terça-feira, junho 10, 2008

O vinil é melhor


ENTREVISTA com ELVIS COSTELLO

"O vinil é melhor; levam mais de 20 anos nos enganando com o CD"

FERNANDO NEIRA – El País - Madrid - 10/06/2008
Tradução de Antonio de Freitas Jr.

'Momofuku', seu novo e enérgico disco, é a resposta com ar fresco desta lenda do pop no momento atual da indústria e aos iluminados profetas da tecnologia.

Há uns meses tocou o alarme entre seus fãs. "Não voltarei a entrar num estúdio, é um processo demasiado estafante e penoso", alegou. Por sorte, o bom é que Declan Patrick MacManus - Elvis Costello para o mundo desde há 31 anos - faltou com sua palavra. A princípios deste ano ele exigiu a ‘The Imposters’ a gravação em apenas uma semana de ‘Momofuku’, um disco urgente e enérgico que está suscitando comentários entusiastas. E agora embarca numa turnê de lançamento por meio mundo, que conta com apenas duas datas na Espanha: 30 de junho e 1 de julho em ‘Las Palmas de Gran Canaria’, no ‘Festival Arrecife de las Músicas’. Um Costello (Londres, 1954) muito mais loquaz e cordial do que dizem as más línguas atendeu ontem por telefone a este jornalista desde um hotel nos EUA.

P. Que te fez decidir voltar a gravar?
R. Foi quase por casualidade. [A cantora de folk-rock] Jenny Lewis me convidou para colaborar no seu disco e redescobri os bons aspectos deste trabalho. Não havia deixado de compor canções, porém cheguei a pensar que gravar um álbum havia se convertido num fato banal.

P. Angustiava-te as exigências de uma indústria em crise?
R. Eu decidi não voltar a me preocupar com cifras. Só espero que as pessoas se interessem pela minha música, mas já não me importa se a compram ou a roubam. Não sou ninguém para falar em termos comerciais. Por isso mesmo, tenho certeza que você pretende publicar esta entrevista nas páginas de Cultura, não nas de Negócios...

P. Você quis editar Momofuku só em vinil. Não teme que seja visto como um nostálgico?
R. Não é nostalgia. O vinil soa melhor e há mais de vinte anos nos enganam sobre a qualidade do CD. As reedições neste formato dos discos originais analógicos constituem uma desgraça, como também a aceitação do MP3 como um padrão de som. A música se grava numas condições de excelência, mas logo nos conformamos com que a vedam num formato que arruína todos esses meses e meses de trabalho. Este é um problema prioritário: há que se fazer algo a respeito, o quanto antes.

P. Seu novo disco representa um regresso às essências do passado, ao espírito de discos como Get happy!! e outros?
R. É um erro você tratar de fazer as coisas como se fosse mais jovem do que é. A verdade é que nenhuma destas 12 novas canções eu poderia ter escrito com 22 anos. Se as pessoas associam ambos sons é porque somos quase os mesmos músicos, porém não existe nenhuma premeditação a respeito.

R. Nos últimos anos você compôs ballets, jazz, música de câmara... Podemos seguir considerando-lhe um roqueiro?
R. Estas outras facetas minhas só irritam as pessoas com pouca curiosidade. Na verdade estes projetos alternativos estavam sempre presentes: gravei ‘My funny Valentine’ em 1978 e o disco ‘Imperial bedroom’, de 1982, já incluía algo parecido ao tango e ao jazz. Acontece que as oportunidades foram aumentando com os anos, sobretudo a partir da mudança de século. Porém, eu acredito que ‘The Juliet letters’, meu disco com o Brodsky Quartet, goza de um público muito fiel na Espanha, sem ir mais longe.

P. ‘Momofuku’ se abre com ‘No hiding place’, uma sátira sobre a era da Internet. Tão negativas foram suas experiências?
R. Não se trata de uma grande declaração de princípios, mas apenas uma canção mais ou menos cômica. Incomoda-me, sim, a fascinação insana que nos produzem determinados fenômenos. Vivemos num mundo de obsessões e possessões, e qualquer um, desde a impunidade do anonimato, se acha no direito a falar do divino e do humano. Houve um tempo em que se exigiam uns quantos anos de aprendizagem antes de publicar seu primeiro artigo no jornal. Agora tudo o que necessitas é um computador.

P. Satura-te a sobreabundância de informação?
R. Sem dúvida, porque este excesso de opiniões não contribui para aclarar as coisas. Sim, já sei que agora podes conseguir muita informação útil que Há alguns anos atrás resultava inacessível, e isto está muito bem. Porém, também podes ver vídeos de gente trepando num elevador, gravações que foram vendidas pelos próprios serviços de segurança. Este é um mundo sem vergonha...

P. Para que fique claro, você pensa seguir se dedicando a seu oficio nestes próximos anos?
R. Claro! Sou um músico vocacional, não vejo motivos para deixar de sê-lo, a menos que ocorra algo com minha saúde. A única diferença é que desliguei destes planos de negócios que desenhavam os executivos sem a menor idéia de música. Estranhamente, sou otimista de cara ao futuro imediato, porque poderei fazer o que pintar na cabeça sem que nenhum contrato me empeça. Como editar minhas próximas canções em forma de partitura para que outros as cantem. Ou muitas outras idéias, me desculpe, que não vou dizer. Trata-se de evitar que alguém apressado me ultrapasse...
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Elvis Costello
De Wikipedia, la enciclopedia libre

Declan Patrick Aloysius MacManus (nascido em 25 de agosto de 1954), mais conhecido por seu nome artístico de Elvis Costello é um cantor, compositor e músico britânico. Ele teve participação nos primórdios do cenário pub rock britânico no meio dos anos 70, e mais tarde foi associado aos estilos de punk rock e new wave antes de se estabilizar como uma voz única e original nos anos 80. O alcance musical é impressionantemente amplo. Certo crítico escreveu que “Costello, a enciclopédia do pop, pode inventar o passado sob sua própria imagem”.

Biografia
Começo de vida e carreira
MacManus nasceu no St.Mary’s Hospital em Paddington, Londres, vivendo na região até os dezesseis anos. Já com uma família musical (o pai, Ross MacManus, cantava com Joe Loss), MacManus mudou-se com a mãe para Liverpool em 1971. Foi ali que ele formou a primeira banda, Flip City, com um estilo calcado no pub rock; tocaram até 1975/76, época em que MacManus passou a viver em Londres com a esposa e filho.
Teve diversos empregos enquanto continuava a compor, e iniciou uma tentativa agressiva de conseguir um contrato, o que provocou o incidente de uma prisão por atitute suspeita no local de uma reunião de executivos de gravadora. Depois de mandar uma fita demo, foi contratado pela Stiff Records. O empresário na Stiff, Jake Rivera, sugeriu a mudança de nome (usando o primeiro nome de
Elvis Presley e o nome do meio de sua mãe para formar “Elvis Costello”) e juntou-o com uma banda de country/soft rock chamada “Clover”.

Anos 70
O primeiro álbum de Costello, My Aim Is True (1977) foi de um sucesso comercial moderado, com ele aparecendo na capa usando os óculos que se tornariam sua marca registrada, e beirando uma semelhança chocante com Buddy Holly. Este lançamento viu Costello promovido por Stiff como um artista New Wave e punk, apesar do fato de o álbum apresentar a conservadora balada “Alison” (uma de suas canções mais conhecidas). No mesmo ano Costello recrutou sua própria banda, The Attractions, composta por Steve Nieve (piano), Bruce Thomas (baixo) e Pete Thomas (bateria). Ele lançou seu primeiro compacto de sucesso, o cinematográfico “Watching The Detectives”, gravado com Nieve e mais Steve Goulding (bateria) e Andrew Bodnar (baixo), ambos integrantes da banda Graham Parker & The Rumour.
Depois de uma badalada turnê com outros artistas da Stiff (capturada no álbum Live Stiffs, notável pela versão do sucesso de Burt Bacharach/Hal David “I Just Don’t Know What To Do With Myself”), a banda lançou This Year’s Model (
1978), uma gravação frenética preenchida com rouca energia e os versos afiados de Costtelo.
Em
1977 Costello participou do Saturday Night Live. Durante os ensaios, ele e o Attractions tocaram “Less Than Zero”. Mas quando chegou a hora da apresentação, Costello e sua banda fizeram apenas a introdução da música e então – para o choque dos produtores do programa – parou tudo, desculpou-se com a platéia e começou uma versão de “Radio, Radio”, que o programa pediu que não tocassem devido a sua mensagem anti-corporativista (Costello também afirmou achar que “Less Than Zero” não faria muito sentido para o público americano). O produtor Lome Michaels ficou furioso, não só com o desafio de Costello mas também porque o programa foi tirado do ar. Costello só seria convidado a tocar no Saturday Night Live novamente em 1989, não aparecendo em mais nenhum programa de TV americano nos anos seguintes a esse incidente.
1979 foi sem dúvida nenhuma o ano do auge do sucesso comercial de Costello com o lançamento de Armed Forces (intitulado originalmente de Emotional Fascism). Inspirada pelas turnês constantes, a banda estava em fina forma e Costello evoluiu notavelmente seu talento de compositor, passando a tratar de assuntos pessoais e políticos. Ele também encontrou tempo naquele ano para produzir o álbum de estréia da banda de ska The Specials.
Seu sucesso nos E.U.A foi severamente prejudicado, entretanto, quando Costello chamou
Ray Charles de “crioulo cego e ignorante” durante uma discussão com Bonnie Bramlett no bar do hotel Holiday Inn em Columbus, Ohio (sendo um comentário particularmente esquisito, pois Elvis trabalhava constantemente na campanha britânica Rock Against Racism tanto antes quanto depois disso). Um contido Costello desculpou-se em uma conferência de imprensa em Nova York, dizendo que estava bêbado e que disse aquilo só para provocar Bramlett (e conseguiu; ela lhe deu um murro). Em seu encarte da versão remasterizada de Get Happy!!, Costello escreveu que recusou um convite para conhecer Charles pouco tempo depois do infame incidente: “qualquer desculpa depois de todos esses anos seria mais do que embaraçosa para todos os presentes, e tudo que eu pude fazer foi virar meu rosto em vergonha e frustração sabendo que aquela era uma mão que eu provavelmente nunca apertaria... eu também descobri que a culpa é um fogo que arde sem qualquer sinal de limitação”. O incidente com Bonnie inspirou Costello a compor Riot Act, canção presente no álbum Get Happy!.

Anos 80
Possivelmente como outra afirmação de seu auto-imposto débito com a música negra, o álbum seguinte de Costello e o Attractions, Get Happy!!, foi um inventivo pastiche do pop da new wave com a soul music. Seria o primeiro e, juntamente com King Of America, provavelmente o mais bem sucedido dos muitos experimentos de Costello com gêneros além dos quais ele é comumente associado. A brevidade das canções (20 faixas em aproximadamente 45 minutos) formatou o novo estilo da banda. Liricamente, as canções eram repletas da marca registrada de Costello - o jogo de palavras - ao ponto de ele sentir mais tarde como se estivesse tornando-se uma auto-paródia, diminuindo o ritmo em composições posteriores.
Trust, de 1981, soava mais
pop, mas o resultado geral era claramente influenciado pelas tensões crescentes entre a banda, particularmente entre Bruce e Pete Thomas. Apesar de seu ecletismo, ‘’Trust’’ não obteve muita repercussão e foi o primeiro álbum de Costello a não gerar compactos de sucesso.
Depois da instatisfação comercial de Trust, Costello deu um tempo da carreira de compositor e a banda seguiu para
Nashville para gravar Almost Blue, um álbum de versões de sucessos da música country compostos por Hank Williams (“Why Don’t You Lije Me (Like You Used To Do?)”), Merle Haggard, (“Tonight The Bottle Let Me Down”) e Gram Parsons (“How Much I Lied”). Com críticas variadas, algumas das quais acusavam Costello de estar ficando sofisticado, a gravação foi lançada com uma faixa que trazia a mensagem: CUIDADO: Este álbum contém música country & western e pode ofender a ouvintes de mente limitada.
Imperial Bedroom, de 1982, marcou um som mais obscuro, quase barroco, para Costello, em grande parte devido à produção de Geof Emerick, famoso por ser o engenheiro-de-som de várias gravações dos Beatles. Apresentando uma gama superior de canções – tanto musicalmente quanto liricamente – este permanece como um de seus álbuns mais aclamados pela crítica, mas, novamente, fracassou em gerar compactos de sucesso. Costello disse não ter gostado da promoção do estúdio para o álbum, com fracos anúncios consistindo apenas da frase “Obra Prima?”.
1983 viu o lançamento de outra experimentação de pop-soul com Punch The Clock, com backing vocals femininos e até uma banda de metais. Foi deste álbum que saiu o sucesso internacional “Everyday I Write The Book”, ilustrado por um profético vídeo-clipe que apresentava sósias do príncipe Charles e da princesa Diana passando por uma crise doméstica em uma casa suburbana.
A tensão entre a banda estava passando a ficar insuportável, e Costello, começando a se sentir esgotado, anunciou sua aposentadoria e a separação do grupo logo depois da gravação de Goodbye Cruel World, em
1984. Com um número de canções fracas (e mesmo as melhores, mal produzidas), o disco não obteve muita repercussão, e até os mais fanáticos seguidores de Costello consideram Goodbye como seu pior álbum.
A aposentadoria de Costello, embora de vida curta, foi acompanhada por duas coletâneas, Elvis Costello: The Man no Reino Unido, Europa e Austrália e The Best of Elvis Costello and the Attractions nos E.U.A.
Em
1985, Costello juntou-se a seu amigo T-Bone Burnett para gravar um compacto chamado “The People’s Limousine” sob o pseudônimo de “The Coward Brothers”. Neste mesmo ano, Costello produziu Rum, Sodomy and the Lash para a banda punk/folk Pogues. Foi aí que ele conheceu sua segunda esposa, Cait O’Riordan, baixista do Pogues.
Já em
1986 Costello estava se preparando para retomar sua carreira. Trabalhando nos Estados Unidos com Burnett, mais uma banda contendo vários músicos de apoio de Elvis Presley e uma parte da formação do Attractions, ele produziu King of America, um álbum firmado no som do violão country, complementado por algumas de suas melhores composições por um bom tempo. Foi nesta época que ele voltou legalmente a se chamar Declan MacManus, acrescentando um Aloysius como um nome do meio extra.
No final do mesmo ano, ele voltou ao estúdio com o Attractions e gravou Blood And Chocolate, proclamado por um fervor pós-punk que não se via desde This Year’s Model, de 1978. Também marcou o retorno do produtor Nick Lowe, que produziu os primeiros cinco álbuns de Costello. Foi neste disco que ele usou pela primeira vez seu alter-ego “Napoleon Dynamite” (este apelido havia sido usado anteriormente em 1982, quando o lado-B do compacto “Imperial Bedroom” foi creditado à “Napoleon Dynamite & The Royal Guard”.)
Em
1987 Costello, com um novo contrato pela Warner Bros., deu início ao que seria uma longa parceria com Paul McCartney. Eles compuseram diversas canções juntos, incluindo “Veronica” e “Pads, Paws and Claws” do álbum Spike (1989, disco que também contém God´s Comic) e “So Like Candy” e “Playboy to a Man” de Mighty Like A Rose (1991), ambos álbuns de Costello, e “My Brave Face”, “Don’t Be Careless Love”, “That Day Is Done” e “You Want Her Too”, de Flowers in the Dirt, “Back On My Feet” (Lado B do single Once Upon A Long Ago) e “The Lovers The Never Were” e “Mistress and Maid” de Off The Ground, lançados por McCartney. Em 1989, ele participou de um especial pela HBO, Roy Orbison and Friends, A Black and White Night, estrelando seu ídolo de longa data Roy Orbison, e foi convidado a participar do Saturday Night Live pela primeira vez desde 1977.

Anos 90
Em 1991 Costello lançou o supracitado Mighty Like A Rose, nesta época deixando crescer uma infame e longa barba.
Em
1993 Costello provou das águas da música clássica com uma aclamada colaboração com o Brodsky Quartet em The Juliet Letters. Costello retornaria ao rock and roll no ano seguinte em um projeto que o reuniu com o The Attractions, Brutal Youth. Um álbum de versões gravado cinco anos antes foi lançado em 1995, ‘’Kojak Variety’’, seguido em 1996 por um álbum de canções que ele escrevera originalmente para outros artistas, All This Useless Beauty. Este foi o último álbum de seu contrato com a Warner Bros.
Em
1996 ele colaborou com Burt Bacharach em uma canção chamada “God Give Me Strength” para o filme ‘’Grace Of My Heart’’. Esta colaboração levou a dupla a compor e gravar um álbum juntos, Painted From Memory, lançado em 1998 sob seu novo contrato com a Mercury Records.
Para o vigésimo quinto aniversário de Saturday Night Live, Costello foi convidado para o programa, onde ele reviveu sua abrupta troca de músicas de 1977. Desta vez, entretanto, ele interrompeu “Sabotage”, dos
Beastie Boys, e eles ficaram como sua banda de apoio em “Radio, Radio”.

2000 até o presente
Em 2001, Costello foi anunciado como o “artista em residência” na UCLA (embora ele tenha terminado fazendo menos aparições do que o previsto) e compôs músicas para um balé. Ele também produziu e participou de um álbum da cantora de ópera Anne Sofie von Otter, For The Stars.
Em
2002 ele lançou um novo álbum, When I Was Cruel, viajando em turnê com uma nova banda, o Imposters (o Attractions com um baixista diferente, Davey Farragher). Costello separou-se de sua segunda esposa, Cait O’Riordan, no final do mesmo ano.
Em março de
2003, Elvis Costello & The Attractions foram incluídos no Hall da Fama do Rock and Roll. Em maio, seu casamento com a cantora de jazz canadense Diana Krall foi anunciado. Setembro viu o lançamento de North, um álbum de baladas ao piano. Em dezembro, Costello e Krall se casaram na mansão londrina de Elton John. Em 2004 a canção “Scarlet Tide” (co-escrita por Costello e T-Bone Burnett e usada no filme ‘’Cold Mountain’’) foi indicada ao Oscar; ele tocou-a na premiação com Alison Krauss, que a canta na trilha sonora oficial.
Em julho de
2004 o primeiro trabalho orquestral em larga larga escala de Costello, Il Sogno, foi apresentado em Nova York. O trabalho, um balé inspirado na obra “Sonho de Uma Noite de Verão” de William Shakespeare foi representado pela trupe de dança italiana Aterballeto, sendo um sucesso de crítica. Enquanto o escrevia, Costello propositalmente recusou-se a ouvir as interpretações anteriores de Mendelssohn e Britten em função de preservar sua própria originalidade. Uma gama de estilos e temas musicais foi usado para representar os diferentes elementos dos personagens. Il Sogno foi lançado em CD em setembro do mesmo ano pela Deustche Grammophon.
Costello também lançou outro álbum naquele mesmo mês: The Delivery Man, um álbum de rock gravado em Oxford, Miss. Composto em sua maioria de blues, country e folk, The Delivery Man foi aclamado pela crítica com um dos melhores álbuns de Costello, e dá continuação à busca pessoal de Elvis de lançar um disco diferente em cada um dos selos da gravadora Universal.
Ainda no contexto do álbum The Delivery Man, em outubro de
2005, Costello esteve no Brasil, desta vez não como "atração-extra" (como no Free Jazz de 1995), mas como principal atrativo do TIM Festival daquele ano. Fez 3 shows, nos quais realizou um memorável apanhado de sua carreira: um no Rio de Janeiro, outro em Belo Horizonte e ainda um em São Paulo. Neste último houve um comparecimento significativo de grandes nomes da música nacional.

Discografia
Álbuns
1. 1977 - My Aim Is True
2.
1978 - This Year's Model
3.
1979 - Armed Forces
4.
1980 - Get Happy!!
5.
1981 - Trust
6.
1981 - Almost Blue
7.
1982 - Imperial Bedroom
8.
1983 - Punch the Clock
9.
1984 - Goodbye Cruel World
10.
1986 - King of America
11.
1986 - Blood and Chocolate
12.
1989 - Spike
13.
1991 - Mighty Like a Rose
14.
1993 - The Juliet Letters
15.
1994 - Brutal Youth
16.
1995 - Kojak Variety
17.
1996 - All This Useless Beauty
18.
1996 - Costello & Nieve
19.
1998 - Painted from Memory, com Burt Bacharach
20.
2002 - When I Was Cruel
21.
2002 - Cruel Smile
22.
2003 - North
23.
2004 - The Delivery Man
24.
2004 - Il Sogno

Coletâneas
1. 1980 - Taking Liberties
2.
1980 - Ten Bloody Marys & Ten How's Your Fathers
3.
1987 - Out of Our Idiot
4.
1993 - 2½ Years
5.
2003 - Singles, Volume 1
6.
2003 - Singles, Volume 2
7.
2003 - Singles, Volume 3
(Esta seção está incompleta).

Relançamentos pela Rhino
Todos os álbuns de estúdio de Costello até 1996 (com exceção de ‘’The Juliet Letters’’) foram relançados de 2001 a 2005 pela Rhino Records, sob a supervisão do próprio Costello e apresentando, em cada caso, um disco bônus de lados-B, outtakes, faixas ao vivo, versões alternativas e/ou demos das músicas. O som foi remasterizado e Costello escreveu o encarte de cada álbum, com suas reflexões sobre as músicas e anedotas da época de gravação.
Os discos bônus de ‘’Almost Blue’’ e ‘’Kojak Variety’’ destacam-se particularmente por conter, cada um deles, praticamente um novo álbum de material que foi gravado na época ou não lançado, ou que saiu no lado-B de compactos.
O disco bônus de ‘’Get Happy’’ também se destaca, com 30 faixas adicionais que o transformaram num álbum duplo com 50 canções.

Álbuns em Tributo
1. 1998 - Bespoke Songs, Lost Dogs, Detours & Rendezvous - (vários artistas)
2.
2002 - Almost You: The Songs of Elvis Costello - (vários artistas)
3.
2003 - The Elvis Costello Songbook - Bonnie Brett
4.
2004 - A Tribute to Elvis Costello - Patrik Tanner

Filmografia
1979 estréia no cinema como 'The Earl of Manchester' em Americathon
1984 como ‘Henry Scully' na série de TV britânica Scully
1985 como o mágico inepto 'Rosco de Ville' em No Surrender
1987 como 'Hives the Butler' em Straight to Hell, estrelando Joe Strummer e Courtney Love
1997 como si mesmo em Spice World
1999 como si mesmo em Austin Powers: The Spy Who Shagged Me, tocando com Burt Bacharach
1999 como si mesmo em 200 Cigarettes
2001 como um defensor público e professor em Prison Song
2002 como si mesmo em How I Spent My Strummer Vacation, um episódio do The Simpsons
2003 Indicado ao Oscar na categoria “Melhor Canção Original” por “The Scarlet Tide” em Cold Mountain
2003 como 'Ben' no episódio “Farewell, Nervosa” da série Frasier
2003 apresentador convidado no The Late Show with David Letterman
2004 tocando a canção de Cole Porter "Let's Misbehave" em De-Lovely

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quarta-feira, maio 28, 2008

Cinco países disputam o Ártico


Os Estados limítrofes negociam a divisão do Pólo,
rico em petróleo e vital para as comunicações

C. GALINDO / AGENCIAS – El País - 28/05/2008

Tradução Antonio de Freitas

Cinco países iniciaram dia 27 de maio entendimentos para repartirem entre si o Ártico, uma das últimas zonas da Terra que ainda não tem como dono nenhum Estado e que se calcula que alberga sob o gelo a quarta parte das reservas mundiais de petróleo. Dinamarca, anfitriã do encontro, deseja que os Estados Unidos, Noruega, Canadá e a Rússia acatem as regras do jogo estabelecidas pelas Nações Unidas em 1982, para levar a cabo um eventual reparto. "Esta reunião é o principio de um processo que pode durar anos", afirma numa entrevista telefônica Lars Kullerud, presidente da Universidade do Ártico, uma rede internacional de universidades com sede nessa região.

Está em jogo 1,2 milhão de quilômetros quadrados de fundo marinho que ficou atraente para alguns graças à mudança climática. O degelo facilita um maior acesso às bolsas de hidrocarbonetos e abre novas rotas marítimas, que permitem uma economia de até 8.600 quilômetros numa viagem entre Tóquio e Hamburgo. Os cinco países limítrofes querem assegurar, o quanto antes, uma parte do bolo e seus ministros apresentarão suas demandas durante a reunião de três dias que começou no dia 27 de maio em Ilulissat, uma pequena cidade da Groenlândia que tem o maior glaciar do mundo.

As bases para um acordo estão sentadas. "Trata-se de um passo importante, porque as partes sentam na mesma mesa para reconhecer que existe um desacordo, para cooperar em alguns âmbitos e, quiçá, começar a encontrar uma solução para o problema da soberania", diz Pablo Pareja, Professor de Relações Internacionais da Universidade Pompeu Fabra, Espanha, e autor de um estudo sobre o Ártico. "O Ártico é um espaço ainda não dominado. Tradicionalmente foi considerado alto mar", completa.

A região ártica, na qual vivem sobre uma enorme casca de gelo entre dois e quatro milhões de pessoas, se converteu nos últimos anos em objeto de disputa. O Direito Internacional, plasmado na Convenção sobre o Direito do Mar das Nações Unidas, estabelece que os países com saída ao mar tem direito a estender sua zona de soberania em até 200 milhas náuticas (370 quilômetros) desde a costa. Porém, este limite pode se ampliado, caso um país demonstre que sua plataforma continental, que é o leito marinho anexo ao continente, vai além dessa distância.

Esta exceção abriu as portas para reclamações. Para provar que suas demandas estão fundamentadas, vários países organizaram expedições cartográficas para reivindicar o maior território possível. O momento mais tenso aconteceu no ano passado, quando uma equipe russa, num submarino, plantou uma bandeira do país no fundo marinho.

A resolução do conflito pode durar anos, entre 10 e 15, segundo o governo dinamarquês. Os Estados Unidos ainda não ratificaram o tratado da ONU (firmado em 1982 e em vigor desde 1994) e, até que não o façam, o litigio não se encerrará. "Uma vez adotado o tratado, há um prazo de 10 anos para propor reivindicações e, ainda que Washington o assine em breve, como parece provável, ainda terá essa década para protestar", explica Lars Kullerud.

"Todo o mundo está esperando pelos Estados Unidos", conclui o presidente da Universidade do Ártico. Um dos objetivos da reunião de Ilulissat é que todos se comprometam a respeitar dito tratado.

Num mundo que explora ao máximo seus recursos naturais, o Ártico é uma das poucas zonas que permanecem virgens. Uns 25% das reservas desconhecidas de petróleo e gás estão sob estas águas. Escavar para chegar até o petróleo não esteve, até agora, ao alcance das petroleiras, porém a mudança climática tornou mais fina a capa de gelo, enquanto a tecnologia melhorou muito. A operação pode ser, neste momento, muito cara, porém com o barril do brent a 130 dólares extrair petróleo do Ártico pode resultar rentável.

O ouro negro não é a única vantagem de ser proprietário de uma porção desta zona. "Com o degelo se pode abrir uma via de navegação permanente pelo norte e ter acesso a uma via como esta é chave para países como os Estados Unidos, que agora tem que chegar ao outro lado do mundo através do estreito de Malaka (na Ásia), o cabo de Agulhas (na África do Sul) e o cabo de Hornos (na América Latina)".

Há duas passagens, a do nordeste (não navegável), e a do noroeste, que se abriu durante uns meses pela primeira vez em 2007. Os pesquisadores calculam que os barcos poderão utilizar esta última passagem durante todo o ano a partir de 2050, graças à mudanças climática.

As ONGs pediram que os países limítrofes cheguem a um acordo que dê garantias ambientais ao Ártico, uma proposta com a qual coincidem alguns países que estão fora da disputa, como França e Espanha.

Comercio e riqueza

Reservas de petróleo - Uns 25% das reservas de petróleo e gás natural por descobrir estão no Ártico. Rotas comercias - A passagem do Nordeste não é navegável, enquanto que a passagem do noroeste já está aberta vários meses ao ano, e se prevê que a partir de 2050 esteja em funcionamento durante todo o ano. Através da passagem do noroeste, entre Tóquio e Nova York há 14.000 quilômetros; se o recorrido passa pelo canal do Panamá, são 18.200. População – No Ártico vivem entre dois e quatro milhões de pessoas, repartidas entre Canadá, Dinamarca, Noruega, Rússia e os EUA, incluídos mais de 20 grupos indígenas.

segunda-feira, maio 19, 2008

A princesa das marés


Quando a vida parecia ter desaparecido e Deus tinha virado a cara pra mim, eu encontrei alguém. Era setembro e a greve na faculdade de Direito parecia algo muito distante de acabar e eu andava muito triste. Tão triste que até fui à casa de um velho amigo do colégio. Era um domingo, creio, dia de ficar naturalmente triste, mas arrisquei sair de casa naquela manhã e me deparar com pessoas bebericando ao redor da piscina e uma banda improvisada que tentava tocar alguma coisa da Legião Urbana.

O destino é realmente algo engraçado, pois naquele mesmo dia encontrei a menina que iria me acompanhar por muito tempo, às vezes ao meu lado, mas sempre dentro de mim.

Ainda me lembro quem nos apresentou e o que falamos, e o que pensei sobre ela. Mas, principalmente, me lembro que senti algo estranho. Depois de tanto tempo, lembro que minha tristeza não desapareceu de pronto, mas senti que deus continuava comigo, de alguma forma ele seguia me dando uma chance.

Em outubro, as aulas recomeçaram e a costumeira sensação de estar perdido também. Alguma coisas em mim buscava por aquela menina, que tinha me dito que estudava ali, mas eu não a encontrava. Anos mais tarde, ela me confessou que me via sempre e tentava que a visse, mas era em vão.

O certo é que nos encontramos. Era entardecer e ela estava sentada tomando uma água de côco. Nunca esqueci o reflexo do sol naqueles cabelos dourados. O tempo que durou esta visão deve ter sido de apenas alguns segundos, mas para mim pareceu uma eternidade. Até hoje não sei onde arranjei coragem para ir falar-lhe. Haveria uma festinha na quinta-feira e combinamos ir. Naquela quinta-feira, disse pro amigo de plantão que tinha conhecido alguém muito especial e que lhe apresentaria naquela noite.

Rodei a festa inteira e nada. Ela não estava. Parei, comprei uma cerveja e estava falando qualquer coisa com uma amiga quando meus olhos encontraram outros olhos. Eram dois enormes olhos verdes. Ela estava ali, na minha frente, com o sorriso mais lindo do mundo e, eu juro, tudo parou. Havia uma banda tocando, mas por mais que’u tente não consigo lembrar o quê. abraçá-la e beijá-la foi inevitável, sem antes tentar inventar qualquer coisa para não dar na cara que’u a buscava desesperadamente. Naquela mesma noite meu melhor amido de então a conheceu e, depois que ela se foi, não sem antes trocarmos números de telefone, bebemos todas pra comemorar. Eu finalmente estava apaixonado.

Bem, foi um tempo maravilhoso. Pela primeira vez eu estava apaixonado por alguém que me amava muito. Como o tempo passa rápido quando se é feliz. Depois veio minha formatura, e ela estava ali, do meu lado, em todas as fotos. Meu primeiro escritório, o trabalho, os sonhos e decepções da vida adulta. E ela ali, ao meu lado, sendo o descanso do guerreiro, o abrigo do peregrino, a mulher do homem, a mãe do menino.

Não sei quando comecei a pensar que não estava pronto para ela. Que precisava resolver coisas antigas antes de voltar pra casa, e disse adeus, quando tudo o que’u buscava estava na minha frente e sempre ao meu lado, perfeita nos meus braços. Os filhos que não tivemos choraram sozinhos, escondidos entre brumas de nada ser e saudade.

E andei demais. Voltei ao passado e à antiga ferida que sangrava meu coração. Caminhei a noite toda na chuva, feri algumas pessoas e me feri profundamente. Mas ela sempre estava dentro de mim, debaixo da minha pele. Tentei esquecer a menina, tentei viver com outras, consegui apenas me esquecer.

Do destino ninguém foge, nem se esquece facilmente da felicidade, esta pedra preciosa que buscamos de olhos vendados. Então busquei de novo por aquela menina que’u uma vez fiz sofrer, pelo cheiro que não saia de mim. E encontrei braços abertos, sentimentos e uma alegria em meu coração, somente comparada à emoção de voltar para casa. E mais uma vez fizemos planos, plantamos sonhos, e nos amamos como almas que se precisam muito, muito e muito.

Mas o tempo tinha passado, e com o tempo não se pode contar sempre, as distâncias também já eram muitas e no fundo, sabíamos perfeitamente disto. Lembro a última vez que nos vimos, dos olhos lindos e molhados de adeus, o aeroporto triste, a incerteza de tudo, teu cheiro, o peso do meu coração.

Ainda não sei como, mas cruzei o Atlântico e vim parar aqui, mais distante ainda da menina. Talvez tentando me achar, eu tenha perdido de vez a última oportunidade de ser feliz. No próximo dia 30 de abril, a menina fará uma cirurgia. Estará sozinha, numa cidade que não é a sua e não quer preocupar sua mãe. É claro que’e sei para onde meu coração e minhas orações estarão voltadas, mas será que Deus me perdoará?

PS1: A cirurgia foi um sucesso e ela já está em casa. Creio, firmemente, que Deus me perdoou. Mas será que ela também?

PS2: Esta história ainda não acabou.

* Escrito na cidade de Valencia, Espanha, na primavera, 25 de abril de 1999.

sábado, maio 10, 2008

A globalização é a idade de ouro da máfia


"A globalização é a idade de ouro da máfia"

GUILLERMO ALTARES - El País - 06/04/2008
Tradução de Antonio de Freitas Jr.


Diversificado e adaptado aos novos tempos, o crime organizado vive momentos de gloria. Assim conta este jornalista, que pesquisou seus tentáculos durante anos.

Depois de dedicar-se durante quase vinte anos a percorrer o leste europeu e os Bálcãs como jornalista da BBC, as transformações na paisagem que lhe rodeia obrigaram a Misha Glenny a mudar de especialidade: das revoluções políticas passou a investigar outro tipo de movimentos telúricos, mais profundos e perigosos: o poder crescente das máfias. Porém, seu novo trabalho lhe levou por cenários muitos distintos e insuspeitados: desde a fronteira noroeste de Estados Unidos, inundada de cânhamo, até cabanas da Nigéria onde se planejam e executam golpes pela Internet que nem o David Mamet do filme “House of Games” (1987) seria capaz de imaginar.
Glenny, um britânico de 49 anos de origem russa, recolheu estes anos de investigação em “McMáfia”, um livro de 500 páginas que apareceu ao mesmo tempo em numerosos idiomas este mês de abril. É uma viagem ao reverso tenebroso da globalização, aos cantos escuros de um mundo em cujos corredores abertos se move, cada vez com maior agilidade, a gigantesca hidra do crime organizado. Os protagonistas de “McMáfia” já não são apenas os tipos da ‘coppola’ (o tradicional boné siciliana) que controlam bilhões de euros em armas e drogas desde a cadeira de palha de uma choça, nem os mal-encarados búlgaros que levam colares de ouro que serviriam para sustentar a âncora de um transatlântico: são personagens muito mais sofisticados e hábeis que sabem aproveitar os pontos fracos do sistema em que vivem. E num mundo global, isso quer dizer todo o planeta. A entrevista tem lugar em Bruxelas, onde Misha Glenny acudiu para participar num congresso internacional como especialista em crime organizado.

P - Seu livro acaba dizendo que estamos na idade de ouro da máfia. Não acreditas que é uma afirmação demasiado pessimista? Porque parece que a máfia sempre viveu numa permanente idade dourada...
R
- A extensão do que chamo de ‘economia na sombra’, na qual as organizações criminais de todo o mundo têm um papel essencial, é muito maior que antes, sobretudo depois da queda do comunismo e como conseqüência da globalização, que é idade de ouro da máfia. Ainda que o capital flua de uma forma espetacular, seguem existindo freis importantes, como a Política Agrícola Comum, que oferecem oportunidades para que o crime organizado consiga fabulosos lucros. Isso coincide, ademais, com a queda do comunismo e com uma gigantesca transição que não somente afetou ao leste europeu e a Ásia central, senão a lugares como África do Sul. E também está a emergência da China. Nem sempre é possível satisfazer as aspirações materiais das pessoas, sobretudo nos países em vias de desenvolvimento, através dos métodos que legalmente permitem a globalização. Um exemplo: Albânia se destruiu ao mesmo tempo em que se destruíram os mercados do leste europeu que tinham algumas exportações cruciais, como os cítricos. Tratou então de vender suas laranjas e limões à Europa ocidental, porém não pode porque a Política Comum protege os cultivadores de Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Não conseguiu competir com estes subsídios. Que ocorreu? Que muitos destes campesinos destruíram seus cultivos de cítricos e plantaram ‘cannabis’ em seu lugar, e a vendem em quantidades industriais. E estes exemplos se multiplicam em todo o mundo. Enquanto se produziu a transição, o crime organizado trabalhou rápido e com inteligência e desenvolveu um sistema global, que representa uma economia alternativa.

P - Um dos aspectos mais terríveis de seu livro é que, quando se fala de máfia, espera-se encontrar com Nápoles, Palermo, talvez Sofía ou inclusive Moscou, porém não com lugares como Vancouver, Nigéria, África do Sul, Israel ou Bombaim. Tanto mudou o panorama?
R
- Israel é um exemplo fascinante disto. Quando você vai ali, a única coisa da qual as pessoas querem falar é do conflito com os palestinos. Quando expliquei que queria investigar o crime organizado, as pessoas me perguntavam: por quê? É uma sociedade que nos últimos dez ou doze anos sofreu uma liberalização dramática, e algo tinha que estar ocorrendo. Porém, quando fui ver à responsável pela luta contra o crime organizado, ela foi muito franca: Israel gasta muitíssimo dinheiro com segurança, porém tudo se dedica ao assunto palestino. E o que ocorre com o crime organizado é que tem uma capacidade enorme para detectar os lugares nos que se produzem as melhores oportunidades. Nos anos noventa, em Israel se produziu uma imigração enorme de judeus russos, 15% da população, que fala outra língua, com valores culturais muito diferentes e com um sentido da identidade muito superior ao dos outros imigrantes que criaram esse país. Isto produziu muitas mudanças e trouxe novos hábitos de consumo, entre outros um fluxo muito importante de narcóticos. E também o tráfico de mulheres, que é uma indústria horrível, porém enorme.

P – Porém, isso não é novo. O grande jornalista francês de princípios do século passado Albert Londres relatou num de seus livros mais conhecidos, “El camino de Buenos Aires”, a trata de brancas da Polônia à Argentina.
R
– Porém está expandindo cada vez mais. Por exemplo, se você olha para Londres. No Reino Unido existe essa legislação peculiar que faz com que a prostituição como tal não seja ilegal, mas sim os anúncios, como tratar de captar clientes. A prostituição esteve restrita durante longo tempo às mulheres britânicas que operavam em lugares muito definidos e não era um grande problema. Mas a princípios dos noventa começaram a aparecer anúncios com postais nas cabines, e, de repente, estavam em todas as partes, em todas as pequenas cidades. Foi uma invasão enorme que se produziu em todo o mundo. O uso de prostitutas por parte dos homens em todos os países ocidentais se incrementou de forma dramática. Quando era estudante na universidade não podia imaginar que nenhum de nós saísse com prostitutas. E agora há muitíssimos jovens que vão de fim-de-semana só para homens a um país báltico, e no pacote está incluído a visita a um bordel. É um fenômeno que está fora de controle.

P – Nós como consumidores podemos fazer algo para lutar contra o crime organizado, como o que conseguiu a campanha contra os diamantes de sangue?
R
– Sem dúvida, e isto está mudando graças ao trabalho de organizações tanto governamentais como não governamentais. O papel de Global Witness foi fundamental na luta contra os diamantes de sangue: é una pequena ONG, com sede em Londres, cujos representantes foram a Angola e disseram que estavam fazendo uma pesquisa para um documentário. Demonstraram os laços entre a guerrilha da UNITA e os diamantes numa investigação realmente perigosa. Porém sabiam que se conseguissem que nos Estados Unidos uns poucos senadores ou congressistas se interessassem pelo tema poderiam conseguir muita publicidade. Isso se converteu nos Protocolos de Kimberly, contra os diamantes de sangue. Incluí esta historia no livro para demonstrar que temos poder para fazer coisas: identificar a natureza precisa dos problemas que afetam à ‘economia na sombra’ e identificar o lugar onde as economias lícitas e ilícitas se encontram. Demasiadas vezes no Ocidente, os Governos definem o crime organizado como um corpo alheio, exterior: os bárbaros às portas, que estão esperando para destruir nossa civilização e infectar-nos com sua maldade. E não é assim.

P – Sem embargo, é certo que, num mundo globalizado, as máfias do leste europeu, sobretudo búlgaras e kosovares, ficaram muito poderosas, por exemplo, na Espanha?
R
- Esta idéia de que, se mantém a um país fora da União Européia, suas redes de crime organizado não podem entrar, é falsa. Se você pertence ao crime organizado, sempre podes cruzar uma fronteira; são as pessoas normais, os encanadores, os garçons, os que são discriminados se caso se mantenham fechadas as fronteiras. Com a queda do comunismo e o aumento da imigração, isto se converteu num claro problema. Porém, não esqueçamos que a Espanha foi um lugar de assentamento para as máfias, sobretudo por uma determinada indústria: a cocaína. Este desembarque também foi propiciado por uma das operações mais claras da máfia: a chantagem em troca de proteção, que cresce ao abrigo da construção.

P – Na Bulgária ou Romênia há muitos policiais espanhóis, britânicos ou alemães que trabalham sobre o terreno, e sua teoria é que, desde dentro da União Européia, é muito mais fácil lutar contra a criminalidade organizada. Você está de acordo?
R
– Tem toda a razão. As pessoas que na UE querem manter a estes países fora dão um presente espetacular ao crime organizado. Temos que fazer que estes países entrem o antes possível. A paralisação é também um caldo de cultivo terrível para o crime organizado, porque dispõe de recursos humanos gigantescos para recrutar.

P – É esse o motivo pelo qual Kosovo, que conta com 50% de desemprego, é considerada por alguns como uma pequena Colômbia na Europa?
R
– Não é uma Colômbia porque não produz cocaína, porém é um grande ponto de distribuição de heroína e de trata de brancas na Europa. Também é um exemplo de manual de como um lugar de atuação tradicional das máfias se expande à causa de um conflito. Há uma cidade no sul da Sérvia, de maioria albanesa, que é o centro de distribuição de heroína que vem da Bulgária, onde é introduzida por máfias turcas. E ali é vendida tanto a grupos albaneses como sérvios. Uma rota passa por Kosovo, Macedônia e entra na União Européia através da Itália, e outros carregamentos vão até o norte, através de Belgrado, logo Áustria e Alemanha. Desde 1999, com o protetorado das Nações Unidas, o PIB de Kosovo foi decaindo. Ademais, uma vez terminada a guerra, os países da União Européia devolveram a muitos albaneses que estavam refugiados, e isso reduziu o importe das remessas. A combinação de uma economia que decresce e de um desemprego galopante, mais as mulheres e a heroína, só pode converter a Kosovo num Estado mafioso. Trabalhou-se muito pouco num assunto essencial: como funciona este Estado. Agora mesmo há cinco autoridades ao mesmo tempo, e nenhuma sabe o que faz a outra. O único que funciona no meio destas situações caóticas é a máfia.

P - O juiz italiano Giovanni Falcone, antes de ser assassinado cerca de Palermo em 1992, escreveu que havia contraído uma dívida com a Máfia que só se pagaria com sua morte. Você conheceu, ao largo de suas investigações, a muita gente com esse tipo de dívida?
R
- Sim, muita gente. Um dos personagens mais extraordinários que conheci foi Walter Maierovitch, o magistrado brasileiro que trabalhou com Falcone, e que fundou em São Paulo um instituto dedicado ao juiz italiano que investiga o crime organizado. São pessoas com quem estabeleces laços muito profundos, e isso é o que me ocorreu com Maierovitch. Trabalhou com Falcone no caso Buscetta [um mafioso que nos anos oitenta rompeu com a lei do silêncio e se converteu num mafioso arrependido], um momento chave na luta contra a Máfia. Era fascinante falar com ele sobre Falcone e sua determinação. Todos os que se dedicam a isto são plenamente conscientes de que estão arriscando a vida, de que podem ser assassinados em qualquer momento; porém tomaram a decisão moral de que tem que seguir adiante. Também quis falar com os próprios mafiosos, e consegui em algumas áreas. E não sempre representam o mal absoluto, porque proporcionam empregos em zonas onde ninguém mais está presente e dão serviços à comunidade. E acredito que estão fazendo um bom trabalho.

P - É sua teoria do bom gângster?
R
- Sim, são pessoas que em tempos de mudanças revolucionarias provêem empregos e conseguem que os serviços funcionem. Ainda que esteja integrada por tipos bastante sinistros, a máfia russa entrou, em suas origens, nesta categoria. Foram as pessoas que manejaram a transição ao capitalismo, porque o Estado era simplesmente incapaz de fazê-lo. E isto ocorreu em muitos outros lugares do leste europeu. A ausência do Estado permitiu na Rússia o roubo massivo dos imensos recursos naturais do país. O problema que se produz quando a máfia se converte em reguladora do mercado é que não há nenhum tipo de responsabilidade democrática, nem de transparência. O dinheiro fica na parte alta da organização, ainda que há gente que lhes respeita porque conseguem emprego.

P - Sempre se disse que a principal diferença entre a Máfia e a Camorra é que a organização siciliana, ao ter uma cúpula estruturada, é muito mais discreta nos últimos anos que a organização napolitana, que vive no meio do caos com famílias enfrentadas. As coisas são muito mais perigosas quando não há um chefe claro?
R
- O que ocorreu a principio dos noventa é que se produziu uma mudança na forma em que o crime organizado se entendia a si mesmo e seus negócios. As estruturas tradicionais da máfia de Nova York e da Sicilia eram antigas e muito pouco eficientes. O que as pessoas começaram a entender é que conceitos como a família ou a lealdade são valiosos até certo ponto, porém os interesses econômicos são mais importantes. Os Estados Unidos introduziram uma legislação nos anos setenta, ainda que não começasse a aplicá-la até os anos oitenta, que foi a arma mais eficaz contra o crime organizado: RICO. Por causa das estruturas familiares é muito mais fácil utilizar RICO porque é uma lei que permite processar a alguém só por pertencer a um grupo criminal, sem necessidade de haver cometido nenhum delito concreto. Outras estruturas mafiosas se mostraram muito mais descentralizadas, como a ‘Camorra’ ou a ‘Ndrangheta’. E é um fenômeno mais acentuado nas máfias colombianas ou russas, que estão preparadas para que lhes cortem a cabeça, para que o ‘capo’ seja detido, e que o corpo possa seguir funcionando. Quando o cartel de Cali foi descabeçado nos anos noventa não passou nada com o preço da coca em Nova York. Aplicar a lei é muito difícil porque as estruturas mafiosas aprenderam de suas debilidades do passado.

P - Qual foi o momento em que você passou mais medo investigando para o livro?
R
- Foi antes de ir a Colômbia, que era um país que não conhecia. Tanto em Bogotá, como no norte ou o sul, todo mundo que você conhece sofreu algum tipo de tragédia pessoal. Porém logo não ocorreu nada concreto. Ir a Odessa, na Ucrânia, para entrevistar a um gângster também foi bastante aterrador, e em geral na Rússia, onde o Estado está voltando com força. Sentes, como na época da URSS, que só eras um ser humano e que o Estado russo não pensa duas vezes se te interpões em seu caminho. Visitei também áreas com índices altíssimos de criminalidade; porém se tens cuidado, e se quando te encontras com gângsteres organizou bem e sempre eras claro, é relativamente seguro. Passei por situações muito mais perigosas durante as guerras na antiga Yugoslávia ou em Sarajevo, onde te disparavam e bombardeavam constantemente. O único lugar onde me senti totalmente seguro foi no Japão com os ‘yakuza’, porque sentes que todo está muito estruturado.

P - A impressão que se tira de seu livro é que a máfia é menos selvagem do que pensamos, que em geral só recorre ao assassinato como última instância. Isso é certo?
R
- Para tratar de entender o crime organizado há que analisar quais são seus negócios, no que estão metidos. Os ‘yakuza’ o entenderam perfeitamente porque para eles a guerra de princípios dos anos noventa foi um desastre: não só porque perderam seu pessoal, senão porque se arruinaram em muitos negócios. Nos ‘Sopranos’, o personagem Tony possui muita sabedoria sobre o crime organizado, e ele sempre compreende isto. Os tipos que lhe rodeiam ou a quadrilha do Brooklin, não; mas ele, sim: Evita meter-te numa guerra porque tua gente morrerá e é teu recurso mais importante. Se começas uma guerra, atrairás a atenção dos meios de comunicação e da policia, que se verá obrigada a atuar para parar a violência. Desde os noventa, os ‘yakuza’ sempre trataram de evitar a violência, mas sim projetaram uma imagem crível de que seriam capazes de utilizá-la. Tem que deixar claro que, se cruzas uma linha, te aniquilarão.

P - E que disse sua família quando lhes anunciou que, uma vez que as guerras balcânicas haviam terminado, ia a dedicar-se agora à máfia?
R
- A verdade é que não lhes fez muita graça... Não gostam que viaje tanto, mas sim que a eles lhes interessam os livros. Minha filha de 13 anos, que acabava de fazer um prometo sobre Afeganistão na escola, me pediu que não fosse, estava aterrorizada. Trato de tranqüilizar-lhes o máximo possível. Mas o livro, todavia, não foi publicado, não sei como reagirão as pessoas que aparecem nele.

P - A guerra contra os narcóticos em Afeganistão parece quase impossível de ganhar. Representaria a legalização das drogas um grande golpe para as máfias?
R
- Os talibãs vão ganhar essa guerra, tenho certeza. A guerra contra as drogas é o que chamo 'a roupa nova do imperador'. O imperador está nu, mas ninguém se atreve a dizê-lo, é uma luta que começou nos anos vinte ou, em sua forma moderna, com a presidência de Reagan. A guerra contra as drogas garante ao crime organizado uns recursos econômicos gigantescos em todo o mundo. Falei com vários grandes exportadores de cânhamo no Canadá e todos estavam contra a legalização porque vivem muito bem graças à proibição. Os criminosos estão totalmente de acordo com os tipos em Washington que querem manter as políticas atuais. No Afeganistão e na Colômbia significa os talibãs e a guerrilha das FARC, que não seriam capazes de manter-se sem a indústria do ópio e da cocaína. E estamos perdendo a guerra no Afeganistão por causa dessa inútil guerra contra a droga. Há que escolher: queremos vencer a Al Qaeda ou não? Se quisermos derrotar a essa organização, temos que redefinir a política sobre as drogas. Não significa uma legalização total imediata, se podem dar passos intermédios, mas a longo prazo é uma loucura. Quando falo com políticos sobre isto, o fascinante é que, em privado, te dizem que tem que dar este passo: e me refiro a policiais, políticos e altos funcionários com muita experiência. Todos confessam em privado que há que fazer algo, mas em público todo mundo tem demasiado medo para reconhecê-lo.
P - A guerra contra o terrorismo de Bush foi boa, mau ou indiferente na luta contra o crime organizado global?
R
- Em 1995, o presidente Bill Clinton discursou na ONU traçando uma equivalência entre a luta contra a máfia e contra o terrorismo. Foi ele quem cunhou a frase do ‘lado escuro da globalização’. Quando Bush chegou ao poder desmantelou as estruturas de luta contra a lavagem de dinheiro que Clinton havia organizado porque estava convencido de que causava dano à competitividade dos bancos estadunidenses. Essa é uma das chaves, porque se chegas a seu dinheiro é quando realmente lhes fazes dano. O crime organizado começou a fazer mais dinheiro que nunca. Depois do 11-S, os serviços de segurança dos Estados Unidos não sabiam onde encontrar o dinheiro precisamente porque essas estruturas haviam sido desmanteladas. A grande diferença não está nos métodos, senão em que organizações como Al Qaeda tem objetivos muito mais políticos, como acabar com a civilização ocidental, e o crime organizado não: querer o dinheiro, a diversão, as Ferrari, as coisas materiais.
P - Suponho que haverá grandes zonas de sombra nas que Al Qaeda e o crime organizado coincidem para financiar-se.
R
- Sim. Na tríplice fronteira entre Paraguai, Brasil e Argentina sabemos que Al Qaeda está presente, igual que no negocio dos diamantes de sangue. O que lhes conecta é a ‘economia na sombra’. Podes perseguir a Osama Bin Laden nas montanhas entre Paquistão e Afeganistão, mas enquanto não combatas seus meios de financiamento, não vais a acabar com Al Qaeda. Tens que ir às fontes do problema, que estão na ‘economia na sombra’ e não nessa estratégia ridícula de Bush e Blair, baseada em grandes meios militares preparados para invadir países.
P – Citou a ‘Sopranos’. Não acredita que seriados como este podem haver trivializado a imagem que temos da máfia?
R
- Em absoluto. Há dois seriados alucinantes que creio que retratam a máfia de forma totalmente realista: ‘Sopranos’ e ‘The Wire’. São retratos maravilhosos e fizeram mais para compreender o crime organizado que qualquer outra coisa, seja na televisão, nos livros, nas campanhas policiais. Esqueça de tudo: se queres entender quais são os motivos do crime organizado, sua forma de atuação, tem que ver estes seriados, porque te mostram como atuam, como buscam suas oportunidades de negocio e mostram os mafiosos como atores racionais.

sexta-feira, maio 02, 2008

A California volta a ser mexicana



Graças à empresa sueca Vin&Sprit (V&S), fabricante da vodka Absolut, a Califórnia voltou a fazer parte do território mexicano.

A empresa utilizou num anúncio da vodka Absolut um mapa que estendia os domínios mexicanos em território estadunidense até os limites anteriores à guerra entre ambos (1846-1848). A campanha publicitária despertou enorme polêmica nos Estados Unidos, onde muitos ameaçaram boicotar a bebida.

O mapa em questão, datado de 1830, mostra sob controle mexicano os estados do Texas, Califórnia, Arizona, Nevada, Utah, Novo México e partes do Colorado e do Wyoming. Tais territórios foram perdidos pelo México para os Estados Unidos com a assinatura do Tratado de Guadalupe Hidalgo que pôs fim àquele conflito bélico.

O anuncio da discórdia faz parte da campanha “In an Absolut World” (num mundo Absolut), no qual a companhia convida os consumidores de cada país a distintas visões de um mundo supostamente ideal.

domingo, abril 27, 2008

Sou um 'mala follá' liverpoolense














PAUL PRESTON
Historiador inglês especialista em Espanha

"Sou um 'mala follá' liverpoolense"
Karmentxu Marín - El País - 27/04/2008
Tradução de Antonio de Freitas

P. A primeira frase de seu último livro é: "Custa julgar a Franco". Começamos bem.

R. O problema é que na Inglaterra, onde exerço minha profissão, Franco ainda goza de boa imprensa. E a um Pinochet, responsável de uma fração mínima do número de mortos de Franco, se lhe considera um monstro. Isto se considera um mistério que o livro tenta resolver.

P. E que graça você vê nisto?

R. Franco não me faz graça. O faço porque sou grande amante da Espanha. Vim a fins dos sessenta e tive um flechaço que se converteu numa espécie de matrimonio estável. E me indigna o que sofreram tantos espanhóis por culpa do ditador.

P. Diz que lhe recorda ao Mago de Oz. E Hitler ao Pequeno Polegar?

R. Não. A Franco lhe vejo como uma pessoa de uma tremenda insegurança, que se ocultava escondendo-se detrás dumas máscaras. Essa é a historia do Mago de Oz: todos lhe tinham medo e, ao final, resulta ser um pequenininho inseguro dentro de um disfarce.

P. O que você acredita que lhe assombraria mais da Espanha de hoje: que os políticos no sigam debaixo de um ‘palio’, que se casem os gays ou que Fraga (ex-Governador da Galicia que foi o ministro mais jovem de Franco) seja democrata?

R. Eu creio que com a imagem de Carme Chacón (atual Ministra de Defesa espanhola) pondo firmes aos militares sim que lhe haveria dado ataque de nervos.

P. O que você vê nos espanhóis? Por que os espanhóis lhes interessa tanto?

R. Não sei. É uma pergunta que sempre me fiz. Eu vim aqui e encantei-me de tudo: o sentido de humor, o calor da gente, a generosidade. Apaixonei-me pelos espanhóis. Há filhos da puta, como em qualquer lugar. Porém, no geral, a maneira de ser dos espanhóis me enlouquece.

P. Por que aos hispanistas gostam tanto das ‘tapas’ e das tabernas?

R. No há nada comparável na Inglaterra. Aqui pedes uma cerveja, e te põem uma cerveja. Na Inglaterra talvez tenhas que ficar numa fila por quinze minutos.

P. Pesquisar sobre Espanha lhe induz a ‘tomar todas’?
R. Não, isso não. Possivelmente o maior hispanista depois de Brenan, John Elliot, é totalmente abstêmio.

P. Você gosta de Zapatero?
R. Não lhe conheço pessoalmente, mas sim, me parece simpático.

P. Acredita que Esperanza Aguirre se parece com a senhora Thatcher?
R. É difícil dizer, porque tampouco a conheço. A Mrs. Thatcher era uma força da natureza.

P. Pois a Aguirre dá-lhe um tempo.
R. Não creio, porque, se tivesse todas as qualidades, más e boas, de Mrs. Thatcher, já havia se apoderado de seu partido.

P. Talvez esteja neste momento.
R. Não acredito.

P. Quantos telejornais faltam a Rajoy?
R. Nem idéia. Sou um ‘guiri’. Vivo longe.

P. O Liverpool empatou terça-feira com o Chelsea na Champions. Aborreceu-lhe este resultado?
R. Deu-me uma alegria enorme porque eu não sou torcedor do Liverpool, que porra, sou torcedor do Everton, que é o time dos liverpoolenses de verdade.
P. E o que lhe parece mais trágico, esse empate ou que lhe interrompam a ‘siesta’?
R. Rapaz, é trágico que não ganhe o Chelsea.

P. Ao Príncipe Charles já lhe passou sua hora?
R. A rainha acaba de cumprir 82 anos e está como uma flor. Se não há um traspasso logo, vai ser muito difícil. E ainda que me caia muito bem, o Príncipe Charles é um personagem não muito popular. Por outro lado, seus dois filhos são super populares. Talvez se salte uma geração. Não sei.

P. E em que ponto está a ‘paella’ de Felipe de Bourbon?
R. Depende das circunstâncias nas quais se faça o traspasso de poderes. Eu tenho muito bom conceito sobre o Príncipe. Falei longamente com ele um par de vezes, e me parece muito inteligente, muito bem preparado. Porém tem a desvantagem de carecer da justificação da Monarquia que leva seu pai.

P. Tem você a língua tão ferina como dizem?
R. Rapaz, é que se fala aqui muito do ‘mala follá granaíno’, porém não é nada em comparação com o ‘mala follá liverpoolense’. Eu sou. E nós somos uns escorpiões.

P. No que você acredita?
R. No trabalho, em meus filhos. E tenho valores políticos, ainda que não milite. Durante a transição aqui, a finais do franquismo... É a única vez em minha vida que militei algo em política. Mas eu sou dos que acreditam que contra Franco vivíamos melhor.

P. Você gosta de todo tipo de música, salvo o rap. Sería capaz de bailar o chiki chiki?
R. Eu nunca fui bom dançarino, ainda que nos anos sessenta ganhei um prêmio de rock and roll. E o chiki chiki... Eu creio que o chiki chiki é outra atividade. Para o chiki chiki não faz falta ter parceira disposta? Porque se não, não me interessa. Porém tenha em conta que meu vocabulário é muito limitado. Insisto: sou um pobre ‘guiri’.

Perfil
Tem 61 anos, dois filhos e um castelhano mais típico que o falado na Rua de Álcalá, em Madri. Acaba de publicar “El gran manipulador. La mentira cotidiana de Franco.” Gosta de comer, beber - cita os caldos espanhóis como si fossem a guia telefônica-, cozinhar e ler novela ‘noir’, "minha grande debilidade", da que consome uma centena de títulos ao ano. Diz "adorar o futebol", esporte que praticava quando era jovem, quando "se sobressaia com os dardos" e era "um craque com o pebolim".

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Paul Preston

De Wikipedia, la enciclopedia libre

Paul Preston (Liverpool, Reino Unido, 1946), historiador autor de diversas obras sobre la Historia Contemporánea de España, es Doctor en Historia por la Universidad de Oxford y catedrático de Historia Contemporánea española y director del Centro Cañada Blanch para el Estudio de la España Contemporánea. También fue profesor de Historia en la Universidad de Reading, en el Centro de Estudios Mediterráneos, en el Queen Mary College y en la London School.

Junto a Ian Gibson y Hugh Thomas, constituye el núcleo de los hispanistas británicos que han dedicado su esfuerzo al estudio de la historia reciente española, especialmente a la de la Segunda República y la Guerra civil españolas.

Posee la Encomienda de la Orden del Mérito Civil y es miembro de la Academia Británica.
Biografía

Nacido en la ciudad de Liverpool, Inglaterra. Impartió clases en la Universidad de Reading entre 1973 y 1991.

Más tarde ejerce como profesor de Historia Contemporánea en el Queen Mary College de la Universidad de Londres, y después pasa al London School of Economics & Political Science (del inglés, literalmente Instituto de Economía y Ciencias Políticas de Londres) como Catedrático y Director del Centro Cañada Blanch para el estudio de la historia contemporánea de España de la misma universidad. Escribe artículos en diversas publicaciones y colabora también con la BBC como comentarista de la actualidad española. Se le acusa de no ser neutral ni objetivo en sus escritos y de dar importancia excesiva a testimonios de terceros (...dijo que se había dicho, en una conversación con él..., cuando el caudillo vivía me dijo...,etc.) y de idealizar a los voluntarios extranjeros, especialmente anglosajones o escritores y periodistas como él (por ejemplo, Ernest Hemingway).
Sus obras se centran en la Historia reciente de España, desde la Segunda República Española (1931-1936), muy especialmente la Guerra Civil Española (1936-1939) hasta la Transición Española (1976 - 1982).

En el plano personal, es aficionado del Everton

Obras principales
• Franco: Caudillo de España (1994)
• Palomas de guerra y España y las grandes potencias en el siglo XX
• Franco y La política de la venganza: el fascismo y el militarismo en la España del siglo XX
• La política de la venganza: el fascismo y el militarismo en la España del siglo XX (1997)
• La Guerra Civil (2000)
• Palomas de guerra. Cinco mujeres marcadas por el conflicto bélico (2001)
• La destrucción de la democracia en España (2001)
• Las tres Españas del 36 (2001)
• Juan Carlos: el Rey de un pueblo (2003)
• El triunfo de la democracia en España
• Las tres Españas del 36
• Idealistas bajo las balas (2007)
• El gran manipulador. La mentira cotidiana de Franco (2008)

Véase también
• Ian Gibson Hispanista y ensayista.
• Hugh Thomas

Enlaces externos
• Entrevista al historiador Paul Preston: "Juan Carlos se ha convertido en el rey de los republicanos" de Pascual Vera, Universidad de Murcia (2003)
• La Transición Española de Paul Preston, monografía especial de 16 capítulos del volumen 13 de la colección Historia de España de Historia 16.
• Entrevista con Paul Preston en sobre su libro Idealistas bajo las balas. La Ventana, Cadena Ser.

sexta-feira, abril 18, 2008

É preciso














É preciso viver,
sair da casa paterna,
quebrar a cara na cidade grande,
viver.

É preciso rasgar
as velhas poesias,
os velhos sentimentos,
e sentir coisas novas,
escrever novos versos,
viver.

segunda-feira, abril 07, 2008

A economia de mercado não é suficiente para criar uma civilização


ENTREVISTA com André Compte-Sponville

“A economia de mercado não é suficiente para criar uma civilização”
Milagros Pérez Oliva – El País - 24/02/2008

Tradução Antonio de Freitas Jr.


Um dos poucos filósofos que conectam com o grande público. Defende a espiritualidade laica e a “alegre desesperança” em um tempo de muitas perguntas e poucas respostas.

É capaz de encher grandes auditórios falando de filosofia, e seus livros, com títulos tão expressivos como “Pequeno tratado de grandes virtudes”, “É moral o capitalismo?” ou “A felicidade, desesperadamente”, venderam como best sellers. Em sua casa de Paris, muito próximo da Gare de Lyon e do Sena, no último andar de uma vetusta casa senhorial, André Compte-Sponville se deixa levar pelo caudal de seu pensamento. Se mostra cálido e acolhedor, porém guarda uma educada distancia até que o gravador é ligado. Então se senta no extremo da poltrona, se inclina sobre o aparato e permanece assim a maior parte do tempo. É um homem atraente, e ele sabe disto. Alto, delgado, de cabelo lacio e indômito, o corte que leva lhe dá o ar de um adolescente inconformista, ainda quando já esteja na metade dos cinqüenta. Têm dois filhos aos que adora, porém que não lhe seguiram nem em seu amor pela filosofia nem na paixão intelectual.
Acabam de publicar na Espanha “La vida humana”, ilustrado com desenhos de sua mulher, a pintora Sylvie Thybert. Em 1998 deixou a universidade para dedicar-se exclusivamente a escrever. Quando começou a ensinar filosofia não podia imaginar que se produziria este renascer. O atribui ao declive das respostas pré-fabricadas que nos anos cinqüenta davam as grandes religiões e as grandes ideologias, como o marxismo. “Como as pessoas tinham muitas respostas e poucas perguntas, não necessitavam da filosofia. Agora há muitas perguntas e poucas respostas, e isso é bom para a filosofia”, disse. Porém há outra razão: a filosofia se fez mais acessível. Ele foi um dos primeiros filósofos a escrever livros sem notas de rodapé, isto é, para o grande público. Em 2006 apareceu “El alma del ateísmo. Introducción a uma espiritualidad sin dios”. Por aí começamos.

P - Em ‘El alma del ateísmo’, você confessa que teve como uma necessidade imperiosa, uma espécie de urgência de falar de espiritualidade. Por quê?

R - Tive uma urgência pessoal, do tipo existencial, porque a vida é curta e pensei que seria uma pena esperar a estar morto para ter uma vida espiritual, sobretudo se, como eu, você acredita que depois da morte no há nada. Porém também há uma urgência social porque creio que estamos ameaçados por dois perigos simétricos: por um lado, o fanatismo, o integrismo e o obscurantismo, e por outro, o niilismo. E tenho a impressão de que a civilização ocidental não sabe muito bem o que fazer diante destes dois perigos.

P - Sabemos bem que é o fanatismo religioso, porém o que é hoje o niilismo?

R - Como sabes, 'niil' em latim significa 'nada', assim que os niilistas, para mim, são as pessoas que não acreditam em nada, que não respeitam nada, que não têm nem valores, nem princípios, nem ideais. Há um novelista, Michel Houellebecq, um autor com talento ainda que bastante sórdido e antipático, que me parece interessante porque faz uma descrição niilista de uma sociedade niilista. Em sua última novela, por exemplo, o personagem principal, que é o próprio autor ou ao menos se parecem muito, disse (é uma expressão vulgar; eu sinto muito): “A mim só me interessa meu pau, nada mais”. Um niilista é isso: alguém ao que não lhe interessa nada mais que sua pequena trivialidade, seja o sexo, o dinheiro, o luxo. O que nos têm que dar mais medo é que não temos nada com que possamos nos opor ao fanatismo de alguns e ao niilismo dos outros. Combater a Bin Laden ou ao Opus Dei com as posições de uma sociedade como a que descreve Houellebecq nos leva ao desastre. Por isso decidi lutar contra os dois adversários: contra o fanatismo, obviamente, porém também contra o niilismo.

P - O niilismo renuncia aos valores, porém o fanatismo intenta se apropriar dos mesmos. Frente a ambos defende você uma espiritualidade laica. Em que consiste?

R - Na defesa dos grandes princípios que a historia selecionou como valores de progresso, desde o “não matarás” do cristianismo até os valores de igualdade e liberdade da Ilustração. Não se trata de inventar uma nova moral, senão de transmitir a moral que recebemos e que se foi elaborando ao largo de milênios. Foram milênios de historia acumulada que cada geração transmitiu a seus filhos o que em sua opinião era o melhor daquilo que haviam recebido, e isto terminou por conformar uma civilização.

P - Em uma de suas conferencias fez um símil que eu gostei especialmente: “A moral é para a civilização o que os genes são para a biologia”.

R – É assim. Eu quando leio os evangelhos, estou de acordo no essencial com seus postulados morais, igual que quando leio a Platão, Aristóteles, Epicuro ou aos estóicos. O que seria uma pena é que, pelo fato de não crer em Deus, como é meu caso, prescindamos dessa herança, porque isso conduz ao niilismo e joga lenha no fogo dos fanáticos, que dirão que a única maneira de escapar do niilismo é a religião. Não é necessário crer em Deus para estar ligado a uns valores morais.

P - As diferentes igrejas estão muito enfrentadas, porém há algo no que coincidem e se apóiam: fazer frente ao laicismo. O novo fanatismo religioso é uma demonstração de debilidade ou de força?

R - Creio que ambas as coisas. Primeiro, uma demonstração de debilidade, de angustia diante da idéia de que algo está a ponto de terminar, obviamente a influencia massiva da religião. Mas também é uma reação de força, porque está claro que nos equivocamos ao pensar que o problema havia desaparecido. Na minha época universitária se considerava que a religião era uma velha lua que se havia deixado para trás. Quarenta anos depois, a velha lua segue ai. É certo que esta forma de fanatismo ocorre especialmente no mundo muçulmano, mas também, ainda que menos grave, em certas reações integristas da Igreja católica.

P – Na Espanha as sofremos muito ultimamente. Não crê que com esta atitude a Igreja corre o risco de ressuscitar o anticlericalismo?

R - Seria um erro basear-se nisto para declarar a guerra à religião, porque para mim o adversário não é a religião. Que as pessoas acreditem ou não em Deus, pra mim não me incomoda em absoluto; de fato, muitos de meus amigos são cristãos. Os adversarios são o fanatismo e o niilismo. E é muito importante não se equivocar de adversário, porque se se luta contra a religião em geral, se está metendo a todos os crentes no mesmo saco que os fanáticos, que é o que querem estes últimos, obviamente. Eu luto contra os fanáticos e contra o obscurantismo, mas me considero aliado de todos os espíritos livres, abertos e tolerantes, creiam ou não em Deus.

P - Desde o materialismo histórico inicial, como evolucionou seu pensamento?

R - Sigo sendo materialista, e também racionalista e humanista, se quiser qualificar-me com palavras terminadas em ista. Que significa ser materialista? Significa que penso como Epicuro e como Marx também, que tudo o que existe é material, que não há um Deus imaterial nem uma alma imaterial, e que o que pensa em mim é o cérebro. Mas também sou humanista, não um humanista especulativo que celebra a grandeza da natureza humana, na qual não creio, senão um humanista convencido de que, dado que não existe um Deus, a humanidade é o mais apreciado que temos e há que preservar-la apesar de suas debilidades.

P – Me surpreendeu muito a parte de seu livro na qual fala do 'sentimento oceânico'. Narra você uma experiência transcendente que teve em um bosque! Como se chega a esse estado?

R - Desde que se publicou o livro recebi muitíssimas cartas e falei do tema com muita gente. Há duas categorias de pessoas: umas que me disseram que se alegraram muito porque havia descrito com palavras umas experiências que elas também haviam vivido, mas não sabiam como expressar, e outras que me disseram que nunca experimentaram nada parecido. Assim que cheguei à conclusão de que este sentimento oceânico é uma experiência que não é única nem excepcional, porém que tampouco é universal, porque há milhões de pessoas que a experimentaram e milhões que não.

P – E que é exatamente?

R – A expressão “sentimento oceânico”, como você sabe, já era utilizada por Freud, que a tomou emprestado de seu amigo o escritor Romain Rolland, para descrever experiências místicas, ou seja, o que agora os psicólogos definem como estados modificados da consciência. Este sentimento oceânico se caracteriza por uma sensação de mistério e de naturalidade indissociáveis, uma sensação de plenitude, de unidade, de simplicidade, de eternidade, de serenidade. Porém isto não tem lugar no encontro com um ente superior, não estou falando da transcendência. É o que eu denomino “mística da inmanencia”, a sensação de ser um com a natureza, um com o todo. Romain Rolland o denominou “sentimento oceânico” porque somos um com todo, como a onda ou a gota de água são um com o oceano.

P – Às pessoas educadas no materialismo ficam nervosas ao ouvir falar de espiritualidade, e mais nestes termos, não?

R - Sim, sim que costumar acontecer. Em meu caso, quiçá tive a sorte de haver sido primeiro cristão e logo ateu, e estou mais familiarizado. Alguns amigos meus são materialistas, por assim dizer, desde que nasceram, costumam ser filhos de comunistas. E quando vejo a meus amigos ficarem nervosos falando destas coisas, penso que lhes falta algo: uma dimensão poética. Não há que confundir religião com espiritualidade. Esse é um erro que cometem às vezes tanto os crentes como os ateus: pensar que somente é possível ter espiritualidade quando se professa uma religião.

P - Você conheceu a Louis Althusser, que foi uma autoridade do pensamento marxista. Também o foi Nikos Poulantzas. Alguns dos intelectuais que pertencem a essa geração tiveram um final trágico, como o próprio Althusser. Poulantzas se jogou do alto de um edifício, e Gilles Deleuze se suicidou também. Alguns viram nestas mortes trágicas uma metáfora sobre o ocaso de um pensamento.

R – Eu não comparto esta idéia, porque é certo que Poulantzas se suicidou como você disse, porém Gilles Deleuze se suicidou porque estava muito, muito enfermo: lhe doíam muito os pulmões e já não podia respirar. E quando a vida se torna demasiado difícil, o suicídio pode ser uma reação saudável. Ele se suicidou muito velho e muito enfermo, o que não foi o caso de Poulantzas, que se suicidou jovem e, pelo que sei, à causa de uma depressão. E também é diferente o caso de Louis Althusser, que estrangulou a sua mulher e teve um final de vida extremadamente infeliz.

P - Como recorda a figura de Althusser?

R - Fui aluno e amigo seu e sentia muito afeto por ele. Creio que seu principal mérito foi tentar explorar o que resultou ser um ponto morto, levar totalmente a sério a idéia de que o marxismo era uma ciência e que a partir dele se podia elaborar uma filosofia. Althusser tentou, com o talento que todos sabemos que tinha, e não conseguiu. Resulta trágico pensar que haja trabalhado 50 anos para chegar praticamente a nada. Em Althusser confluía ademais outra dimensão, que era sua enfermidade. Como você sabe, sofria um transtorno maníaco-depressivo…

P - O que agora se catalogaria como um transtorno bipolar. O tratavam?

R - Sim, estava em tratamento, porém tinha uma desvantagem muito grande: que não reagia aos sais de lítio, que era então o único medicamento eficaz. Não sei se lhe submeterem ademais a eletrochoques, creio que sim, porém o caso é que o tratamento não surtiu efeito e não impediu que matara a sua mulher em uma fase maníaca aguda. Nem lhe impediu tampouco ser consciente desse horror durante os dez anos que sobreviveu ao assassinato.

P - Você lhe acompanhou até o final…

R - Sim, nos víamos muitas vezes. E de fato tivemos uma relação mais próxima depois de que assassinara a sua mulher que antes, porque antes era meu professor, nos tuteábamos e sentia muita admiração por ele, porém havia certa distância. Depois nos aproximamos muito. Era um amigo maravilhoso e o homem mais triste que jamais conhecido.

P - O próprio Althusser escreveu depois um livro com um dos títulos também mais tristes, ‘L’avenir dure longtemps’. A idéia de que o futuro não se acaba nunca é terrível, não crê?

R - Sim, está certo. O fato de que se encontrara em um ponto morto filosófico não era a causa de sua patologia mental, está claro; não era infeliz só por isso. Porém creio que a sensação de haver fracassado na filosofia deve ter aumentado muito seu sofrimento.

P - Você se define a si mesmo como um filho de Maio de 68. Que resta de tudo aquilo? Como o vê agora?

R - A verdade é que tenho uma postura bastante ambivalente. Guardo um recordo maravilhoso porque foi uma grande sorte viver aquele momento com 16 anos. Seguem-me fascinando esses meses de maio e junho que vivemos, porém não tanto os 40 anos que lhes seguiram. Pra mim, eu gostaria dizer que Maio de 68 esteve bem, porém que já terminou. Nicolas Sarkozy propôs erradicar, abolir, tudo o relativo a Maio de 68, porém eu digo que o que há que fazer é superá-lo. Porque no fundo, foi uma crise de adolescência da sociedade francesa. E podemos dizer que tivemos sorte, porque a maioria destas crises são tristes e lúgubres, enquanto que a nossa foi festiva e alegre. Mas há que superá-la, e só há duas formas de fazê-lo: voltar à infância, ao infantilismo, ou seguir crescendo para alcançar a maturidade.

P - A verdade é que não se vislumbra um pensamento tão forte, capaz de despertar tantas esperanças…

R – Eu não creio que aquele pensamento fosse tão forte. O paradoxo é que se baseava em categorias políticas do século XIX, porque Marx é um escritor do século XIX, e os da geração de 68, que eram mais bien libertários, acabaram adorando a ditadores como Lênin, Stalin, Mao… Aquele pensamento fracassou porque era mal, é assim de simples: Marx se equivocou, Lênin se equivocou e Stalin mais ainda, ou ao menos de uma forma mais criminal.

P - Se estas ideologias fracassaram, que significa hoje ser de esquerdas?

R - Fundamentalmente estar do lado dos mais pobres e dos mais débeis. Porém, o que faz com que melhore a situação dos mais pobres? O Estado, como costuma dizer a esquerda, ou a economia de mercado? Pois depende: na França, curiosamente, temos a idéia de que ser de esquerdas é estar a favor do Estado, e ser de direitas, a favor do mercado. Contudo, cuidado!, se o mercado favorece aos pobres mais que o Estado, ser de esquerdas é estar a favor do mercado.

P - Você como se define?

R - Como liberal de esquerdas: de esquerdas porque cheguei à conclusão de que o objetivo da política é ajudar aos mais débeis, aos mais desfavorecidos; porém liberal, porque inclusive para os mais pobres, a economia de mercado é mais favorável. Agora bien, não se pode contar com o mercado para que faça justiça: é o Estado o que tem que regular o mercado para conseguir que os mais pobres também tenham sua oportunidade. Creio que a economia de mercado triunfou, porém ainda que seja fantástica para criar riqueza, nunca foi suficiente para criar uma civilização, nem sequer para criar uma sociedade que seja humanamente aceitável. Necessitamos que o Estado se ocupe do que não se pode vender, isto é, do essencial.

P - Em seu livro ‘La felicidad, dessesperadamente’ defende que para ser feliz é melhor desejar unicamente o que depende de nós mesmos.

R – Os estóicos distinguiam entre o que depende de nós e o que não. E é melhor desejar aquilo que depende de nós, porque nesse caso querer significa atuar, que desejar aquilo que não depende de nós, porque então há que contentar-se com esperar. Obviamente, um encontra mais felicidade na ação que na esperança, porque se desejas o que não depende de ti, terás medo de que não suceda. O caminho até a felicidade é o caminho da ação, do amor.

P - Comparto o que disse em ‘La vida humana’ quando afirma que o amor mais forte que há é o amor pelo filho.

R - Sim, é verdade, esse amor é o que está por cima de todos. Ao menos é o que eu vivi. Um pode estar apaixonado, querer a seus amigos, a seus pais, porém creio que o amor mais forte é o que sentimos por nossos filhos, o único que é incondicional. E desde este ponto de vista, que Deus seja pai na tradição cristã não é uma casualidade, ainda que na minha opinião, se houvesse sido mãe, haveria sido ainda melhor. Mas não há nada como o amor pelo filho, e creio que a humanidade deve sua sobrevivência a cinco mil anos de amor maternal.

P - Também destaca o amor da mãe, ainda quando essa mãe não seja, como a sua mesma, perfeita; “inclusive quando seja uma mãe patológica”, diz no livro. A que se refere?

R - Minha mãe era depressiva e alcoólatra. Sofria um tipo de histeria – bom, eu não soube disto até muito mais tarde – que se converte em depressão ao entrar nos 40 ou os 50, quando a sedução aparece já como algo impossível. Ao tornar-se depressiva, como a relação com meu pai tampouco estava bem, começou a beber. O alcoolismo é em si mesmo um sintoma neurótico, e a mistura histeria–depressão-álcool define um quadro claramente patológico. Porém, ao mesmo tempo nos amava – pelo menos a meu irmão e a mim, porque minha irmã era uma pessoa mais difícil– com paixão.

P - Podia perceber esse amor por cima de todos os problemas?

R - Claro, eu passei toda a infância temendo morrer antes dela porque não sabia como poderia sobreviver sem mim. Ela tentou suicidar-se duas vezes quando éramos pequenos, e na terceira, quando já éramos maiores, conseguiu. Nos ocupávamos muito dela, mas estava enferma. E ao final se suicidou.
Quando me ouvem falar do amor maternal, as pessoas me dizem: “Tú deves ter tido uma mãe maravilhosa”. Eu tive uma mãe que me amou mais que a ninguém, aparte de meu irmão. E isso é algo que passa quase sempre: as mães amam a seus filhos mais que a qualquer outra pessoa. Isto é o que mais me comove deste amor: que é o amor mais excepcional que há, porque ninguém nunca me amou como ela, e ao mesmo tempo é o mais banal, porque há milhares de milhões de mulheres que amam a seus filhos do mesmo modo.

P – No seu livro diz que quando tinha 20 anos acreditava que lhe havia passado tudo... mas o pior ainda estava por chegar. A que se referia?

R - Aos 20 anos eu era muito, muito desgraçado porque aprendi a amar no quadro da infelicidade da minha mãe. Não suportava que minha mãe fosse infeliz, mas o era, e portanto, eu também, e ademais meus pais se levavam horrivelmente mal. Assim que pensava que o pior já havia passado porque acreditava que o pior havia sido minha infância. Mas me equivoquei porque mais tarde perdi a meu primeiro filho, uma menina, às seis semanas, e isso foi muito pior que o que havia vivido em minha infância. Logo perdi a minha mãe daquela maneira. Quando te ocorrem estas coisas, sentes uma pena atroz. Quiçá pela família tão difícil na que cresci, fui sempre mais sensível que outros à fragilidade da existência. Mas em geral vivo no que em termos filosóficos denomino “a alegre desesperança”: uma vez que entendemos que há cosas que não podemos controlar e que só nos espera a morte, nos damos conta de que o melhor que podemos fazer é desfrutar ao máximo da vida que temos.

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André Comte-Sponville
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

André Comte-Sponville (
1952, Paris) é um filósofo materialista ateu francês. Estudou na École Normale Supérieure.

Sponville utiliza o referencial de Jean Paul Sartre que já havia dito que "todos somos responsáveis por todos" e de Dostoievsky, "somos todos responsáveis por tudo, diante de todos".

Foi membro do clube de Roma entre 1989 a 1997. E atualmente é professor na Universidade de Paris.
Criticou a entrada de
Mikhail Gorbatchev no Clube de Roma, em 1994.

Obras: A Felicidade, Desesperadamente; Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999, Tradução de Eduardo Brandão.