
Fidel Castro Ruz
18 de febrero de 2008
5 y 30 p.m.
O Periscópio é uma maneira diferente de enxergar através de toda a parafernália de opiniões existentes na web sobre o mundo e sobre nós mesmos. Este blog trata do mundo e de todos nós. Tão somente!



Alegre y feliz como
una lombriz.
Juan António Cebrián
Uma das maravilhas que descobri nos meus anos de Espanha foi o rádio. Sim, o rádio como companheiro de madrugadas, em longas jornadas de leitura, escrita e insônia, muita insônia. A Espanha possui algumas estações de rádio que são verdadeiras maravilhas de informação, diversão, cultura e que funcionam durante as vinte e quatros horas do dia. Com a rádio espanhola aprendi muito sobre a Espanha, sobre a língua castelhana e, principalmente, sobre a “Hispanidad”, esta sensação de inclusão num universo muito maior que o da restrita “Comunidade de Povos de Língua Portuguesa” em que vivemos, sem darmos conta.
De maneira que o Natal de 2007 será um pouquinho mais triste, ainda que este ano tenha nascido minha filha Isabela e tudo o mais de bom que me aconteceu. Este ano de 2007 será, também, o ano em que morreu Juan António Cebrián, um amigo e companheiro, “alegre y feliz como una lombriz”.
Si, mañana
Foram apenas dois anos de convivência diária entre processos administrativos, consultoria ministerial, aprendizagem política e muita camaradagem e gargalhadas. Dizem que família não escolhemos, mas os amigos sim. Então devemos ser rigorosos, pois só depende da gente.
Assim o planeta deu duas voltas ao redor do sol, enquanto nós aqui embaixo sacaneávamos meio-mundo, pondo apelidos nada carinhosos nos filhos-da-puta que cruzavam o caminho da assessoria jurídica e, principalmente, naqueles que cruzavam teu caminho com soberba, empáfia e alguma inveja. Naqueles que confundiam o trabalho em prol de um projeto de Brasil, de governo e de ministro, com seus próprios projetos pessoais. Botamos pra foder neles, lhes mostramos a força da inteligência aliada ao bom humor. Sim, fomos maiores que o Monty Phyton.
Lembro o primeiro dia que te encontrei. Eras exatamente tu, como hoje. Mas eu não era eu. Era apenas um curriculum vitae e uma recomendação. Alguém que recém chegado ainda não conhecia todos os códigos de conduta da capital federal, sua infinita ironia e jogo de cena. Era apenas mais um garoto de província tentando um lugar ao sol.
E o tempo foi passando. Separei-me e você me aconselhou algo em que acredito até hoje: “É preciso ter paz em casa, sem paz em casa a vida é uma merda”. Sábias palavras. Encontrei outras pessoas, a vida segue seu curso e a natureza humana é selvagem, você dizia. Mas sempre houve palavra amiga, apoio incondicional, confiança mútua e segurança.
Depois discutimos em nossas diferentes posições sobre o Direito, mas a vida voltou a correr perigo, tínhamos do que falar: “vida, louca vida, vida breve, já que eu não posso te levar, quero que você me leve”, diria o Cazuza. Quando vieram tentar usar títulos acadêmicos, dos quais sempre sorri, para forçar uma discórdia, eu, fruto de anos de educação jesuíta italiana, fui taxativo: “Aqui, nesta assessoria jurídica, há hierarquia. Batendo o martelo o chefe, não há outra tese possível”. Saíram com o rabo entre as pernas. Como cantaram os Novos Baianos “acabou chorare”.
E vieram as cachaças, os momentos de pura festa e alegria. Chegou o Rigón e muitas estórias que você nunca tinha contado. Foi o “diabo, o diabo”. O “Seu Elias”, o Márcio, o garçom goiano, o Iran arenista, .... lembra quando o “carioca” Frega entrou na nossa sala? Foi piada pra mais de mês.... hahahahaha. E ele depois foi aceito na “pandilla”, com toda nossa amizade.
Jamais esquecerei aquele dia em que você botou pra correr da nossa sala àquela anta de merda que te foi fazer inferno sobre alguém que eu até já esqueci. Nem tive dúvida, me levantei e fui apertar tua mão: “É uma honra, comandante, trabalhar contigo. Uma honra e um privilégio”. Recordo seu regresso de sua penúltima viagem à Europa em 2007, quando você concordou comigo de que o jornal espanhol “El País” era o melhor jornal do mundo. As “pérolas” que ouvimos, da melhor música, verdadeiramente popular e brasileira, que fazia o inferno dos evangélicos e pudicos.
Sua fidelidade às idéias e às pessoas que ama, seu ministro, Luis Carlos Prestes, seus sonhos libertários, seu perdão infinito para com aqueles que perderam a esperança neste mundo e seu desprezo por aqueles que aproveitaram de posições equivocadas pra não contribuir com nada. Você somente nunca perdoou aos covardes, àqueles que nunca tiveram nobreza no coração. É preciso saber distinguir entre o verdadeiro líder e aqueles que simplesmente exercem uma chefia, qualquer. Liderança se conquista, não se impõe.
O Brasil é imenso, um continente, um mundo, sozinho, ilhado através de uma língua difícil que nos separa mais que nos une. Norte, Sul, oxente e tchê. E nós representávamos exatamente a esse país, nas nossas origens, com todas as suas distâncias e seus medos. Não enfrentar os estereótipos significa apenas permanecer na burrice, essa sandice que abunda hoje em dia.
Os espanhóis, em sua infinita sabedoria daqueles que já tiveram um império, afirmam que “Deus faz e o diabo junta”. Ficou muita coisa. A sensação que’u deveria ter perguntado mais sobre um monte de coisas que’u preciso saber e que você, certamente, saberia me responder com sua maneira originalíssima de ver a vida, as pessoas e o mundo. Teria, certamente, me ajudado a ser melhor pessoa hoje.
De repente, eu olho pra Esplanada, vejo o Ricardo Peixoto, gente de nossa infinita estima, caminhando em minha direção, e certamente iremos almoçar em algum restaurante vegetariano, e falaremos sobre a atual conjuntura, falaremos do mundo, aprenderei algo inteligente sobre alguma coisa, trocaremos confidencias, riremos de alguém, serei melhor pessoa depois deste almoço, mas faltará você com toda sua “verve” neste momento. Você teria provocado o Ricardo com algum comentário sacana sobre algo, e eu teria sorrido da cena. Completamente felizardo, por compartilhar aquela mesa com vocês dois.
Há dias de chuva em Brasília e muitos dias de sol. O lago continua igual, vão construir outro prédio de apartamentos no Sudoeste e o Pão de Açúcar continua vendendo vinho avinagrado. Continuo comendo carne vermelha mal passada, sangrando, e acreditando que há mais “tabaréus” que camaradas neste mundo. Mas quanta falta, Comandante, quanta falta você fará por aqui, quanta falta.
Será a vida um caminho traçado pelo destino, já escrito em todos os seus nuances e curvas ou cada um de nós escreve sua própria estória passo a passo, dia após dia, acertando e errando, sorrindo e chorando? Sinceramente, eu não sei.
E por fim 26 de julho de 1999. Os trinta anos chegaram pela minha janela aberta junto à brisa dos primeiros minutos desta madrugada de segunda-feira. Encontraram-me muito bem, longe de casa, sozinho, mais com alguns sonhos antigos e outros nem tanto.
Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento,
diante de qualquer discussão,
debate e introdução;
se o senhor estiver errado,o crescimento natural de
sua vida intima o levará
lentamente, com o tempo,
a outros conhecimentos.
Permita a suas avaliações seguir o
desenvolvimento próprio,tranqüilo e sem perturbação,
algo que, como todo avanço,
precisa vir de dentro
e não ser forçado
nem apressado
por nada.
Tudo está em deixar amadurecer
e então dar à luz.
Ranier Maria Rilke,
em “Carta a um jovem poeta”,
23 de abril de 1903.

O mundo é um ótimo lugar pra nascer
se não te importa que a felicidadenem sempre tenha muita graçase não te importa um quê de infernode quando em quandojusto quando tudo vai bempois nem mesmo nos céusse canta o tempo todo.
Lawrence Ferlinghetti,em "O mundo é um ótimo lugar...",publicado originariamente em "Pictures of the Gone World",em 1955,e no Brasil publicado em "Vida sem fim", 1984.
A canção triste de espera começa a soar no meu ouvido, justo agora, no meu melhor momento, suas palavras de tristeza soam como um pesado sino de desolação no meu coração cheio de nós.
E lembro de nós, sorrindo pela cidade que nos esquecia, entre beijos e carinhos, no meio da nossa adolescência, no meio de nossas vidas. Como pude esquecer, durante todos esses anos, da nossa alegria?
A canção triste de espera arranca seus acordes nesta tarde quente e chuvosa na cidade que comprime minh’alma de doce angústia e lembranças de solitárias caminhadas por praças vazias, depois daquelas manhãs no colégio dos padres.
A canção triste de espera invade-me como uma avalancha de mau gosto de boca e pesar escuro, fecha meu tempo, derrapa meu sol pro Oriente, subtrai-me de meus melhores sonhos de felicidade a dois, anoitece com o vento mais frio minha carne e queima meu estomago com a acidez das más noticias.
A canção triste de espera atropela minha alegria. E nunca esquecerei que na minha melhor hora, no meu melhor momento, soou a triste canção da espera.
* Escrito na cidade de Teresina, em 24 de julho de 2006.

infante, desejavas crescer
para realizares os teus sonhos de conquista.
adulto, queres retornar ao país de tua infância.
não sabes o que queres.
queres apenas morrer, esquecer.
queres viver eternamente num mundo
que não é o teu. contudo, tens esperança
e agora teces um poema sem fim
com o novelo infinito de tua vida
que se desdobra do nada ao tudo...
Elmar Carvalho,
em "Vida in Vitro",
no livro “Lira dos Cinqüentanos”,
2006.
Estimado amigo Elmar, não sabes minha alegria ao receber tua carta, acompanhada do teu poema “Vida in Vitro”. Sim, Elmar, eu compreendo perfeitamente tudo que nele está escrito. Entendo tuas lembranças da infância, da busca da menina de uma noite de verão (ou inverno). E, principalmente, entendo quando escreves:
“no entanto
ainda não estás saciado,
esperas um milagre
mas não sabes se os milagres ainda existem,
estás perdido”
Sim, poeta, tantas vezes me senti assim, tal qual teu poema. Em busca de um milagre, de alguma que dure mais que um flerte. Quantas vezes não consigo dormir e vago com meus pensamentos e lembranças. Quantas vezes busco respostas para as perguntas que desconheço. E ando pelas ruas, cumprimento os amigos, olho as pessoas e não me vejo. Sempre buscando encontrar o local secreto combinado que esqueci, a palavra mágica, a menina que dançou comigo à beira da piscina na festa desconhecida e iluminada de lua...
Há algo, não sei explicitar, que lembra a poesia “beat” americana e um Drummond insone. Talvez seja a eterna busca da “noite que nunca acaba”, do copo que nunca seque, da mulher que nunca te abandone, do amigo que nunca traia a amizade, não sei. Mas alguma coisa em mim entende perfeitamente tua poesia. Quiçá seja os ecos de nossas conversas na velha Sunab, pois lembro termos falado sobre alguns sentimentos revelados na poesia.
A vida por aqui é uma descoberta diária. A Espanha de hoje na lembra Cervantes, mas brilha nas páginas de um Antonio Muñoz Molina. Entretanto, carrego o Brasil na alma. As lembranças de Teresina, do Piauí, nosso pobre Estado sem nenhuma sorte, do nosso país, me comovem. As comparações com o velho mundo são inevitáveis. Por que esta eterna incompetência para construir um grande país? Por que tanta corrupção, miséria, fome, indiferença e egoísmo?
Por que tanta falta de humildade, tanta falta de respeito pelo ser humano, tanta falta de vergonha na cara? Será este o legado que deixaremos aos nossos netos? Será este o Brasil que queremos para nós mesmos? Se todos cumprissem seu dever, se todos participassem com sua pequenina quota (não é necessário muito), tudo seria tão diferente.
A Universidade de Valencia, onde estudo, semana passada completou quinhentos anos. Isto mesmo, quinhentos anos de existência como universidade. E não é a mais antiga da Espanha, pois Salamanca é do século XIII.
Aproveitando a semana de festividades pelo aniversário da universidade, viajei à Portugal, cruzei o Algarves e o Alentejo de carro e fui até Lisboa. Você não imagina o quanto Portugal é pobre e bonito.
As palavras acabam e fica o convite para você cruzar o Atlântico e conhecer um pouco desta parte do mundo, onde com certeza encontrará uma casa acolhedora, um copo de vinho e um amigo que sempre gostou de conversar com você, pois sempre aprendeu muito com as sua lições.
Saudações à sua família e aos nossos amigos.
PS: Agora entendo porque o Oswald descobriu o Brasil desde Paris. É porque daqui se pensa demasiado em casa.
* Escrito na cidade de Valencia, Espanha, na primavera de 1999.

“Não podemos ampliar
a União Européia eternamente
sem reformar as instituições".
Jose Manuel Durão Barroso,
Presidente da Comissão Européia,em setembro de 2007.

Estou convicto hoje de que sem o Lula nós
teríamos conflitos sociais muitos violentos no Brasil. Ele nasceu na sociedade mais pobre,
tem empatia e raiz social profunda. Está ocurando afastar as grandes diferenças
sociais e, assim, consolidando a democracia.Cláudio Lembo,
Governador de São Paulo, PFL,
na Folha de São Paulo, de 31/12/2006,
p. A11.“Quando a gente fala de improviso, a gente pode cometer um erro e falar uma palavra imprevista. Mas, em se tratando de bobagem, é melhor a gente falar do que a gente fazer”. Lula


Alguém afirmou que está na hora de buscar outro rumo e, imediatamente, eu concordei.
Um ano e vários meses na corte da República e meu coração já grita por novos desafios e minhas amarras já rangem, ainda atracadas ao cais.
O veleiro da minha vida sacode de popa a proa e já sente o vento sudoeste inflar suas velas brancas encardidas e firmes.
Se não é pra mim, tchau, vou buscar o que será. Se não está comigo, adeus, passe bem, obrigado.
O tempo ainda está do meu lado, como todos os poetas que li.
É hora de partir, é hora de partir e meu coração sorri, numa alegria suave e triste de navegante sem pátria e sem bandeira.
* Escrito na cidade de Brasília, em 4 de maio de 2006.

Tzvetan Todorovem "Deberes & Delicias
- Una vida entre fronteras",2003.