segunda-feira, abril 18, 2005

Que diabos será a vida?



Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drumond de Andrade,
em “Poema de sete faces”.

Rapazes, não confundam a calma
destas linhas preparatórias
com a melancolia comum.
Não tem melancolia aqui.
Sou feliz. Estou convencido que
cumpro o destino que deviam ter
meu corpo em sua transformação,
minha alma em sua finalidade.
E passo bem, muito obrigado.

Mário de Andrade,
em Advertência,
no livro “O losango Cáqui”, 1922.


Como toda segunda-feira, saltei da cama feliz da vida de não acordar e dá de cara com outro domingo. Não que eu tenha algo pessoal contra o domingo, longe disso. Eu acredito firmemente que é ele, o domingo, que não vai muito com minha cara. Saí correndo a comprar um envelope para mandar um presentinho para uma amiga que completa mais uma primavera nesta quinta e não vive mais nesta cidade. Peguei uma pequena fila para pagar a conta de telefone e estava indo pro supermercado mais perto de casa quando vi a aglomeração e o carro da policia.

O normal, como nos ensinaram nossas mães, é passar sem sequer olhar pro quê está acontecendo, mas como ninguém segue mesmo a risca o que diz a mamãe, parei. Havia um papel alumínio cobrindo um banco do passeio da avenida e pelo volume, era claro que havia um corpo ali.

Não foi necessário perguntar a ninguém o que ocorria, porque os seis senhores com pinta de aposentados da calçada já comentavam tudo. Alguém morreu no banco do passeio enquanto tomava o sol da manhã. Havia dúvidas sobre a identidade do falecido, mas todos eram unânimes em afirmar que era um senhor de idade, que sempre ocupava aquele banco do passeio pela manhã.

As caras deles comentando o ocorrido, me fizeram pensar no que estariam pensando no fundo de suas almas, muito embora o que saía de suas bocas era muito diferente. E os olhares, tão amedrontados que fariam uma criança chorar. Sem querer, formavam um grupo de velhos aposentados na calçada a olhar um corpo, rodeado de policiais fardados que esperavam o carro fúnebre.

Bem, a verdade é que continuei meu caminho e entrei no supermercado. Mas meu pensamento foi atingido pela idéia da debilidade da existência, essa coisa que não podemos explicar e que somente em situações como essa, nos obriga a ver que a vida é ... nada. Algo tão frágil, tão sem sentido, tão absurdo, e nós criamos tantas ilusões e sonhos, tantas ambições ridículas que chega a dar pena.

A luta pela existência, a dor de viver que habita cada homem sobre a face da terra, o amor perdido, a espera por aumento de salário, tudo parece tão absurdamente ridículo em comparação com um corpo tombado num banco de praça, rodeado de gente estranha e funcionários insensíveis à rotina de seus deveres. E, ao mesmo tempo, a vida é uma seqüência de fatos alegres e tristes que se entrelaçam no caminho de qualquer um, tanto fazendo se você mantém as rédeas da sua vida ou se já desistiu há muito tempo e apenas se deixa levar pelos acontecimentos.

A religião, a filosofia, os livros de autoajuda, nada consegue dar uma resposta a esta pergunta que às vezes aflige a mente humana depois de haver conseguido pagar as contas do mês. E ali estavam os velhos aposentados, boquiabertos com suas bengalas e gorritos, protegidos do vento primaveril que apesar de fraquinho, corta a cara e avermelha as orelhas.

A vida é o supremo mistério da ciência, com o sem o mapa do genoma humano. De que vale clonar um ser humano se não sabemos o porquê de sua existência? A ciência, assim como as ideologias, são feitas por pessoas que, por maior boa vontade que tenham, estão mais preocupadas com pequenas coisas que na verdade, pouco valem.

Os velhos continuavam ali, e imagino seus medos, o difícil que será tomar o sol amanhã no mesmo passeio, sabendo que naquele banco sentando tantas vezes, estava tombado um senhor que como eles, poderia ter feito as mesmas coisas de sempre. Os jogadores de damas da esquina até suspenderam o jogo e olhavam em silêncio os carros da policia chegando. Mas ninguém se aproximava, ninguém se arriscava a falar com o oficial que buscava informações sobre o morto.

Saio do supermercado e passo por eles, cruzo a avenida em silêncio e chego em casa me lembrando das quarenta folhas que devo apresentar ao meu orientador nesta semana, pois ao final, devo produzir e terminar a bendita tese. Mas, Deus saberá, como esta cena ficará gravada em minha memória, com todo o mistério que existe.

* Escrito na cidade de Valencia, Espanha, em 11 de março de 2001.

sexta-feira, abril 01, 2005

O fenômeno Da Vinci

Talvez a imensa quantidade
de tentadoras pistas
deixadas por Da Vinci
não passasse de uma promessa vazia
para frustrar os curiosos
e fazer surgir um sorriso malicioso
no rosto de sua astuta Mona Lisa.

Dan Brown,
em “O Código Da Vinci”


A nota causou espanto geral. A meados de março, o Cardeal Tarcisio Bertone - arcebispo de Gênova e assistente do cardeal Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição) - portanto uma alta autoridade eclesiástica, pede aos católicos que “não comprem nem leiam 'O Código Da Vinci'”, livro que denominou de “castelo de mentiras”. Antes dele, um bispo chileno, membro do Opus Dei, já havia dito o mesmo. Ainda bem que o Papa Paulo VI já extinguiu o Índice de Livros Proibidos pelo Vaticano, caso contrário, a obra do estadunidense Dan Brown estaria incluída. Mas afinal, de que trata o livro que já vendeu mais de vinte milhões de cópias em todo o mundo, para despertar a fúria da Igreja católica? Por que iniciar uma cruzada contra uma obra de ficção, um verdadeiro Harry Portter para adultos ?


“O Código Da Vinci” (2003), um romance policial de ficção, trata de uma hipotética descendência de Jesus Cristo com Maria Madalena, que resultaria na dinastia merovíngia, antigos reis da França. As provas desta união estariam nas obras de Leonardo Da Vinci (1452-1519), o gênio italiano do Renascimento. Ainda de acordo com o livro e obviamente sem qualquer comprovação histórica, a descendência de Jesus e Madalena seria o maior segredo da Igreja Católica, que ainda atribui ao Opus Dei o papel de vilão da trama. Até aqui nada de novo, pois o livro de Dan Brown está baseado num best seller dos anos oitenta denominado “O enigma sagrado” (1983), que levantou a tese de que o Santo Graal era literalmente o sangue de Cristo, ou seja, sua descendência com Maria Madalena. Seus autores, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, estão inclusive processando Dan Brown por plágio.


Dan Brown era um professor de inglês antes de escrever ficção. Filho de um matemático e de uma compositora de música sacra, ele já publicou 'Digital Fortress', 'Anjos e Demônios' (1999), 'Deception Point' (2000) e 'O código Da Vinci' (2003), que na semana de lançamento conquistou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos nos EUA do “The New York Times”. Casado com uma especialista em História da Arte, que lhe ajuda em suas pesquisas, Dan Brown rodeado por uma aura de mistério – pois se recusa a dar entrevistas fora dos EUA e mantém a grande imprensa informada simplesmente através de sua página na Internet (www.danbrown.com), no momento escreve seu próximo romance, uma trama sobre lojas maçônicas que revelará a história oculta dos EUA.


O fenômeno Dan Brown, segundo as editoras, constitui numa “mescla de intriga, mistério e história”, e ao que tudo indica possui como antecessor “O nome da rosa”, best seller de Umberto Eco publicado em 1981 e levado ao cinema. A obra do professor Eco inaugurou a era dos “best seller com densidade cultural”, que sua leitura dava ao leitor uma aura de cultura e modernidade. De qualquer forma, o sucesso de “O Código da Vinci”, fez com que aparecessem outras obras no filão editorial aberto, como “O Enigma dos Quatros” de Ian Caldwell e Dustin Thomason, “O Clube Dante” de Matthew Pearl, “A Savana santa” da espanhola Julia Navarro e “O enigma Vivaldi”, do californiano Peter Harris.


Além da aura de cultura que envolve a leitura de “O Código Da Vinci”, seu tremendo sucesso não seria possível sem a Internet. A jogada de marketing que acompanhou o lançamento do livro foi a criação de um jogo “on line” que somente pode ser solucionado após a leitura do livro. Outra estratégia de marketing levada a cabo pela editora de Dan Brown foi distribuir o livro entre os trabalhadores da editora, um ano antes do lançamento oficial do mesmo. Atualmente, as editoras estão investindo na incipiente estratégia do “bookcrossing”, que consiste em deixar alguns exemplares em locais públicos para que sejam lidos por quem os encontre, e daí façam a promoção da obra. Essa foi a estratégia de marketing usada na Espanha para promover “O enigma Vivaldi”, de Peter Harris, onde foram escondidos cem exemplares da obra por todo o país.


Com relação ao Opus Dei, grupo fundamentalista católico que apoiou a ditadura franquista na Espanha e que aparece no livro no papel de vilão, atualmente labora por mostrar-se algo distinto do romance. Na tentativa de mudar essa imagem, a conservadora instituição ofereceu seus arquivos internos ao mais prestigiado vaticanista do momento, o católico progressista e estadunidense John Allen, correspondente do National Catholic Reporter, que publicará um livro sobra o Opus ainda este ano.


Antes do pronunciamento do Cardeal Bertone, a Igreja Católica nunca havia se manifestado em documentos oficiais sobre a disparatada tese do livro, que permitiu ao autor tecer uma trama que envolve contexto histórico, ocultismo, conspiração e uma envolvente trama policial. O Cardeal Bertone, de 70 anos, cotado para sucessão do Papa João Paulo II e ex-catedrático de teologia Moral e Direito Canônico, é um personagem controvertido. Na Itália, é conhecida sua fixação por armas de fogo e esportes, chegando a ser um popular comentarista de futebol dos jogos do Gênova e do Sampdoria.


O jornal britânico "The Times" destacou, inclusive, o fato de que o livro continua entre os mais vendidos em países com grande população católica, como os EUA, França, Argentina e Brasil. Contudo, causa estranheza que o governo do Líbano, país do Oriente Médio onde convivem mulçumanos, cristãos e drusos - portanto sem maioria católica -, tenha proibido a venda de 'O Código Da Vinci', graças à queixa de líderes católicos locais, que entendem ser o livro ofensivo ao cristianismo. Igual às estórias de Harry Porter, “O Código Da Vinci” - com as aventuras do protagonista Robert Lagdon, um especialista em simbologia que ganha a vida dando aulas de iconologia religiosa na Universidade de Harvard - possui o mérito de iniciar milhares de pessoas no prazer da leitura. Só por isso já deve ser louvado, pois vivemos numa época em que o livro cada vez mais perde espaço para os meios eletrônicos de diversão.


Nos EUA, “O Código Da Vinci” apenas foi superado, no primeiro posto em vendas, pelo "The 9/11 Commission Report", que nas suas 567 páginas apresenta, por dez dólares, o resultado da comissão de investigação sobre os atentados de 11 de setembro de 2001. Enfim, a ficção nem sempre supera a difícil realidade.

quarta-feira, março 23, 2005

O Mago e o mundo


Despúes reflexione
que todas las cosas
le suceden a uno precisamente,
precisamente ahora.
Siglos de siglos
y sólo en el presente
ocurren los hechos;

Jorge Luis Borges,
em "El jardín de senderos que se bifurcan",
publicado em Ficciones, 1944.



Paulo Coelho conquistou o mundo. E conquistou por fim o Brasil, ao que parece. Quase todas as revistas semanais estamparam a foto do mago em suas capas esta semana, numa fantástica manobra de marketing para anunciar o lançamento do seu novo livro, O Zahir, primeira obra em língua portuguesa lançada mundialmente, que terá 8 milhões de cópias distribuídas por 83 países. Se os portugueses têm a Saramago e seu Nobel, nós temos a Paulo Coelho e a consagração mundial. Juntos, são dois escritores da língua de Camões pelo mundo globalizado, quer queiram ou não.


Paulo Coelho já vendeu 65 milhões de livros pelo mundo. Destes, 8 milhões só no Brasil. Teve sua obra lançada em 150 países e traduzido em 56 idiomas. Somente O Alquimista, lançado em 1988, já vendeu 11 milhões de exemplares. Ultrapassou, há muito, o espaço de escritor e se transformou numa verdadeira celebridade internacional. Somente pra se ter uma idéia, antes dele, apenas Jorge Amado vendeu tanto e divulgou o Brasil pelo mundo. Jorge Amado vendeu mundialmente 40 milhões de livros, sendo 20 milhões apenas no Brasil. Sua obra foi lançada em 55 países e traduzido em 49 idiomas.


Paulo Coelho sempre foi esnobado pela crítica literária brasileira, que criou uma polêmica ridícula sobre se sua obra é ficção ou auto-ajuda. Nem mesmo sua eleição para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras - ABL em julho de 2002 ajudou-o a ser respeitado como um verdadeiro literato. Sua resposta aos críticos sempre foi o silêncio. Com uma elegância admirável, Paulo Coelho jamais ofendeu a qualquer um dos seus críticos, ou melhor, seus agressores. Agora, depois de anos de silêncio como resposta, afirmou que a crítica detesta o sucesso. Acredito que o desprezo da crítica especializada com a obra de Paulo Coelho é fruto do esoterismo que o rodeava e os poderes de “mago” atribuídos ao escritor. Nada tem a ver com sua literatura, pois a maioria - dos seus detratadores – afirma tão somente que não leu e não gostou. De qualquer forma, mesmo desdenhado pela crítica, Paulo Coelho continua sendo um dos autores mais lidos no mundo, continua a ser um tremendo sucesso.


Em seus livros, Paulo Coelho utiliza frases de outros escritores, filósofos e profetas. A famosa afirmação lida no Alquimista de que “todo o universo está contido num grão de areia”, é uma citação atribuída ao poeta britânico William Blake. Mas tal acusação de que o autor utiliza pensamentos e frases de outros autores não simplifica a questão, e muito menos justifica a acusação de produzir uma literatura menor. Afinal de contas, o Quixote é uma sátira às novelas de cavalarias, e nem por isso Miguel de Cervantes Saavedra é desprezado pela crítica. O próprio Jose Luis Borges utilizou vários autores e estórias na construção de sua obra, uma das maiores da literatura universal. Na atualidade, Dan Brown baseou-se em diversas idéias e estórias de outros autores, lendas e textos apócrifos para escrever seu O Código Da Vinci, best seller mundial que já vendeu dez milhões de exemplares.


Pessoalmente, lembro que por volta de 1985, minha mãe chegou em casa com um calendário da Seicho-No-Ie, onde li uma frase que muito me marcou naquela época, que mais ou menos afirmava o apoio conspirador do universo aos nossos desejos. Anos depois, reencontrei a frase lida na infância, desta vez num artigo de revista sobre O Alquimista, lançado em 1988, onde estava escrito: “Quando você quer uma coisa, o universo inteiro conspira a seu favor”. Ademais, no capítulo um do seu novo livro, Paulo Coelho escreve na página 30 que “Alguém quando parte é porque outro alguém vai chegar-”, que me fez lembrar imediatamente de uma música da Rita Lee, dos anos 70, creio que se chama “Pra que sofrer”, onde se ouve a mesmíssima frase contida no novo livro. Tudo isso não significa demérito para Paulo Coelho, pois estes dois exemplos são limitados pelos meus conhecimentos e minha idade, de maneira que outra pessoa com maior horizonte cultural e etário pode muito bem afirmar que as frases acima foram citadas originalmente em outras obras. De maneira que o conhecimento e as idéias atravessam o tempo e cruzam o planeta, principalmente quando são simples e verdadeiras.


Enfim, ao escritor compete a tarefa de reescrever a realidade e, porque não, a lenda. Sua liberdade criativa não deve explicações a ninguém, nem mesmo àqueles que lhes explicam nas faculdades de letras. Somos o produto de tudo que lemos, ouvimos e vivemos. Todas as idéias e estórias circulam a espera de que um contador de estórias as entenda e as transmita. Paulo Coelho, com seus livros, nos ensina a sermos simples e acreditar nos nossos sonhos. Romances são apenas estórias. A diferença, que resulta no sucesso mundial, está na maneira de contá-las. O resto é magia, coisa de mago.

sexta-feira, março 11, 2005

Enquanto o tempo passa





Vem, meu amor,
é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem eu sou
Eu tenho um segredo e uma oração.

"Soul Parsifal"
Renato Russo e Marisa Monte



É incrível como continuo gostando de canções de mais de dez anos atrás. E o mais incrível ainda é que eu continuo lembrando das mesmas situações e pessoas de mais de dez anos atrás. Não é saudosismo não, é apenas comprovar que o que eu pensava há dez anos atrás sobre um monte de coisas, eu continuo pensando o mesmo, depois de todos esses anos. Ainda acredito no amor verdadeiro, na paixão, no fogo que arde na cama entre duas pessoas que se querem. Ainda acredito em grandes beijos de amor, nas lágrimas das despedidas em aeroportos vazios e em recomeços esperançosos depois de anos de saudades escondidas. Enfim, ainda acredito em amizade sincera, no poder do abraço mudo e em melosas canções de amor.

Talvez seja porque eu já tenha vivido em tantas cidades, que muitas vezes simplesmente não sei onde estou na maioria dos meus sonhos. Confesso que já estive em lugares que não sei onde ficam. Principalmente quando tento recordar do distante ano de 1983, quando briguei com o meu pai pela guitarra elétrica que me tornaria um astro do rock nacional e decidi apenas ser mais um escritor da minha geração, mesmo sozinho com meu coração no meio do sertão. Completamente perdido entre Teresina, Manchester, Liverpool e as provas bimestrais. Dando aulas de violão, pro meu melhor amigo, pra pagar os meus discos ou tentando conseguir clorofórmio pra fazer loló, eu vivi todas as dúvidas da adolescência. Até parece que foi ontem o Setembro Rock, a Feirinha e o Cine Royal. A mamãe me ajudando a roubar o carro do meu pai nas noites de domingo são lembranças difíceis de esquecer.

Mas a verdade é que estas lembranças já passaram há tanto tempo que são apenas lembranças. Enquanto o tempo passa, as lembranças começam a desaparecer. É sempre muito complicado admitir que o tempo passa, numa velocidade que você nunca pode imaginar quando se tem dezesseis anos, e todas as tuas preocupações se resumem a conseguir uma cena romântica com uma menina que nem sabe que você existiu. Enfim, é bom comprovar que ainda gosto dessas velhas canções de mais de dez anos, remasterizadas e cheias de boas lembranças bobas. Mas, o melhor de tudo é saber que ainda acredito em tudo aquilo que embalou minhas madrugadas insones cheias de desejos eróticos e medo de receber boletins do colégio dos padres. Difícil é encontrar alguém pra conversar e dividir todas estas lembranças empoeiradas, principalmente agora que estou com trinta e cinco e que no próximo julho completo trinta e seis. Talvez seja somente mais uma noite de insônia que me faz parecer tão nostálgico e sentimental, talvez seja apenas essa música antiga e a falta que me faz minha mulher que dorme no quarto ao lado.

Mas a verdade é que olho pro presente e vejo todos os desafios que me propus, todas as batalhas que preparei durante anos a fio e sinto o aço da espada imperial que combateu na Guerra do Paraguai do meu bisavô nas minhas mãos, ainda pronta pro combate. Meus inimigos já estão em seus postos de guerra, fortes e cheios de empáfia, enquanto um tênue sorriso confiante se desfia entre meus lábios eu olho pro campo aberto, verde, da honra e da glória. Minha sorte está selada. A vitória é uma doce mulher com as mãos repletas de ouro e o coração cheio de paz. De repente se abre o amanhecer e, calmamente, caminho pro meu destino. Serão as próximas manhãs de glória e sentimentos alegres? Só o tempo poderá dizer, só o tempo poderá dizer
.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Faroeste cabolclo



Hoje, grande parte da elite amazônica
é subproduto do crime organizado.
Há um vasto esquema de poder.
Os grupos que se baseiam em
grilagem de terras e exploração clandestina
de recursos naturais têm um poder
muito maior que o do próprio estado.
Por isso, a violência vem dessa forma chocante.
A estrutura de criminalidade faz
da Amazônia uma imensa Sicília verde.

Lucio Flávio Pinto
Jornalista e sociólogo,
em entrevista ao JB, 21-02-2005



Em 2001, quando da minha primeira visita à floresta Amazônica, uma frase dita por um amigo - que residia em Manaus desde muito – nunca esqueci: - Aqui na Amazônia, estamos longe do Brasil. Por isso, tudo aqui é feito do nosso jeito mesmo, não esperamos nada de Brasília não. A frase demonstrava o abandono da região amazônica pelo Estado brasileiro, incapaz de levar a tênue e débil civilização brasileira aquelas lonjuras verdes.

O assassinato da missionária estadunidense de 74 anos Dorothy Stang, naturalizada brasileira, ocorrido na manhã do dia 12 de fevereiro último, no assentamento Esperança, em Anapu, a 600 quilômetros de Belém, Pará, me fez novamente pensar naquela frase ouvida em 2001. Até quando o Estado brasileiro vai abandonar a sua própria sorte a Amazônia? Que compromissos civilizadores possuem os Estados-membros amazônicos da federação brasileira? Qual o grau de responsabilidade da nação brasileira na série de crimes ocorridos nos últimos anos pela disputa da terra naquela região?

De acordo com a Ouvidoria Agrária Nacional e a Comissão Pastoral da Terra – CPT, o Estado do Pará possui os maiores índices de violência no campo de todo o país, além do maior número de mortes por disputas de terras. A maioria destas mortes em conflitos sobre a posse de terras devolutas usadas pelo governo federal para reforma agrária. A violência no campo brasileiro é enorme, e o Estado do Pará é, sem sombra de dúvida, o campeão: entre 1985 e 2004, se contabilizou 1.357 assassinatos sem que o mandante fosse preso, sendo 509 somente no Pará. Ademais do sul do estado do Pará, as regiões brasileiras de maior potencial de conflito agrário são o Pontal do Paranapanema, no Oeste de São Paulo, a Zona da Mata, em Pernambuco, áreas da Bahia, como a da região de Porto Seguro, além dos focos no Mato Grosso do Sul (região de Dourados) e no Rio Grande do Sul (região de Cruz Alta).

Irmã Dorothy, que pertencia à ordem as Irmãs de Notre Dame de Namur, trabalhou durante 30 anos na região Amazônica, sempre em defesa dos trabalhadores rurais, na sua luta por um pedaço de terra pra assentar a família e viver em paz. Os grileiros e os madeireiros ilegais eram seus grandes inimigos. Tal qual as favelas nas grandes capitais brasileiras, em muitas paragens imensas da Amazônia vigoram a lei do mais forte, a lei da barbárie, por total e completa ausência do Estado brasileiro. O assentamento Esperança, em Anapu, no Oeste do Pará, local do assassinato de Irmã Dorothy, teve o maior crescimento populacional do país, segundo o deputado federal Fernando Gabeira, do Partido Verde (RJ), sem o necessário crescimento da atuação estatal na região.

Tanto a Associação das Indústrias Madeireiras quanto a Associação dos Juizes Federais condenou o assassinato da missionária. A primeira culpou a morte da Irmã Dorothy à “falta de regularização fundiária”. A OAB, através do Presidente Roberto Busato, cobrou uma solução do governo federal para a guerra civil que atualmente existe no Estado do Pará. A imprensa internacional, mais uma vez, não deixou por menos, e a notícia mereceu uma página inteira do New York Times e o jornal inglês The Independent afirmou que o assassinato destaca o fracasso do governo em combater os desmatamentos ilegais.

A reação do governo federal ao caos agrário na região Amazônica denomina-se “Pacote Verde”, e conforme foi divulgado constará de: a) Medida Provisória criando mecanismo de limitação administrativa para exploração de madeira em áreas passíveis de se tornarem unidades de conservação; b) Decreto determinando proibição da exploração de madeira em áreas públicas à margem esquerda da rodovia BR-163 no Estado do Pará, além de suspender a concessão de novas autorizações de exploração de madeira; c) Instalação de Gabinete de Gestão Integrada (GGI) em caráter provisório no Estado do Pará, com sede em Belém ou em Altamira, para dar suporte às ações dos agentes do Ibama, Incra e da Polícia Federal; d) Criação de cinco unidades de conservação: 1- Estação Ecológica da Terra do Meio (PA) – com 3,4 milhões de hectares, 2- Floresta Nacional Serra do Padre (PA) – com 445 mil hectares, 3- Reserva extrativista do Riozinho da Liberdade (AC/AM) – com 325 mil hectares, 4- Floresta Nacional de Balata-Tufari (AM) – com 802 mil hectares, e 5 - Floresta Nacional de Anauá (RR) – com 259 mil hectares; e) Projeto de lei para tratar da gestão de florestas públicas, criando o Serviço Florestal Brasileiro, órgão para administrar o setor, e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, para financiar ações de preservação e exploração sustentada de florestas.

Segundo noticiou a imprensa, algumas pessoas na cidade de Anapu, ao tomarem conhecimento da morte da irmã Dorothy, soltaram fogos de artifício em comemoração. Uma terra onde se comemora o assassinato de uma freira realmente não pode ser um local civilizado. Portanto, falta a presença civilizadora do Estado na região Amazônica, em substituição a grileiros e jagunços de madeireiros ilegais. Que o Brasil imponha o império da lei, de uma vez por todas, neste verdadeiro faroeste caboclo.

domingo, fevereiro 13, 2005

O Poder respeita o poder









O Reino Unido não tem força
pra levar os EUA.
Mas Europa tem muita força.
Washington terá que escutar
mais a 450 milhões de europeus
que a 60 milhões de britânicos.
O poder respeita o poder.
Desde o ponto de vista econômico,
a União Européia é uma superpotência.
E o poder respeita ao poder.

Timothy Garton Ash,
no artigo “No mas Jeeves”,
El País, 03-10-2004.


O Brasil não deve jamais afrontar aos EUA. Ao contrário, o Brasil deve aliar-se aos EUA para reafirmar nossa liderança na América do Sul. Esse pensamento não é neoliberal, ao contrário, é um pensamento defendido pela esquerda européia, como política exterior no seio da União Européia. Se eles, os europeus, que possuem sociedades mais igualitárias e ricas defendem esta tese, o mais inteligente para um país em desenvolvimento, com uma dívida social e externa tremenda, é seguir e aplicar essa idéia de política exterior.

E não seria uma inovação em matéria de política exterior brasileira, visto que a seguimos desde o tempo em que fazíamos parte do Império Português - e a Inglaterra era a superpotência hegemônica do momento-, com proveitos incontáveis para o nosso desenvolvimento enquanto potência regional.

Aliás, essa é a política adotada atualmente pela Inglaterra, apesar de que de forma exagerada, conforme admite muitos politólogos ingleses. E pior, pois dá a nítida impressão de que o Reino Unido é apenas uma colônia americana, dado o grau de submissão à Casa Branca. As origens desta submissão britânica aos EUA remontam-se na necessidade de Churchill conseguir apoio americano durante a II Guerra Mundial, no momento posterior à queda da França, quando os britânicos se encontravam em perfeita solidão.

Entretanto, existe o problema do unilateralismo do governo Bush, do qual Alemanha, França e, agora, a Espanha tentam saltar o passo, mesmo desejando a necessária aliança com os EUA. O exemplo espanhol é claro: ao retirar as tropas espanholas do Iraque, o senhor Zapatero – Primeiro Ministro espanhol e socialista - reforça a participação militar do seu país no Afeganistão. Em claro apoio às tropas americanas estacionadas naquele país.

Uma política exterior inteligente, para um país como o Brasil, passa necessariamente por uma aliança com os EUA. Acontece que essa aliança não há de ser entendida como total e incondicional apoio à política exterior do senhor Bush. O poder somente respeita o poder, e isso é uma verdade tão grande como um gol de bicicleta de Pelé numa final de Copa do Mundo contra a Argentina. Ninguém pode negar.

Por fim, cabe lembrar a lição do historiador inglês Timothy Garton Ash, que contou que uma vez perguntado sobre o papel do Reino Unido com relação aos EUA, Harold MacMillan, Ex-Premier britânico, respondeu que deveria ser o mesmo papel dos gregos com relação ao Império romano. Somente esqueceu, que esse papel costumava ser o papel de escravo. O Presidente Reagan tinha como aliado na Europa a Margaret Thatcher, Primeira Ministra britânica, mas isso não o impediu de invadir a ilha de Granada – que faz parte da Commonwealth - sem jamais consultá-la.

Portanto, necessitamos da aliança com os EUA para desenvolver plenamente nossa hegemonia no subcontinente americano, bem como para conseguir um assento definitivo no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Entretanto, não podemos seguir incondicionalmente a política exterior da Casa Branca. Devemos ser aliados preferenciais dos EUA em nossa região, sem perder a independência de buscar soluções nacionais para desenvolver nossa política exterior. Aliados e independentes poderemos até vir a ter poder internacional, pois o poder somente respeita o poder.

sábado, fevereiro 12, 2005

Discurso anual do Império





Na velha Roma imperial, os Césares faziam discursos no Senado não para prestar contas, mas para exaltar suas figuras e demonstrar ao mundo o poder e glória de Roma. No dia dois de fevereiro passado o Presidente Bush discursou sobre o Estado da União estadunidense, uma tradição da política americana, na qual o Presidente não só presta contas da sua administração, mas também indica os elementos de destaque e suas prioridades para o ano que se inicia.

O Presidente Bush, no seu discurso, igual aos Imperadores romanos do passado, não tratou meramente de temas internos, mas sim dos temas importantes para o Império. O Império americano. Quase como uma extensão do seu discurso de posse de janeiro, o senhor Bush lançou mais incertezas e ameaças que palavras tranqüilizadoras aos povos do mundo, ainda que a notícia positiva seja a pretensão americana de liberar 350 milhões de dólares para a Autoridade Palestina, a título de ajuda internacional na reconstrução das instituições palestinas. Com relação ao Iraque, os ianques vão permanecer naquele país por mais tempo do que imaginavam. Existe a possibilidade real de que se instaure uma guerra civil e o caos total, caso as tropas internacionais comandadas pelos EUA se retirem neste momento do território iraquiano.

Com as acusações, à Síria e ao Irã, de colaboração com o terrorismo internacional, os EUA indicaram quais serão os próximos alvos da diplomacia militar estadunidense. Os sírios se apressaram em informar que apenas prestam apoio político aos grupos palestinos Hamas, Jihad Islâmica e Hisbolá. Em nome da República Islâmica do Irã, o aitolá Ali Khamenei alertou os EUA de que quatro ex-Presidentes daquele país já haviam fracassado na tentativa de derrubar a revolução islâmica iraniana. No tocante à Coréia do Norte, anteriormente denominada de vértice do “Eixo do Mal”, apenas o “blábláblá” de sempre. Pode ser que a boa vontade americana para com o país seja fruto da capacidade nuclear do regime coreano. Talvez o objetivo da próxima cruzada do senhor Bush seja realmente o Oriente Médio – detentor de 60% das reservas de energia do mundo – e não o Extremo Oriente.

De maneira que o destaque internacional ficou, como sempre, para o Oriente Médio, sendo a América Latina – mais uma vez – ignorada. Pelo menos não nos invadem com a desculpa de apear algum ridículo ditador do poder ou de combater o terrorismo islâmico. Nunca foi tão útil ser católico nessas terras hispanas.

O Império romano – que durou oito séculos – foi tolerante em matéria religiosa e tinha como justificativa moral levar a civilização aos povos bárbaros. O Império britânico – em seus trezentos anos de duração - também o foi, ainda que incentivasse a catequese cristã, e se justificava na missão de espalhar a civilização e a ciência aos povos ditos “atrasados”. O Império soviético – que durou quase setenta anos - era totalmente repressor em matéria religiosa e sua missão era promover a revolução socialista. O segundo mandato do senhor Bush trouxe à tona o lado mais provinciano e intolerante dos EUA, o país mais rico e invejado do mundo. Tão condenável quanto o fundamentalismo islâmico, o fundamentalismo religioso da extrema direita estadunidense é contrário a todo progresso cientifico, chegando a negar até mesmo a Teoria da Evolução, de Charles Darwin. Ao mesclar política e religião, o senhor Bush negou os valores do Iluminismo que nortearam a fundação dos EUA e fizeram deste país a pátria da liberdade.

sábado, janeiro 29, 2005

60 anos de Auschwitz



Tudo que o Mal precisa para triunfar
é que os bons homens nada façam.
Kofi Annan,
Secretário-Geral da ONU

O contrário do amor não é o ódio,
mas a indiferença.
O contrário da educação não é a ignorância,
mas a indiferença,
o contrário do belo não é o feio,
mas o indiferente,
o contrário da vida não é a morte,
mas a indiferença.
Elie Wiesel,
Prêmio Nobel da Paz de 1986,
sobrevivente dos campos de horror nazistas.



Genocídio no Aurélio significa “crime contra a humanidade, que consiste em, com o intuito de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racional ou religioso, cometer contra ele qualquer dos atos seguintes: matar membros seus; causar-lhes grave lesão à integridade física ou mental; submeter o grupo a condições de vida capazes de o destruir fisicamente, no todo ou em parte; adotar medidas que visem a evitar nascimentos no seio do grupo; realizar a transferência forçada de crianças dum grupo para outro.” Uma conceituação extensa, porém demasiado complexa.

Genocídio no mundo tem outro nome: Auschwitz. O maior campo de extermínio nazista durante a II Guerra Mundial, localizado na Polônia, onde foi exterminada cerca de 1,5 milhão de pessoas nas câmaras de gás - e também pela fome e pelas doenças - entre 1940 e 1945. A grande maioria destes mortos era judia – principalmente aqueles oriundos da Polônia, dentre outros grupos de prisioneiros do III Reich, tais como ciganos – foi assassinado quase um quarto da população cigana européia da época, estimada em um milhão de pessoas, eslavos – destacadamente os nacionais da Hungria – mais de quatrocentas mil, das extintas Checoslováquia e Iugoslávia, holandeses, belgas, prisioneiros de guerra soviéticos – estimados em 15 mil pessoas, deficientes físicos e mentais, dissidentes políticos, artistas e homossexuais.

No todo, seis milhões de judeus – sendo 1,5 milhão de crianças –encontraram a morte nos campos de concentração nazistas durante a II Grande Guerra, pelo simples fato de serem judeus, num plano de extermínio denominado “Solução Final” por seu criador, o ex-chanceler alemão Adolf Hitler. O próprio termo “genocídio” foi criado após o “Holocausto” - como se denomina o genocídio judeu, “Shoah” em hebraico. Portanto, quando o Império turco comete o primeiro genocídio da História moderna, matando quase 1,5 milhão de armênios no princípio do século XX, ainda não havia sido cunhada a expressão.

No dia 27 de janeiro de 1945, as tropas do exército soviético libertavam os cerca de sete mil prisioneiros sobreviventes do inferno de Auschwitz II – Birkenau. Semana passada se comemorou o 60º aniversário da libertação de Auschwitz, no que foi a primeira solenidade da Organização das Nações Unidas – ONU em prol das vitimas de genocídio, na sua sede em Nova York.

O Secretário-Geral Kofi Annan, reconheceu a vergonha do mundo em não conseguir evitar os genocídios do nosso tempo, ou seja, os do Camboja, Ruanda, Curdistão, Bósnia e Darfur – região no Oeste do Sudão, e resumiu o sentimento geral da humanidade sobre o genocídio ao afirmar que “tudo que o Mal precisa para triunfar é que os bons homens nada façam”. Também discursou o Prêmio Nobel da Paz de 1986, o escritor e ativista dos direitos humanos Elie Wiesel, sobrevivente dos campos de horror nazistas, que afirmou que a indiferença que alimentou o Holocausto – que assassinou um terço do povo judeu - é o elemento que até hoje em dia gangrena o mundo.

A solenidade na sede das Nações Unidas acaba de vez com a acusação de anti-semitismo da instituição, feita obviamente por Israel. Entretanto, o boicote por parte dos países árabes foi destaque na celebração, que contou apenas com a Jordânia, único país do Oriente Médio a ter representante discursando na solenidade.

O Primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, afirmou em Jerusalém que "a triste e terrível conclusão é que ninguém se importou que judeus estivessem sendo mortos. No momento deste terrível teste, amigos e benfeitores não levantaram um dedo. Esta é a lição do Holocausto para os judeus”. Entretanto, muitos foram aqueles que arriscaram a própria vida em defesa do povo judeu. Estes são reconhecidos como “os justos”, e dentre eles encontramos a figura do embaixador brasileiro Luiz Martins de Souza Dantas.

O Instituto Yad Vashem, de Jerusalém, para preservar a memória de todos aqueles que pereceram na Shoah, lançou uma campanha internacional de coleta de nomes das vitimas do Holocausto. Estes nomes, milhões deles, estarão escritos nas "Páginas de Testemunho", no novo museu do instituto, que será inaugurado em março.

Auschwitz deve ser recordado como um símbolo da maldade humana para que jamais volte a ocorrer, um sinal de até onde é possível chegar a política de discriminação racial de um estado moderno, um sinal de toda a dor que é capaz o ser humano submeter o seu semelhante quando o fanatismo domina a mente e os corações. O Holocausto deve servir de lição às novas gerações, como a maior lição de todas na história da humanidade. O nosso pior momento como espécie humana, nossa pior hora deste a criação. O momento da negação do outro, da intolerância absurda, da negação do supremo direito do semelhante existir como tal, pelo simples fato de não ser igual.

Na entrada do campo de Auschwitz – a fábrica da morte - estava escrito um lema que simboliza todo o humor negro da ideologia nazista, que separava os homens em raças superiores e inferiores, como se a maior criação de Deus fosse algo sem alma: “O trabalho os fará livres”. Quanto cinismo. Quanta indiferença.

terça-feira, janeiro 25, 2005

George Bush, segundo tempo


Liberdade. Esta foi a palavra mais ouvida no discurso de posse do Presidente dos EUA George Walker Bush, dia 20 de janeiro de 2005, no que será seu segundo mandato. A palavra liberdade ecoou quarenta e duas vezes nas escadarias do Capitólio, em Washington DC, nos equivalentes em inglês “freedom” e “liberty”.

O segundo mandato dos Presidentes dos EUA costuma carregar em si uma “maldição”, normalmente é um escândalo que enlameia a reputação do ocupante da Casa Branca. Bill Clinton sofreu o escândalo Mônica Lewinsky, Ronald Reagan padeceu com o caso Irã-contras da Nicarágua. Eisenhower teve no seu segundo mandato a escalada da guerra fria, além de ter que aceitar a renuncia de seu chefe de gabinete acusado de aceitar presentes de executivos. Woodrow Wilson sofreu um derrame e terminou seu segundo mandato inválido. Pior mesmo foi Abraham Lincoln, que foi assassinado cinco semanas após tomar posse no segundo mandato. O próprio George Washington teve que enviar tropas para sufocar uma revolta na Pensilvânia, depois que taxou o uísque. Desta maneira, é provável que a maldição do segundo mandato venha a assombrar a Bush, principalmente se não conseguir unir aos EUA, que seguem divididos ao meio, como comprovou os números da última eleição presidencial.

O 43º Presidente dos EUA venceu as eleições americanas de novembro de 2004 com 51% dos votos, ou seja, o senhor Bush obteve 59.017.382 votos contra 55.435.808 votos dados ao candidato democrata, o senador John Kerry, equivalente a 48% do escrutínio. Esta votação resultou em 274 votos no colégio eleitoral para o Presidente Bush, enquanto que o senador Kerry logrou apenas 252.

Os problemas que esperam pelo senhor Bush neste segundo mandato são vários, sendo o maior deles a estabilização da situação no Iraque. A segurança nacional continua a ser um tema de obsessão nos EUA, principalmente depois do 11 de setembro, sendo que no primeiro mandato houve a aprovação de leis que cerceiam as liberdades civis dos estadunidenses e a adoção de uma política exterior militarista, que aumentou o déficit do governo, e intervencionista, primando pelo principio do “ataque preventivo”. No campo das relações internacionais, os EUA necessitam recuperar o aliado europeu e partir para o multilateralismo, recuperando a credibilidade da ONU. Bush, neste mandato, nomeará a mais de nove juizes da Suprema Corte, que decidirão sobre temas polêmicos como aborto, pena de morte e direitos civis. Com relação à Constituição dos EUA, Bush prometeu na campanha a aprovação de uma emenda que encerraria, definitivamente, qualquer legalização dos matrimônios entre pessoas do mesmo sexo. Bush restringiu, em agosto de 2001, o uso e fundos públicos para a pesquisa com células tronco, fundamentais na busca da cura do Alzheimer e da diabetes. O sistema de saúde continuará sem atender as classes menos favorecidas dos EUA, apesar da promessa de campanha de baratear o preço dos remédios. Por fim, Bush continuará a negar-se a assinar o Protocolo de Kyoto, acordo internacional para a redução das emissões de gases contaminantes da atmosfera, como havia prometido o Presidente Bill Clinton, antes de deixar a Casa Branca.

Uma pesquisa realizada pela BBC em vinte e dois países de quatro continentes - e divulgada horas antes da posse - aponta para o fato de que seis pessoas de cada grupo de dez entrevistados consideram a reeleição do senhor Bush como algo negativo para a paz e a segurança mundial. Ademais, os entrevistados consideram “pior” a sociedade estadunidense depois da vitória do senhor Bush e 66% dos entrevistados desaprovam a presença militar no Iraque. Por fim, a imagem mais positiva do senhor Bush vamos encontrá-la na Ásia, e a mais negativa na América Latina e no Canadá. Por países, a pior imagem de Bush se encontra na Turquia, seguida da Argentina, Brasil, Alemanha e França. Convém relembrar a distinção existente entre o governo dos EUA e seus cidadãos, o que nos leva a crer na inexistência de antipatia aos estadunidenses, de um modo geral, neste sentimento para com o senhor Bush.

Costumam dizer que não se pode entender a política nos EUA sem entender a doutrina calvinista. Como afirmou Arthur Ituassu, em artigo recente, “fadado ao pecado, o Homem calvinista é vigiado de perto por uma divindade impiedosa e onipresente”. Caberá a nós, o resto do mundo, o papel de Homem calvinista? E quem nos vigiará de maneira onipresente e impiedosa?

No seu discurso de posse desta semana, o senhor Bush usou a palavra “liberdade” quarenta e duas vezes. Entretanto, a palavra “democracia” somente foi escutada uma única vez. Nada mais.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Um planeta em movimento




Cinco dias depois da gigantesca
catástrofe na Ásia,
ladrões, falsificadores de
documentos de mortos,
assaltantes, e até estupradores,
aparecem em cena.
É por isso que eu digo:
sempre se pode contar
com o ser humano.

Millôr,
na Veja, de 12 de janeiro de 2005.

As notícias vindas do sul e sudeste da Ásia e da África chocaram a todos. Mais de 163 mil mortos, oficialmente. Os meios de comunicação de massa não pararam de nos mostrar mais terríveis fotografias, imagens capazes de ilustrar o inferno de Dante na “Divina Comédia”, dignas de revirar o estômago de qualquer um. Quando os homens se imaginam os senhores do planetinha azul, ele dá mostra de independência e nos lembra, através de catástrofes como a atual, que somos apenas uma pequena parte do planeta Terra, e nunca seus senhores.

Na célebre lição do chefe indígena Seattle, em 1854, ao então democrata Presidente dos EUA Franklin Pierce, em resposta a sua proposta de compra das terras tradicionais da tribo Duwaish, “Nós somos uma parte da Terra, e ela é uma parte nossa ... o que acontecer à Terra, acontece também aos filhos da Terra. Quando os homens cospem na Terra, estão cuspindo em si mesmos. Pois nós sabemos que a Terra não pertence aos homens, o homem é que pertence a terra. Isso sabemos bem. Tudo está unido, como o sangue que une a uma família. Tudo está unido”.

E a resposta mundial à tragédia pode comover ainda mais que a própria. Seguiram-se declarações de solidariedade e de apoio na reconstrução dos países atingidos. Ademais de movimentos de Estados e de ONGs. A ONU tem cobrado a efetividade das promessas de ajuda feitas no momento inicial da tragédia, e no local chegam médicos de todos os continentes, com remédios, comida, água potável e muita vontade de ajudar. A onda de solidariedade humana que seguiu o “tsunami” desperta sentimentos de compaixão tanto quanto o próprio desastre. Infelizmente, são nestas horas que podemos realmente ver a raça humana exatamente como ela de verdade é: um monte de pessoas separadas por nações, idiomas, cores e religiões, cheias de dúvidas e angústias comuns, compartindo um mesmo planeta.

O maremoto que causou tanta desgraça foi o fenômeno que conseguiu reunir, desde muito tempo, a todos nós, habitantes desta nave chamada Terra. Como afirmou Diogo Schelp, repórter da revista Veja: “O esforço para socorrer as vítimas de uma catástrofe natural é uma afirmação do melhor que existe no espírito humano, a motivação moral sem a contaminação da política. A devastação das ondas gigantes lembra à humanidade que estamos mais intimamente ligados por forças geológicas invisíveis e imprevisíveis do que por laços comerciais, culturais e políticos”.

Portanto, mesmo sendo capaz das piores barbaridades contra sua própria espécie, devemos celebrar o sucesso da ajuda as vitimas da tragédia natural, pois mais uma vez o ser humano provou que é capaz de se unir em prol de uma causa planetária comum.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

O ano do Quixote




Eis o primeiro ensinamento da Cavalaria:
tu irás apagar o que até então
tinhas escrito no caderno de tua vida:
inquietação, insegurança, mentira.
E irás escrever, no lugar disto tudo,
a palavra coragem.
Começando a jornada com esta
palavra, e seguindo com a fé em Deus,
chegarás aonde precisas.

Paulo Coelho,
no “Manual do Guerreiro da Luz”,
citando o “Breviário da Cavalaria Medieval”.


“En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...”, assim começa uma das maiores obras da literatura mundial, assim começa o relato das peripécias do engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha, obra espanhola escrita por Miguel de Cervantes Saavedra. Pois este ano de 2005 já foi declarado como o Ano do Quixote, tremendas as homenagens que se realizarão para comemorar os quatrocentos anos da publicação desta obra universal. Cervantes nasceu em 1547, nas proximidades de Madri, em Alcalá de Henares, e publicou a primeira parte de seu famoso livro em 1605.

Quatrocentos anos de vida e de sucesso, com milhares de edições em todas as línguas conhecidas do planeta, objeto das mais esclarecedoras e estapafúrdias teses acadêmicas, o Dom Quixote nos conta uma lição de vida fabulosa, pois conjuga o otimismo senil do combatente de moinhos de vento à dureza interiorana e sua realidade faminta de sobrevivência. Um idealista sonhador e outro realista incapaz de fantasiar.

Na verdade, a dupla de protagonistas é insubstituível desde o primeiro momento: o fidalgo e cavaleiro andante “numa Espanha de princípios do Século XVII que começava a esquecer o humanismo renascentista”, e seu fiel escudeiro, “rústico, glutão, de elementar sabedoria e enorme sentido comum, fruto de tantos séculos de luta pela simples sobrevivência”, como recentemente se leu no jornal espanhol El País.

Idealista e sonhador, Dom Quixote segue combatendo seus moinhos de vento. E quem não já procedeu assim, pelo menos uma vez na vida? Quem não perseguiu como um louco a objetivos que na verdade eram simples miragens? Como uma vez já afirmou Santiago Dantas, o verdadeiro louco é aquele que, sendo uma pessoa considerada sã, segue o combatente de moinhos de vento, o que inverte totalmente a ordem dos protagonistas e coloca a Sancho Pança no primeiro plano.

Entretanto, é a liberdade – além do amor e da justiça - o valor maior defendido por Cervantes na estória do cavaleiro da triste figura. E não podia ser diferente, pois a obra foi escrita depois de uma temporada de cinco anos de seu autor no presídio de Argel. Ademais, vale recordar que o amor pela liberdade é um dos grandes valores defendidos nas regras de Cavalaria, e por isso Dom Quixote afirma: "la libertad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que a los hombres dieron los cielos; con ella no pueden igualarse los tesoros que encierra la tierra ni el mar encubre; por la libertad, así como por la honra, se puede y debe aventurar la vida, y, por el contrario, el cautiverio es el mayor mal que puede venir a los hombres". Vale lembrar que Dom Quixote é o mais famoso cavaleiro ibérico, mas não o primeiro. Na literatura, o mais antigo foi Tirant lo Blanch, lendário cavaleiro da tradição espanhola.


Não me considero um Quixote, apesar de que muitas vezes combati a moinhos de vento, mas na minha agenda pessoal tenho a seguinte frase escrita na página relativa ao dia 26 de julho, do escritor Ramon Llull, no seu “Livro da Ordem da Cavalaria”, do século XIII: “Se queres nobreza de coração, busca na fé, esperança, caridade, justiça, fortaleza, lealdade e nas demais virtudes, pois nelas reside a nobreza de coração; e por elas o nobre coração do cavaleiro se defende da maldade e do engano e dos inimigos da Cavalaria”. Que todos nós sejamos nobres de coração, mesmo sem sermos Quixotes na vida.

terça-feira, dezembro 28, 2004

Amigos de hoje e de sempre



Para o Josélio,
amigo de todas as horas,
irmão de sempre.

Eu sempre fui um homem de muitos amigos. Sim, tive muita sorte na amizade. Tive amigos de todos os tipos, baixinhos, altos, gordos, magros, brancos, negros, amarelos, vermelhos, ricos, pobres, casados, solteiros, velhos, jovens, e bêbados, principalmente na adolescência. Creio que cada um deles estará se identificando ao ler esse texto. O digo que já tive porque atualmente descobri que a verdadeira amizade é algo raro, especial e muito, mas muito mesmo, difícil. Não que eu tenha sofrido grandes decepções, causadas pelos meus amigos, mas porque a verdadeira amizade amadurece com o passar do tempo e se purifica como um bom destilado.

Alguns conheci na infância, e para ser mais exato no jardim-de-infância. Mas tarde, reconquistaram-me na idade adulta, sem nunca perder a inocência de estar bem na minha companhia sem nada me cobrar. Sem nada exigir além do bom papo no cafezinho apressado do meio-dia. Outros, conheci na idade adulta, no meio das infindáveis obrigações sociais e pelos caminhos insondáveis da providência. São amigos novos com quem desfruto de alegre camaradagem e confiança, como se nos conhecêssemos desde sempre. São forças novas que me ajudam na difícil tarefa de viver. Sem saber nada deles eu não poderia continuar a ser o que eu sou.

Existem também amigos fundamentais, que me ajudaram em momentos de grande necessidade e solidão, em terras distantes, que se mostraram verdadeiramente amigos sem nada almejar. São anjos da guarda reais, verdadeiros espíritos de luz no meio da escuridão das dificuldades humanas.

Mas nada é pior que os velhos amigos, esses amigos de toda vida, que nos conhecem mais que nós mesmos e sabem de todo, mais todo mesmo, o nosso passado. Sabem de todos os nossos erros infantis e de todas as nossas ressacas morais. Esses amigos deveriam ser trancados num baú, pra abrir somente em caso de um ataque nuclear. São piores que uma dor de barriga numa festa de quinze anos. São tão verdadeiros e sem nenhum critério de sensatez que nos deixam de cara no chão diante de todos. Por todas essas qualidades, não há nada mais ridículo que os velhos amigos. Por outro lado, os velhos amigos são a única coisa que podemos imaginar como uma família, mesmo não o sendo. Os velhos amigos representam o sal de toda amizade.

Otto Lara Resende, um mineiro que entendia muito de amizade, escreveu certa vez seu método de escolha da amizade: “Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade. Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo”.

O grande poeta Fernando Pessoa, não se referindo aos amigos mais sim aos “conhecidos”, o que representa uma grande diferença, afirmou, com sua grafia lusitana da época, no seu “Poema em linha recta”: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (...) Toda a gente que eu conheço e que fala comigo, nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...” Para concluir: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. (...) Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Jorge Amado escreveu no seu “Navegação de cabotagem” que levava dentro de si um cemitério particular, onde enterrava aqueles que haviam traído sua confiança, “na cova rasa da salafrarice”. Era o único lugar onde poderia depositar essas infames pessoas, sem deixar de cumprimentá-las ao encontrar, nem lhes negar um aperto de mão. Mas que fique bem claro, que ao proceder desta maneira, elas já estavam mortas e enterradas. Quanta sabedoria tinha Jorge Amado.


Eu, por minha parte, tenho amigos de todos os tipos. Alguns estão mortos e enterrados, mas não sabem. Outros são campeões em tudo, sem nunca terem cometido uma atitude vil, e os por isso mesmo os desprezo do fundo do meu peito. A maioria deles, para minha sorte, são como os amigos do Otto Lara. São loucos e sérios, metade bobeira e metade seriedade, e fazem de mim louco e santo. São pessoas, como diria Jorge Luis Borges, que não se levam a sério demasiado e por isso mesmo podem sorrir de si mesmas e dos outros. São amigos, e isto basta.

segunda-feira, dezembro 20, 2004

A busca da felicidade



Yo no necesito tiempo
Para saber cómo eres:
Conocerse es el relámpago.
(...)
eres tan antigua mía,
te conozco tan de tiempo,
que en tu amor cierro los ojos,
y camino sin errar,
a ciegas, sin pedir nada
a esa luz lenta y segura.

Pedro Salinas,
em “La voz a ti debida”, 1933.


A felicidade sempre foi a meta de todos os seres humanos, dos mais cultos aos mais ignorantes. E os diferentes modelos e fórmulas para se encontrar a felicidade acompanharam o homem em toda sua trajetória, nos mais diversos momentos e lugares. Muitos já escreveram sobre a felicidade. Rubens Ricupero, em memorável artigo publicado na Folha de São Paulo de 4 de janeiro de 2004, traça um maravilhoso levantamento histórico e literário da felicidade ao longo dos tempos. Como afirmou o filósofo Ortega y Gasset, “o programa da vida feliz quase não variou ao largo da vida humana”.

Sempre me fascinou na Declaração de Independência dos EUA, a afirmação do direito de buscar a felicidade. Esse texto, de 4 de julho de 1776, declara: “Consideramos 'de per si' evidentes as verdades seguintes: que todos os homens são criaturas iguais; que são dotados pelo seu Criador com certos direitos inalienáveis; e que, entre estes, se encontram a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. A expressão é atribuída a Thomas Jefferson, mas era idéia comum naquela época de que a primordial função do bom governo seria a de cuidar da vida e da felicidade humanas.

Antes porém, na Declaração de Direitos de Virgínia, de 16 de junho de 1776, já se afirmava esta função estatal, ao lado do direito de rebelião: “O governo existe e deve existir para o bem comum, a proteção e a segurança do povo, nação ou comunidade; de todos os modos e formas de governo o melhor é o que é capaz de produzir a maior grau de felicidade e segurança e está mais efizcamente organizado contra o perigo de má administração; e, sempre que qualquer governo se mostre inadequado ou contrário a estes fins, a maioría da comunidade tem o direito incontestável, inalienável e irrevogável de o reformar, modificar ou abolir da maneira que for julgada mais conducente à felicidade geral”. Norberto Bobbio, no seu “Dicionário de Política”, afirma que a felicidade pública “é o valor mais invocado pela ética utilitarista, definido classicamente por J. Bentham como 'a maior felicidade para a maioria'”.

A busca da felicidade humana era um dos temas recorrentes da filosofia socrática, e muitos de seus discípulos elaboraram escolas filosóficas que partiram das interpretaçöes de seus ensinamentos. Assim, encontramos esta preocupação tanto em Platão, quanto em Aristóteles – que no livro “Ética a Nicômano” percorre vários caminhos para esclarecer o tema da felicidade. Mas é no pensamento dos cínicos, epicureus e estóicos que encontramos o maior destaque sobre o tema. Para os cínicos, “a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Para eles, a verdadeira felicidade consistia em se libertar dessas coisas casuais e efêmeras. E justamente porque a felicidade não estava nessas coisas ela podia ser alcançada por todos. E, uma vez alcançada, não podia mais ser perdida”. Os estóicos, aproveitando muito do pensamento cínico, acreditavam que a felicidade, como tudo que acontece na vida humana, não depende do homem, e sim das imutáveis leis naturais. Diante de tal atitude, ao homem caberia, tão somente, aceitar com tranquilidade o que o destino lhe trouxer. Diferentemente dos estóicos, os epicureus acreditavam na possibilidade do homem planejar sua vida. A felicidade estaria nos prazeres da vida, entendendo estes não apenas como a satisfação pelos sentidos. Epicuro afirmou que “aquele que não considera o que tem como a riqueza maior, é um infeliz, mesmo que seja dono do mundo”. Por fim, Sêneca afirmava que “felicidade é não necessitar dela”.

Na idade moderna, Rosseau, mesmo não definindo a felicidade, não duvida que todos os seres humanos a buscam. Na sua obra “Emílio”, por exemplo, afirma que a felicidade está para além de nós, sendo melhor nos contentarmos e acomodarmos. Mas arremata: “É necessário ser feliz, caro Emílio: é o fim de todo ser sensível; é o primeiro desejo que nos imprime a natureza e o único que não nos abandona jamais”.

Montesquieu escreveu: “se nos bastasse com ser felizes, logo o conseguiríamos; mas queremos ser mais felizes que os demais, e isso é muito difícil, tanto mais quanto que consideramos àqueles muito mais felizes do que em realidade são”. Para Voltaire “a felicidade nos espera em algum lugar, com a condição de não irmos buscá-la”. Goethe afirma que “somente é feliz e grande aquele que para chegar a ser algo não necessita nem mandar nem obedecer”.

Para Flaubert, a felicidade estava em “ser burro, egoísta e ter boa saúde”, sendo que tudo estaría perdido se nos faltasse a primeira condição. Outro não é o pensamento de Leopardi ao afirmar que “a felicidade está na ignorância da verdade” e de Anatole France ao escrever que “a vida nos ensina que não podemos ser felizes senão ao preço de certa ignorância”. Enfim, como afirmou o filósofo Fernando Savater, “nunca esteve totalmente esclarecido se o segredo da felicidade consiste ou não em ser completamente imbecil”.

Para Hegel, felicidade é a “busca do reconhecimento e aprovação dos outros, do aplauso e do elogio de nossos semelhantes”. Para Saint-Just, revolucionário francês, a felicidade era “um arado, um campo e uma choupana ao abrigo do fisco”. O escritor estadunidense Mark Twain escreveu que “se um homem nasceu com um caráter não dotado para a felicidade, nada lhe pode fazer feliz; se nasceu para ser feliz, nada lhe pode fazer desgraçado”. Para Emerson, “a felicidade consiste em preencher as horas e não deixar um resquício para que penetre o arrependimento ou a a provação”. Lord Byron, por sua vez, disse que “sempre se interpöe algo entre nós e o que creemos nossa felicidade”. Para Nietzsche, “a felicidade do homem tem por nome: Eu quero”.

A religião também nos ensina os caminhos da felicidade. Para santo Agostinho o homem, criado para Deus, somente nele encontraia repouso. São Francisco ensina que a perfeita alegría “é ser vilipendiado, rejeitado, espancado pelos seus, atirado à neve, com fome e frio”. Buda, considerando que a velhice, a dor, a doença e a morte são inevitáveis, afirmou que “o melhor é buscar o nirvana, a extinção, o apagar de todo desejo e da consciência individual”. O jesuíta espanhol Baltasar Gracián, autor de “A Arte da Prudência”, publicado em 1647, escreveu: “A virtude é o elo de todas as perfeiçöes, é o centro da felicidade. Ela torna o homem prudente, discreto, sagaz, sábio, valente, moderado, íntegro, feliz, digno de aplauso, verdadeiro, ou seja, um herói em tudo. Três 'esses' trazem a felicidade: sábio, são e santo”.

O pensador britânico Bertrand Russel, no seu livro “A conquista da felicidade”, afirma que “o homem feliz é o que vive objetivamente, o que é livre em seus afetos e tem amplos interesses, o que se assegura a felicidade por meio destes interessses e afetos que, por sua vez, o convertem a ele em objeto do interesse e o afeto de muitos outros. Que outros te amem é uma causa importante de felicidade”.

Mas, em matéria de felicidade, nada melhor que ouvir a opinião dos poetas. O grande poeta da América, Walt Whitman, louvando o momento presente escreveu: “A felicidade, o conhecimento, não estão noutro lugar, senão neste, não em outro momento, senão neste”.

Por tudo, o momento de ser feliz é agora. Não amanhã, ou depois. Desejo a todos meus heróicos leitores muitas felicidades neste Natal e meus melhores desejos para o ano que se aproxima. Que a felicidade esteja hoje em cada um de nós, com todos os seus sintomas, com todo o desejo de cantar na chuva, de dizer olá pro inimigo e sorrir de todos os nossos medos infantis. E que nossa caminhada na busca da felicidade seja muito bem acompanhada, porque “é impossível ser feliz sozinho”. Quanto a mim, vale os versos do poeta chileno Pablo Neruda, nas “Odes elementales”: “Desta vez me deixa ser feliz. Nada aconteceu a ninguém, não estou em parte alguma, simplesmente sucede que sou feliz pelos quatro costados do coração, andando, dormindo ou escrevendo. O que eu posso fazer, sou feliz”.

quarta-feira, dezembro 08, 2004

O "chakra"de Bhopal

O homem e sua segurança
devem constituir a preocupação fundamental
de toda aventura tecnológica.
Nunca se esqueçam disto
quando estiverem metidos
nos seus planos e equações.

Albert Einstein

Era meia-noite, de 2 de dezembro de 1984, quando um vazamento de gases tóxicos da multinacional estadunidense Union Carbide matou entre dezesseis e trinta mil pessoas, além de ferir mais de quinhentas mil, na cidade de Bhopal, capital do estado de Madhya Pradesh, na Índia. As nuvens brancas da morte despertaram os habitantes de Bhopal para seu pior pesadelo e transformaram aquela localidade outrora denominada “cidade da alegria” numa cidade de funerais. A roda do destino, a “chakra”, havia definitivamente parado em Bhopal.

Vinte anos depois daquela trágica noite de domingo, a contaminação provocada pelo vazamento - cujo principal componente era o MIC (Isocianato de metila), altamente explosivo acima de zero grau centígrado e usado na produção do agrotóxico Sevin - continua arruinando as vidas de milhares de pessoas pobres, vítimas indefesas da ganância e irresponsabilidade da indústria química. É o que se acostumou denominar de “injustiça ambiental”. Filhos de pessoas que inalaram o composto letal tiveram seu crescimento atrofiado. A taxa de aborto na região é sete vezes maior que a média da Índia. Em Bhopal, até hoje o número de pacientes com problemas respiratórios, câncer de pulmão e outras doenças crônicas é maior que em qualquer outra parte daquele país.

A Union Carbide pagou US$ 470 milhões ao governo da Índia em 989, dos quais US$ 330 milhões continuam retidos nos cofres estatais. Estima-se que a batalha judicial contra a empresa lhe obrigaria a pagar US$ 30 bilhões a título de indenização às vítimas, enquanto seu patrimônio era estimado em 1983 sobre os US$ 10,3 bilhões. Os acionistas da empresa também entraram na justiça americana com uma demanda estimada em quase US$ 1 bilhão, pela queda de 29% no valor das ações da multinacional depois do acidente. Todavia seguem esperando por conclusão demandas judiciais nos EUA e na Índia.

As tragédias também trazem seu lado paradoxal. Vinte anos depois do maior acidente químico da história, a BBC entrevistou a um falso porta voz da empresa Dow Chemicals, atual proprietária da Union Carbide, anunciando a responsabilidade da empresa sobre as indenizações, prometendo a criação de um fundo milionário para ressarcimento das vítimas. Tudo não passou de um engano, pois a empresa informou que não possui nenhum empregado com o nome de Jude Finisterra. Nova angústia para as vítimas que esperam há anos por uma indenização que cubra pelo menos com os gastos médicos.

O incidente de Bhopal ocorreu duas semanas depois da morte de quase quinhentas pessoas na localidade mexicana de San Juanico, vítimas de um acidente químico. No início deste mês ao redor de cinco mil pessoas foram retiradas às pressas da cidade chinesa de Qujing, depois de um vazamento de gás natural na região. Entretanto, o maior acidente com gás na China ocorreu em dezembro de 2003, quando várias explosões provocaram grandes nuvens de gás e mataram 243 pessoas na província de Chongqing, no Sudoeste do país.

A Union Carbide abandonou Bhopal há dezesseis anos. Deixou para trás milhares de toneladas de produtos químicos que contaminaram a água da cidade, que apresenta atualmente nível de contaminação quinhentas vezes maior que o máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde – OMS. A empresa se foi. Ficou a desgraça daqueles que nunca tiveram nada, além da esperança. Deviam estar loucos todos aqueles deuses envelhecidos da Índia, deviam estar...

terça-feira, novembro 30, 2004

A raposa e a rainha



Que a Inglaterra é um país repleto de tradições e excentricidades todo mundo está cansado de saber. A pompa e fleuma britânica despertam o desprezo e a inveja de muitos. Algumas tradições inglesas, como a caça à raposa com cães, existem a mais de trezentos anos. A Rainha da Inglaterra caça e esta prática se estende por toda a família real britânica.

Por tudo isso, a Inglaterra vive nos últimos meses um debate incompreensível para o restante do planeta, imerso em questões bem mais terrenas como a subida do preço do petróleo, a guerra do Iraque e a reeleição do Presidente Bush. O debate sobre a entrada em vigor em fevereiro de 2005 de uma lei proposta pelo Partido Trabalhista, do primeiro-ministro Tony Blair, proibindo definitivamente a caça à raposa com cães, além de outros animais silvestres. Blair trava uma cruzada pelo politicamente correto em matéria de defesa dos animais, tendo recentemente chegado ao absurdo de inaugurar, no centro de Londres, um monumento aos animais mortos em guerras.

A polêmica sobre a caça à raposa com cães possui diversos matizes, desde cada posição ocupada pelos interessados. As primeiras tentativas de proibição da caça à raposa são de 1949 e nos anos setenta a discussão girava em torno da utilidade da caça para controlar a espécie, argumento abandonado depois que pesquisas comprovaram sua pouca solidez. Foi quando os defensores da caça passaram a considerar a importância econômica da mesma. Segundo estes, entre seis e oito mil pessoas trabalham diretamente na caça de raposas com cães.

Atualmente, o debate se encontra no campo das liberdades civis e na solução da questão: é ou não um assunto do Estado interferir numa pratica social e cultural de uma minoria da população?

Vale ressaltar que o principal argumento dos defensores da proibição de caçar raposas é que o uso dos cães causa um sofrimento sem sentido, sendo melhor matá-las a tiros que a dentadas. Assim, a proibição desta forma de caça à raposa, ou seja, com cães, não implica na proibição total de caça deste animal, que não corre risco de extinção na Inglaterra.

A “Aliança Camponesa”, um poderoso lobby de caçadores, considera que por trás do problema está um verdadeiro enfrentamento entre o campo e a cidade, no qual a maioria urbana ofende a uma minoria rural incompreendida. De acordo com esta associação, existe um movimento de desobediência civil a caminho, pois mais de cinqüenta mil pessoas já firmaram uma declaração de que desobedecerão a lei.

Para o Professor Neil Ward, da Universidade de Newcastle, especialista em conflito e mudança social na sociedade rural, "o enfrentamento político em torno a caça é na realidade um choque entre as idéias sobre a sociedade moderna e a sociedade tradicional que se acentuou com a chegada dos trabalhistas ao poder em 1997”. Assim, de acordo com este posicionamento, os políticos de direita, ou “tories”, possuem o interesse de conservar o passado, principalmente conservar os aspectos tradicionais da identidade nacional e rural inglesa, enquanto que os trabalhistas são mais identificados com a modernização e com a reforma das instituições tradicionais.

Outros argumentam que tudo não passa de uma maneira de acabar com “o deleite da classe alta”, pois historicamente a caça à raposa esta associada a classe alta latifundiária. No que discorda o Professor Garry Marvin, antropólogo e sociólogo da Universidade de Roehampton, que estuda a caça à raposa há dez anos. Para ele, não existem evidências de que apenas os ricos caçam e que os motivos para a prática da caça vão desde a tradição, o amor à paisagem, o contato com os cavalos até uma relação emocional profunda com o campo. E conclui: “A caça à raposa não tem nada que ver com o prazer de matar raposas. Isso seria como afirmar que os espanhóis vão às touradas pelo prazer de ver matar o touro. Isso, em absoluto, não é o caso. Os touros morrem nas touradas, as raposas morrem na caçada, mas é a maneira na qual se relacionam o toureiro com o touro e os caçadores com as raposas o que faz a singularidade destes acontecimentos”.

Para muitos, este debate será apenas mais uma excentricidade britânica, um povo que já possuiu um império fantástico que civilizou povos e destruiu culturas. Para outros, será tão somente a eterna disputa entre a cidade e o campo, a modernidade e a tradição, entre o novo que luta pra nascer e o velho que teima em não desaparecer.

sexta-feira, novembro 12, 2004

Oriente Médio II















A primeira Antifada – manifestações de jovens palestinos nos territórios ocupados por Israel onde estes enfrentavam os tanques israelenses com pedras – dá início em dezembro de 1987. Mais de vinte mil pessoas entre mortos e feridos. Era o início da “rebelião das pedras”.

Em 16 de abril de 1988, Israel assassina o numero dois da hierarquia da OLP em Tunis, na Tunísia. Em 15 de novembro de 1988 nasce a Autoridade Nacional Palestina – ANP, tendo por Presidente Yasser Arafat.

Terminada a Guerra do Golfo, em outubro de 1991, inicia sob os auspícios estadunidenses a Conferência de Madri, com representantes de Israel, Palestina, Síria, Jordânia e Líbano.

Em 13 de setembro de 1993, Isac Rabin e Arafat firmam os Acordos de Oslo na Casa Branca, onde Israel reconhece a Organização para Libertação da Palestina - OLP como representante da causa palestina, dando alguma autonomia à Autoridade Nacional Palestina – ANP, e os palestinos renunciam a direitos sobre territórios. Dando cumprimento aos Acordos de Oslo, Israel e a OLP se reúnem na Conferencia do Cairo, em maio de 1994, para agendar a retirada militar de 60% do território de Gaza e conceder autonomia palestina em Jericó.

Em 1º de julho de 1994, Arafat retorna a Gaza e assume como Presidente da Autoridade Nacional Palestina – ANP, tendo por capital a cidade de Jericó.

Israel firma a Paz com a Jordânia em outubro de 1994, pondo fim a uma guerra que durara 46 anos.

Em setembro de 1995, Isac Rabin e Arafat firmam a ampliação da autonomia palestina em Gaza e Cisjordânia, bem como a realização das primeiras eleições palestinas, vencidas por Arafat em abril de 1996. No dia 4 de novembro de 1995, o primeiro-Ministro israelense Isac Rabin é assassinado por um judeu ultra-ortodoxo, sendo sucedido por Shimon Peres.

Assume como Primeiro-Ministro israelense Bejamin Netanyahu, de direitas, em 31 de maio de 1996. Em deu mandato – de pouco menos de três anos - Israel entrega aos palestinos 80% da cidade de Hebrón (janeiro de 1997), mas completa o cerco do setor ocupado de Jerusalém com mais um assentamento judeu, o de “Har Homa”. Em outubro de 1998, se firma o Acordo de Wye, pelo qual Israel pactuou a retirada de suas tropas de 12% do território da Cisjordânia e a libertação de 350 presos palestinos, desde que a luta armada ficasse suspensa.

Em 6 de fevereiro de 1999 morre o Rei Hussein da Jordânia, um dos maiores promotores da paz entre israelenses e palestinos.

Em 17 de maio de 1999, Ehnud Barak, de esquerda, vence as eleições israelenses. Em setembro de 1999, Arafat e Barak firmam a revisão do Acordo de Wye, mas não conseguem avançar no processo de paz por desacordos sobre a devolução dos territórios ocupados por Israel.

No ano 2000, Israel se retira do sul Líbano depois de 22 anos de ocupação. Em julho, fracassa a Conferencia de Camp David, convocada por Clinton para discutir a soberania da cidade de Jerusalém.

Sem embargo, em 28 de setembro de 2000 começa a Segunda Intifada, no dia em que Ariel Sharon, líder do direitista partido Likud, aparece de surpresa na Esplanada das Mesquitas, local sagrado muçulmano. A violência da resposta israelense à Segunda Intifada foi condenada por uma Resolução da ONU. Em dezembro, dia 9, Barak deixa o poder.

O ano de 2001 começa com a abertura das negociações no balneário egípcio de Taba, sobre uma proposta de paz dos EUA. Entretanto, vitória de Ariel Sharon e sua subida ao poder em fevereiro de 2001 acaba de vez com as negociações de paz. A violência retorna com o assassinato do ministro israelense de turismo, com uma nova onda de atentados palestinos e com o bombardeio de Gaza e Cisjordânia.

Em 2002 o exército israelense dá início ao processo de confinação de Arafat no seu quartel-general em Maugata. Sharon segue com sua política violenta dando início, em 16 de julho, a construção do muro de separação entre Israel e a Cisjordânia. A ONU, através da Resolução nº 1.397, apóia a criação do Estado palestino.

O muro israelense na Cisjordânia já possui 200 quilômetros de cimento armado, sendo seu total previsto de 650 quilômetros de extensão. Ele recluirá aos palestinos habitantes da Cisjordânia na metade de seu território, destacadamente nas zonas urbanas. Na sua primeira fase de construção, já deixou a mais de vinte mil palestinos sem meios econômicos de sobrevivência, além de destruir milhares de hectares de terras e de poços de água na região.

Em 28 de janeiro de 2003 Sharon é reeleito Primeiro-Ministro de Israel e em abril é apresentado um novo plano de paz, que planejava a criação do estado palestino para o fim de 2005. Em março de 2003, Abu Mazen é nomeado Primeiro-Ministro da Autoridade Nacional Palestina – ANP, e participa da Conferencia de Agaba, na Jordânia, junto a Sharon e a Bush. Nessa conferencia, os israelenses aceitam a criação do estado palestino e a levantar os assentamentos judeus ilegais. Infelizmente, o reinício da violência em agosto, por parte dos extremistas palestinos de Hamás e Yihad forçam a demissão de Abu Mazen em setembro, sendo nomeado para sucedê-lo Abu Ala.


Em 2004 os israelenses assassinam ao líder espiritual palestino xeque Yasin e ao seu sucessor Abdelaziz Rantisi, um mês depois. Sharon apresenta a Bush, em abril, seu “Plano de Desconexão”, propondo evacuar a 17 dos 21 assentamentos judeus ilegais na Faixa de Gaza e retirada das tropas israelenses da Cisjordânia até um limite considerado de segurança. Entretanto, seu próprio partido, Likud, rejeita seu palmo por quase 60% de maioria. Em 9 de julho, o Tribunal de Haia julga ilegal o Muro da Cisjordânia. Por fim, Arafat morre em 11 de novembro.

Oriente Médio I





















Até o final da I Guerra Mundial, a Palestina era, tão somente, mais uma província do Império Turco Otomano, quando então passou para mãos britânicas, sob Mandato da Sociedades das Nações, que controlou a região de 1921 a 1948.

Com a saída dos britânicos, em 13 de maio de 1948, a ONU, substituta da Sociedade das Nações, recebe o comando da situação. O problema naquele momento era o conflito entre os judeus – que chegavam aos milhares à região, na esperança de criação de um “lar nacional” – e os nativos da região – árabes palestinos. Entretanto, as primeiras medidas facilitadoras para uma volta em massa de judeus para Palestina ocorreu ainda no Século XVII, quando o protestante Oliver Crommwell era mandatário da Inglaterra. O motivo era a crença de que somente após o regresso dos judeus a Palestina, retornaria o Messias.

Desde então já ocorreram cinco guerras (1948, 1956, 1967, 1973 e 1982) e duas Intifadas (1987 e 2000). As tentativas de paz foram inúmeras, e algumas quase lograram êxito. A primeira foi com a aprovação pela Assembléia das Nações Unidas – ONU da resolução de 29 de novembro de 1947. Nesta resolução se decidiu a criação de dois estados e uma zona internacional, a cidade de Jerusalém, fixando fronteiras e definindo os direitos das minorias em cada estado.

O Oriente Médio continua sendo o “ponto mais quente” do mundo, ou seja, a região onde a manutenção de um processo de paz duradouro vem se tornando quase impossível. E para melhor entender a questão árabe-israelense é necessário conhecer as origens e a evolução do conflito.

Os israelenses a 14 de maio de 1948 proclamam o Estado de Israel. Naquele tempo, a principal liderança israelense era Ben Gurion, um ex-terrorista fundador do Estado judeu. Os países árabes vizinhos imediatamente declaram guerra ao novo estado, o que resultou na primeira guerra árabe-israelense, que vai durar mais de um ano, provocando a saída de oitocentos mil de palestinos da região e a morte de seis mil judeus.

Hoje, os refugiados palestinos já somam seis milhões de pessoas, sendo que um de cada três refugiados no mundo é palestino. Nunca receberam a cidadania dos países que os acolheram e nem receberam indenização pelo confisco de suas terras e bens pelo Estado de Israel.

A nacionalização do Canal de Suez pelo Egito em julho de 1956, então presidido por Gamal Nasser, apenas serviu para pôr mais lenha na fogueira. A resposta não tardou e Israel, apoiado militarmente por França e a Grã-Bretanha, invade a região do Sinai, mas é forçado a retirar-se pela pressão dos EUA e da ex-URSS, as novas superpotências, e da ONU. Aqueles países europeus ainda não entendiam que tinham perdido o status de potencia internacional depois da II Guerra Mundial. O mundo da Guerra Fria possuía novos amos.

A Organização para a Libertação da Palestina – OLP é criada oficialmente em 27 de maio de 1964, na cidade de Jerusalém. Apenas em novembro de 1974 seria a OLP reconhecida pela ONU como legítima representante do povo palestino.

Em 5 de junho de 1967 começa “Guerra dos Seis Dias”, quando Israel recaça uma ataque do Egito, Síria e Jordânia, capturando em seu avanço os Altos do Golan, a península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e boa parte da cidade de Jerusalém. Nos Altos do Golán nasce o rio Jordão, que banham todo seu vale sob domínio israelense, daí sua importância econômica e estratégica. Nesta guerra, curiosamente, o grande general israelense Moshe Dayán se opôs a ocupar militarmente o setor árabe de Jerusalém, temendo a destruição dos lugares santos.

Em setembro de 1970, o Rei Hussen de Jordânia expulsa os palestinos de seu país, que já havia sido invadido diversas vezes por Israel. Hussen considerou os palestinos como um fator de desestabilização política, e estes foram para o Líbano, provocando em 1974 uma guerra civil naquele país.

A “Guerra do Yom Kipur” começa em outubro de 1973, quando o Egito, presidido por Anuar el-Sadat, e a Síria atacam Israel, recuperando os Altos do Golan. A intervenção pessoal do Presidente dos EUA, Jimmy Carter, faz com que os estados árabes parem seu vitorioso avanço sobre Israel, que em poucas horas de guerra havia perdido a mais de 300 tanques.

Na Olimpíada de Munique, na Alemanha, em 5 de setembro de 1972, um grupo terrorista palestino assassina a 11 atletas israelenses.

A “Guerra do Líbano” se inicia em abril de 1975 com o ataque israelense sobre esse país que jamais participou das guerras anteriores contra Israel, alegando que desta maneira expulsariam os palestinos alí sediados.

Os “Acordos de Camp David” são firmados em 18 de setembro de 1978 entre Israel - de Menajem Begin, Egito – de Anuar el-Sadat, e os EUA – de Carter. Neles, se garante ao Egito a devolução da península do Sinai perdida para Israel em 1967 na “Guerra dos Seis Dias”. Era o início da política de “paz por territórios”.

Israel volta a invadir o Líbano em junho de 1982, quando então era ministro de defesa e Israel o general Ariel Sharon. Como na invasão de 1975, o pretexto era a expulsão da OLP daquele país. Em agosto de 1982, ao redor de quinze mil combatentes palestinos são expulsos do Líbano e partem em direção a Argélia, Iêmen e Tunísia, onde estabelecem a sede da OLP.

Em setembro do mesmo ano, milícias cristãs libanesas e as tropas comandadas pelo general Ariel Sharon atacam os campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila, no Líbano, assassinando a mais de dois mil palestinos indefesos. Vale lembrar que os estadunidenses cometeram dois massacres, que juntos não chegam aos crimes cometidos por Sharon em Sabra e Shatila: na guerra do Vietnã, em 16 de abril de 1968, tropas americanas mataram na aldeia de “My Lay” foram assassinadas 504 pessoas, e no começo da guerra da Coréia foram mortos 300 civis no vilarejo de “No Gun”.