancy Astor: “Sir, if you were my husband, I would give you poison.”Churchill: “If I were your husband I would take it.”

12. A lie gets halfway around the world before the truth has a chance to get its pants on.

13. Once in a while you will stumble upon the truth but most of us manage to pick ourselves up and hurry along as if nothing had happened.

14. If you are going to go through hell, keep going.

15. It is a good thing for an uneducated man to read books of quotations.

16. You have enemies? Good. That means you’ve stood up for something, sometime in your life.

17. If you have ten thousand regulations, you destroy all respect for the law.

18. You can always count on Americans to do the right thing—after they’ve tried everything else.

19. History will be kind to me for I intend to write it.

20. Writing a book is an adventure. To begin with, it is a toy and an amusement; then it becomes a mistress, and then it becomes a master, and then a tyrant. The last phase is that just as you are about to be reconciled to your servitude, you kill the monster, and fling him out to the public.
21. The farther backward you can look, the farther forward you are likely to see.

22. A sheep in sheep’s clothing. (On Clement Atlee)

23. A modest man, who has much to be modest about. (On Clement Atlee)

24. I am ready to meet my Maker. Whether my Maker is prepared for the ordeal of meeting me is another matter.

25. The truth is incontrovertible, malice may attack it, ignorance may deride it, but in the end; there it is.

26. A pessimist sees the difficulty in every opportunity; an optimist sees the opportunity in every difficulty.

27. To improve is to change; to be perfect is to change often.

28. Politics is the ability to foretell what is going to happen tomorrow, next week, next month and next year. And to have the ability afterwards to explain why it didn’t happen.

29. Socialism is a philosophy of failure, the creed of ignorance, and the gospel of envy.

30. Solitary trees, if they grow at all, grow strong.

31. Success consists of going from failure to failure without loss of enthusiasm.

32. The best argument against democracy is a five-minute conversation with the average voter.

33. It has been said that democracy is the worst form of government except all the others that have been tried.

34. Everyone has his day and some days last longer than others.

35. The whole history of the world is summed up in the fact that, when nations are strong, they are not always just, and when they wish to be just, they are no longer strong.

36. From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic, an iron curtain has descended across the Continent. “The Sinews of Peace” speech, Westminster College, Fulton, Missouri, March 5, 1945:

37. If Hitler invaded hell I would make at least a favorable reference to the devil in the House of Commons.

38. Those who can win a war well can rarely make a good peace and those who could make a good peace would never have won the war.

39. Courage is the first of human qualities because it is the quality that guarantees all the others.

40. The problems of victory are more agreeable than those of defeat, but they are no less difficult.

41. If you will not fight for right when you can easily win without blood shed; if you will not fight when your victory is sure and not too costly; you may come to the moment when you will have to fight with all the odds against you and only a precarious chance of survival. There may even be a worse case. You may have to fight when there is no hope of victory, because it is better to perish than to live as slaves.

42. You ask, What is our policy? I will say; “It is to wage war, by sea, land and air, with all our might and with all the strength that God can give us: to wage war against a monstrous tyranny, never surpassed in the dark lamentable catalogue of human crime. That is our policy.” You ask, What is our aim? I can answer with one word: Victory—victory at all costs, victory in spite of all terror, victory however long and hard the road may be; for without victory there is no survival.

43. Hitler knows that he will have to break us in this island or lose the war. If we can stand up to him, all Europe may be free and life of the world may move forward into broad, sunlit uplands. But if we fall, then the whole world, including the United States, including all that we have known and cared for, will sink into the abyss of a new Dark Age made more sinister, and perhaps more protracted, by the lights of perverted science. Let us therefore brace ourselves to our duties, and so bear ourselves that, if the British Empire and its Commonwealth lasts for a thousand years, men will still say, “This was their finest hour!”

quinta-feira, maio 24, 2007

Mas quanto falta, Comandante


Amigo é coisa
pra se guardar,
mesmo que o tempo
e a distância
digam não.
Mesmo esquecendo
a canção.

“A Canção da América”,
Milton Nascimento.


Viver é bom,
nas curvas da estrada,
solidão que nada.

Viver é bom,
partida e chegada,
solidão que nada.

“Solidão que nada”,
Cazuza.


Foram apenas dois anos de convivência diária entre processos administrativos, consultoria ministerial, aprendizagem política e muita camaradagem e gargalhadas. Dizem que família não escolhemos, mas os amigos sim. Então devemos ser rigorosos, pois só depende da gente.

Assim o planeta deu duas voltas ao redor do sol, enquanto nós aqui embaixo sacaneávamos meio-mundo, pondo apelidos nada carinhosos nos filhos-da-puta que cruzavam o caminho da assessoria jurídica e, principalmente, naqueles que cruzavam teu caminho com soberba, empáfia e alguma inveja. Naqueles que confundiam o trabalho em prol de um projeto de Brasil, de governo e de ministro, com seus próprios projetos pessoais. Botamos pra foder neles, lhes mostramos a força da inteligência aliada ao bom humor. Sim, fomos maiores que o Monty Phyton.

Lembro o primeiro dia que te encontrei. Eras exatamente tu, como hoje. Mas eu não era eu. Era apenas um curriculum vitae e uma recomendação. Alguém que recém chegado ainda não conhecia todos os códigos de conduta da capital federal, sua infinita ironia e jogo de cena. Era apenas mais um garoto de província tentando um lugar ao sol.

E o tempo foi passando. Separei-me e você me aconselhou algo em que acredito até hoje: “É preciso ter paz em casa, sem paz em casa a vida é uma merda”. Sábias palavras. Encontrei outras pessoas, a vida segue seu curso e a natureza humana é selvagem, você dizia. Mas sempre houve palavra amiga, apoio incondicional, confiança mútua e segurança.

Depois discutimos em nossas diferentes posições sobre o Direito, mas a vida voltou a correr perigo, tínhamos do que falar: “vida, louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, diria o Cazuza. Quando vieram tentar usar títulos acadêmicos, dos quais sempre sorri, para forçar uma discórdia, eu, fruto de anos de educação jesuíta italiana, fui taxativo: “Aqui, nesta assessoria jurídica, há hierarquia. Batendo o martelo o chefe, não há outra tese possível”. Saíram com o rabo entre as pernas. Como cantaram os Novos Baianos “acabou chorare”.

E vieram as cachaças, os momentos de pura festa e alegria. Chegou o Rigón e muitas estórias que você nunca tinha contado. Foi o “diabo, o diabo”. O “Seu Elias”, o Márcio, o garçom goiano, o Iran arenista, .... lembra quando o “carioca” Frega entrou na nossa sala? Foi piada pra mais de mês.... hahahahaha. E ele depois foi aceito na “pandilla”, com toda nossa amizade.

Jamais esquecerei aquele dia em que você botou pra correr da nossa sala àquela anta de merda que te foi fazer inferno sobre alguém que eu até já esqueci. Nem tive dúvida, me levantei e fui apertar tua mão: “É uma honra, comandante, trabalhar contigo. Uma honra e um privilégio”. Recordo seu regresso de sua penúltima viagem à Europa em 2007, quando você concordou comigo de que o jornal espanhol “El País” era o melhor jornal do mundo. As “pérolas” que ouvimos, da melhor música, verdadeiramente popular e brasileira, que fazia o inferno dos evangélicos e pudicos.

Sua fidelidade às idéias e às pessoas que ama, seu ministro, Luis Carlos Prestes, seus sonhos libertários, seu perdão infinito para com aqueles que perderam a esperança neste mundo e seu desprezo por aqueles que aproveitaram de posições equivocadas pra não contribuir com nada. Você somente nunca perdoou aos covardes, àqueles que nunca tiveram nobreza no coração. É preciso saber distinguir entre o verdadeiro líder e aqueles que simplesmente exercem uma chefia, qualquer. Liderança se conquista, não se impõe.

O Brasil é imenso, um continente, um mundo, sozinho, ilhado através de uma língua difícil que nos separa mais que nos une. Norte, Sul, oxente e tchê. E nós representávamos exatamente a esse país, nas nossas origens, com todas as suas distâncias e seus medos. Não enfrentar os estereótipos significa apenas permanecer na burrice, essa sandice que abunda hoje em dia.

Os espanhóis, em sua infinita sabedoria daqueles que já tiveram um império, afirmam que “Deus faz e o diabo junta”. Ficou muita coisa. A sensação que’u deveria ter perguntado mais sobre um monte de coisas que’u preciso saber e que você, certamente, saberia me responder com sua maneira originalíssima de ver a vida, as pessoas e o mundo. Teria, certamente, me ajudado a ser melhor pessoa hoje.

De repente, eu olho pra Esplanada, vejo o Ricardo Peixoto, gente de nossa infinita estima, caminhando em minha direção, e certamente iremos almoçar em algum restaurante vegetariano, e falaremos sobre a atual conjuntura, falaremos do mundo, aprenderei algo inteligente sobre alguma coisa, trocaremos confidencias, riremos de alguém, serei melhor pessoa depois deste almoço, mas faltará você com toda sua “verve” neste momento. Você teria provocado o Ricardo com algum comentário sacana sobre algo, e eu teria sorrido da cena. Completamente felizardo, por compartilhar aquela mesa com vocês dois.

Há dias de chuva em Brasília e muitos dias de sol. O lago continua igual, vão construir outro prédio de apartamentos no Sudoeste e o Pão de Açúcar continua vendendo vinho avinagrado. Continuo comendo carne vermelha mal passada, sangrando, e acreditando que há mais “tabaréus” que camaradas neste mundo. Mas quanta falta, Comandante, quanta falta você fará por aqui, quanta falta.