sexta-feira, abril 09, 2010

Espetacular galáxia assimétrica


Espetacular galáxia assimétrica

O 'Hubble' fotografa o objeto dominante do trio de galáxias da constelação de Leão

EL PAÍS - Madrid - 09/04/2010

Tradução de Antonio de Freitas

O telescópio espacial Hubble obteve uma imagem espetacular da galáxia M66, na qual se destacam seus braços em espiral assimétrico e seu centro aparentemente fora do lugar. Forma parte do trio de Leão, junto às galáxias M65 e NGC3628. Os astrônomos consideram que a assimetria fora do comum de M66 se deve à influência gravitacional das outras duas. Este trio está a uns 35 bilhões de anos luz da Terra, na constelação de Leão. M66, com um diâmetro de uns 100.000 anos luz, tem um recorde notável de explosões de supernovas: desde 1989 se detectou ali três, a última no ano passado. Na nova imagem do Hubble é possível apreciar linhas de poeira cósmica e grupos de estrelas brilhantes ao longo dos braços em espiral com grande nitidez.

sexta-feira, abril 02, 2010

A 'madrugá' abarrota Sevilha

A 'madrugá' abarrota Sevilha

Milhares de pessoas lotam las ruas para assistir uma das procissões mais populares da Semana Santa

EFE - Sevilla – El País - 02/04/2010

Tradução de Antonio de Freitas

A ‘madrugá’, a procissão mais popular da Semana Santa de Sevilha, começou pouco depois da meia noite com a saída da primeira de suas seis cofrarias, a da Macarena, e com centenas de milhares de sevilhanos e turistas que lotaram as ruas numa madrugada luminosa embora fria. As procissões transcorreram com normalidade e não houve incidentes graves.

A novidade é a presença, pela primeira vez em sua história, de nazarenas da confraria do ‘Gran Poder’, conhecida como ‘El Señor de Sevilla’, que incorporou umas 200 mulheres a sua relação de 2.300 nazarenos. Com a incorporação de mulheres a uma das cofrarias mais tradicionais da Semana Santa sevilhana, somente restam três de suas 61 congregações que ainda não se uniram a este processo, iniciado nos anos noventa.

A irmandade da ‘Macarena’ começou na rua ‘Jesús de la Sentencia’ às 12:25 da madrugada e no momento de atravessar as portas de su basílica, situada No bairro do mesmo nome, foi recebida ao som de uma ‘saeta’ cantada das varandas da irmandade. Após a ‘La Esperanza Macarena’ sairam ‘El Silencio, el Gran Poder, la Esperanza de Triana, Los Gitanos e El Calvario’, percorrendo durante toda a madrugada e primeiras horas de hoje as ruas de Sevilha com seu séquito de sacristãos, pajens, nazarenos e penitentes com cruz.

O contraste ocorre entre as cofrarías ‘sérias’ como ‘El Silencio’ e ‘El Calvario’, caracterizadas por sua austeridade, e as populares como a ‘Esperanza de Triana’ e ‘Macarena’, que percorrem as ruas aos gritos de "guapa, guapa" dirigidos a sua Virgem Maria. As ruas do centro de Sevilha ficaram abarrotadas de centos de milhares de sevilhanos e turistas que, ademais de presenciar a passagem das imagens pelas estreitas ruas do centro, passaram a vigília comendo nos bares.

quarta-feira, março 31, 2010

O Acordo de Copenhague consegue aprovação de 110 países


O Acordo de Copenhague consegue aprovação de 110 países

China e EUA lideram a lista de adesões ao documento que não impõe limites às emissões de gases contaminantes nem é vinculante

REUTERS - Oslo - 31/03/2010

Tradução de Antonio de Freitas

Três meses depois de que ser redigido o acordo final sobre o clima na Conferência de Copenhague a maioria dos países emissores de gases de efeito estufa aderiu ao pacto, segundo a lista publicada dia 31 de março, quarta-feira, pela ONU. Encabeçando os 110 estados encontram-se a China e os EUA, destaca a organização.

A lista contribui para pôr fim a semanas de incerteza sobre o apoio final que receberia o texto negociado pelo Secretariado das Nações Unidas para a Mudança Climática após o desencontro na conferência dinamarquesa. O acordo, que não é vinculante nem estabelece os compromissos nacionais para conseguir a redução de dois graus centígrados estabelecida no texto, é o máximo que se pôde obter de uma conferência "decepcionante" que custou o cargo a Yvo de Boer, responsável da ONU para a mudança climática.

Brasil negocia com EUA criação de base militar conjunta no Rio de Janeiro


O governo brasileiro negocia com os EUA uma base militar conjunta no Rio de Janeiro

O Chefe do Pentágono, Robert Gates, visitará o país sul-americano em abril

JUAN ARIAS Rio de Janeiro – El País - 01/04/2010

Tradução de Antonio de Freitas

O governo brasileiro começou as negociações com os Estados Unidos para criar no Rio de Janeiro uma base para vigiar o tráfico de drogas na região, similar às existentes em Key West (Florida) e em Lisboa, segundo informou o jornal ‘O Estado de São Paulo’.

À frente das negociações está o comandante Douglas Fraser, responsável pelas operações do Pentágono na América Latina, e Nelson Jobim, Ministro de Defesa brasileiro. Igual às bases nos EUA e em Portugal, a brasileira serviria para a cooperação multinacional contra o tráfico de drogas e o terrorismo. Key West se encarrega de vigiar a América do Norte e o Caribe, enquanto que a base portuguesa, localizada às margens do rio Tejo, exerce controle sobre o Atlântico Norte. A base do Rio de Janeiro se encarregaria do Atlântico Sul.

O Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, tem programada uma visita ao Brasil a meados de abril na qual tratará com o governo brasileiro a cooperação estratégica militar entre ambos os países.

segunda-feira, março 08, 2010

"Sim, se vê as pirâmides do espaço"


"Sim, se vê as pirâmides do espaço"

O astronauta japonês Soichi Noguchi envía imagens de toda a Terra ao Twitter da ISS

EL PAÍS - Madrid - 08/03/2010

Tradução de Antonio de Freitas
Mais de 46.800 pessoas já viram as pirâmides egípcias do espaço. Não é uma lenda urbana. Seu autor acompanha a imagem com o comentário: "Sim, se vê as pirâmides do espaço". O astronauta japonês Soichi Noguchi, que está em órbita na Estação Espacial Internacional (ISS em inglês) há 77 dias, se converteu nos olhos de dezenas de milhares de usuários Twitter que, cada dia, permanecem na expectativa diante da janela que, de seu computador, se abre ao espaço.

No dia 24 de janeiro passado, Noguchi publicou a primeira instantânea em seu microblog: uma imagem de Porto Príncipe dois dias depois do terremoto que destruiu a capital haitiana. O astronauta japonês se converteu, em menos de dois meses, num documentarista gráfico de sucesso. Entre as imagens mais destacadas se encontram a da Grande Rocha, na Austrália, com mais de 21.000 visitas; o Kilimanjaro, vista por 46.300 pessoas; e as dunas vermelhas ao amanhecer no deserto da Arábia, que deslumbraram 39.000 usuários. Mas, também, há espaço para obsessões pessoais, como as imagens de glaciares na Patagônia, a lua e as cidades mais iluminadas do mundo, de noite.

segunda-feira, março 01, 2010

José Mujica assume a presidência do Uruguai


José Mujica assume a presidência do Uruguai
e se compromete com o gasto social

O novo governante, de 74 anos, se torna o segundo Presidente de esquerda na história do país

EFE - Montevideo – El País - 01/03/2010

Tradução de Antonio de Freitas

O ex-guerrilheiro José Mujica, do bloco de esquerda Frente Ampla, tomou posse hoje como o 52º Presidente do Uruguai, em uma cerimônia no Palácio Legislativo de Montevidéu, onde ele garantiu que o gasto social será um dos pilares de seu mandato.

"Atualmente, 2% dos uruguaios vive na pobreza,o que é uma vergonha nacional", disse o presidente em sua mensagem de posse. "Um em cada cinco uruguaios é pobre, mas o país está indo bem ... O Uruguai está se movendo em duas velocidades", disse o novo Presidente, referindo-se à pobreza, que em sua opinião, "não é justo além de que é perigoso".

Mujica, que venceu as eleições no país em 29 de novembro do ano passado, jurou na sua posse diante da senadora Lúcia Topolansky, sua esposa. Em seu discurso, o ex-guerrilheiro tupamaro reiterou o seu compromisso com o Mercosul, a aliança regional formada por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, com a Venezuela em processo de integração formal.

Mujica, que antes e durante a ditadura que governou o Uruguai entre 1973 e 1985 esteve preso em condições duras, disse que as forças armadas do Uruguai "estão cheias de pessoas pobres" e assinalou seu compromisso de apoiar as tropas com os planos de habitação e melhoria de seus salários.

Na cerimônia de posse estiveram presentes os presidentes do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Colômbia, Álvaro Uribe, da Venezuela, Hugo Chávez, da Bolívia, Evo Morales, do Paraguai, Fernando Lugo, e do Equador, Rafael Correa. Também estiveram presentes na cerimônia Felipe de Bourbon, representando a Espanha, e a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton.

O novo governante, de 74 anos, que participou do evento vestido com um terno azul escuro, mas sem gravata, se torna o segundo Presidente de esquerda da história do país ao substituir Tabaré Vázquez, seu parceiro na Frente Ampla. Em 2005 Vazquez quebrou a hegemonia de mais de um século e meio do Partido Colorado e do Partido Nacional (Blanco).

domingo, fevereiro 28, 2010

Aniversário de 6 anos do Periscópio


Aniversário de 6 anos do Periscópio

Brasília (DF), 28 de fevereiro de 2010

Antonio de Freitas

Quando começamos o projeto Periscópio, em 2004, eu regressava de uma temporada de mais de quatro anos fora do Brasil. Terminava, assim, uma fase de minha vida, um período de aprendizagem e de conhecimento do mundo. Já era hora de voltar pra casa. Todo recomeço é difícil. Havia uma mescla de saudade, decepção, esperança e medo dos trópicos.

A saudade vem da alma lusitana e nordestina, da mistura racial embalada nas tardes calorentas de redes e mulatas, do apego à cultura familiar e folclórica, da lembrança do Senhor Rocha e suas estórias de caçadas e viagens pelos sertões, do suave português falado no interior do Brasil, entre compotas de frutas e taças de licor de jenipapo. Sem contar a imensidão de outros cheiros e sabores tão presentes em minh’alma.

Decepção pelo fato de que os amigos continuavam cansados e tristes, vivendo as vidas mais horrorosas, cheias de contas pra pagar e nenhum plano juvenil na cabeça, nem muito menos alguma emoção no peito. A província continuava como sempre esteve, distante de tudo, vivendo em outro tempo, longe do nosso século. Perdida entre “sono protocolar”, diria Drummond.

A esperança advinha pelo momento histórico que vivia o Brasil, com seu primeiro governo de esquerda. O mundo inteiro esperava algo mais de nós brasileiros naquele momento. As esquerdas européias, já esgotadas de projetos, esperavam com aflição e cheios de bons augúrios pelo sucesso do governo Lula e das esquerdas na América do Sul.

Por fim, o medo. Medo de voltar, porque apesar de ser o caminho mais curto, a volta sempre nos remete para trás, para o recomeço, para a casa dos pais, pra nosso eterno ponto de partida.

Nestes seis anos de Periscópio, a coluna manteve-se semanal. Ou quase. A princípio, como uma coluna a mais no Portal 45 Graus (WWW.45graus.com.br), da Cyntia e do Júnior, aos quais agradeço de coração pela oportunidade presenteada. Depois, o Periscópio transformou-se num blog, sem, contudo, desvincular-se de sua origem.

Durante todo este tempo, a experiência de escrever um artigo por semana estimulou-me de tal maneira que até perdi o temor de enfrentar o papel em branco (ou a tela, melhor dizendo). Há semanas em que o cronista/contista/articulista está cheio de idéias e novas estórias pra contar. Noutras, o silêncio se assenhoreia de sua alma e do seu coração, e temos de sacar a crônica do próprio estômago, de maneira visceral. As lembranças de vidas vividas, de situações que marcaram a memória, compõem a matéria prima que permeia estas crônicas.

Depois, o tempo foi se esgotando e, ao invés da coluna semanal, a única maneira encontrada para manter o blog foi traduzir um texto semanal. Não é que tenha perdido o interesse por tudo, mas o trabalho e a família cresceram, deixando-me sem o mesmo tempo de antes.

Contudo, a análise dos acontecimentos que mereceram destaque na mídia mundial é dirigida através daquelas lembranças e das lentes atentas do solitário guardião de farol, numa visão de sentinela de trincheira, submerso num dia a dia que jamais sufoca um coração enorme. Daí o nome da coluna, que hoje comemora seis anos: Periscópio.

Força sempre!

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

Desconstruir a Miguel Hernández


Desconstruir a Miguel Hernández

JESÚS RUIZ MANTILLA – El País - 20/02/2010

Tradução de Antonio e Freitas Jr.

Joan Manuel Serrat analisa canção por canção ‘Hijo de la luz y de la sombra’, seu novo disco dedicado ao poeta Miguel Hernández -o primeiro foi gravado nos anos setenta -. O álbum, que coincide com a celebração do centenário do escritor, sai à venda no dia 23.

A metade de aperitivo e a outra parte para depois de comer. Não há maneira melhor de digerir as novas canções que Joan Manuel Serrat compôs para Miguel Hernández que de pouquinho, junto a uma garrafa de seu vinho, ‘Mas Perinet’, e enquanto fazemos juntos a digestão de uma gloriosa pasta com trufa: a que preparou o gourmet mais curtido e celebrado por estes mundos da música popular espanhola.

Não há duvida de que Serrat sabe exprimir a vida. E contar seu trabalho a fundo, com a paixão do artesão e a curiosidade do eterno principiante, aos 64 anos. Hernández vai e vem a sua casa com a confiança de um familiar. Agora se comemora seu centenário e Serrat compôs 13 canções para pô-las na boca e na pele de uma nova geração.

Igual a quando, a princípios dos anos setenta, lhe resgatara através de sua voz para nunca mais tirá-lo da consciência dos meninos, hoje quarentões, e dos jovens, agora sessentões, que tinham a noticia através deste cantor da luta, do drama e da esperança do poeta de Orihuela. Aquele pastor de cabras, autodidata, preso republicano, vítima do franquismo, que lançou seus versos renegando de um destino miserável contra o qual lutou com a força de superdotado.

Aquelas primeiras canções que ele mostrou à viúva do poeta, Josefina Manresa, um bom dia em que teve que lhe presentear um toca-discos para poder escutá-las juntos ficou na memória. O repertorio ‘hernandiano’ aumenta agora com estas peças novas, que lançará em disco no próximo dia 23 (‘Hijo de la luz y de la sombra’) e sairá em turnê a partir de 27 de março. Somente dedicará as apresentações ao poeta. "Que ninguém me peça Mediterrâneo porque não irei cantar", avisa. Leva os nervos entre as cordas da guitarra ainda que negue. Fez as malas com pouca roupa e um bom estoque de versos. Sai de viagem, outra vez, com Miguel Hernández. Porém antes conta o porquê de cada canção.

1. Uno de aquellos. É o poema que dedicou aos brigadistas. "Las patrias te llaman con todas sus banderas", diz a letra. "Un alma sin fronteras". Para Joan Manuel Serrat significa o espírito de que não há batalha contra a injustiça, contra o abuso, que nos seja indiferente. "É a canção do poeta sem pátria, do lutador idealista, que se encaixa perfeitamente em muitas situações de hoje", assegura.

2. Del ay al ay por el ay. "Aqui se adivinha um fatalismo, uma sombra visionaria que amedronta", diz o músico. Comenta ao marcar uns versos: "Sucias rachas tumban todos los cometas que levanto". O poema data de 1934, porém é como se indicasse o que vai ocorrer ao longo dos anos que lhe restam de vida antes de morrer abandonado da mão de Deus na prisão de Alicante. A canção tem um tratamento de queixa profunda: "Em nenhum momento tratei de lutar com construções musicais. Tentei que o poema me devolvesse melodias frescas, naturais".

3. Canción del esposo soldado. Aqui soa de repente um bolero antigo. "É algo progressivo", explica Serrat. Uma caixa que marca os passos de uma marcha com ar ‘raveliano’ ou de ‘saeta’ na qual se escuta: "Es preciso matar para seguir viviendo. Un día iré a la sombra de tu pelo lejano".

4. La palmera levantina. Do calafrio precedente, entra com suavidade uma espécie de brisa cálida. Trata-se de uma canção cheia de sensualidade mediterrânica. "Esta é a época juvenil, quando lia a Góngora antes dele escrever ‘Perito en lunas’ (publicado em 1933)", comenta Serrat. "Nesse aspecto, Hernández é um poeta transparente. Pode saber a quem está lendo em cada momento de sua criação".

5. El mundo de los demás. Seguimos imersos na umidade musical. Para esta canção, este autor de mares e céus abertos elegeu um tom, diz ele, "aquático, algo que nos balança". É uma viagem interior. "Cegos de ver, vimos, olhamos para dentro, vemos o mais íntimo". Pertence ao ‘Cancionero y romancero de ausencias’ (1938-1941). "Possui a lucidez de quem sabe que o mundo não é o que parece".

6. Dale que dale. "Esta é a época em que escrevia como San Juan de la Cruz", comenta o autor. "Dale Dios a mi alma hasta perfeccionarla", canta Joan Manuel. Andava impregnado de um catolicismo muito social, à imagem e semelhança dos místicos. Porém o músico, no ritmo massacrante e obsessivo dos versos, entrevê outras coisas: "Um claro onanismo", assegura. Por trás soa leve, discreta, a voz de Miguel Poveda.

7. Cerca del agua. Esta canção é uma viagem. Difícil. Imaginário. O que separa a cela da água. "É impressionante porque da obscuridade se traslada à luz, é uma reafirmação de sua liberdade, quer escapar ao mar", comenta Serrat. "É todo um exercício de resistência e imaginação".

8. El hambre. Os versos deste poema são intensos. "Es el primero de los conocimientos. La ferocidad de nuestros sentimientos", reza o texto. "Não propõe a fome como uma consequência, mas como uma presença que configura sua identidade", assegura Serrat. A do menino e do adolescente que viveu a experiência. O homem que construiu a fome.

9. Tus cartas son un vino. Poema de juventude, da época em que escrevia à sua mulher, Josefina, com o alento do amante distante. "Cuando me falte sangre con zumo de clavel", dizem os versos, por exemplo. É uma peça evocativa, melancólica, apaixonada.

10. Si me matan, bueno. É uma adaptação da obra teatral ‘El Pastor de la muerte’ (1938). "A música leva um perfume cubano por ser uma homenagem a Pablo de la Torriente, brigadista da ilha, muito amigo de Hernández", assegura Serrat. Um tema combativo que realça a coragem daqueles que entregam suas vidas pelo que em aparência não lhes incumbe.

11. Las abarcas desiertas. A identidade da miséria marca também esta peça. "Me vistió la pobreza / me lamió el cuerpo el río. / De pies a cabeza, / pasto fui del rocío". Refere-se a sua infância, mas evocada desde a última juventude. " ’Las abarcas desiertas’ eram aquelas em que os reis magos nunca deixavam nada. Há um ressentimento, um protesto social profundo nestes versos", acredita Joan Manuel Serrat. (Nota do tradutor: “abarca”, segundo o Dicionário da Real Academia de la Lengua Española, 22ª ed., significa “calçado de couro cru que cobre apenas a planta dos pés, amarrado ao redor e seguro com cordas ou correias sobre seu dorso e o tornozelo". Ou seja, uma espécie de alpercata).

12. Sólo quien ama vuela. Uma nova viagem fora dos muros da prisão. A ansiedade que lhe produz o querer e o pode fazer. Somente voando com a imaginação de sua escritura encontra-se livre. "Somente assim pode sair, sentir-se de outra maneira", comenta o músico.

13. Hijo de la luz y de la sombra. Aqui foi necessário fazer um trabalho fino. Trata-se de um poema tríptico do qual Serrat quis captar a essência. "Havia que montar uma canção que transmitisse o aroma", comenta. O do amor radical, desesperado, que fecha como um círculo o que se abriu com o disco de 1972. Uma evocação ao seio onde tudo nasce: "Eres la noche esposa / y yo soy el mediodía... Caudalosa mujer / en tu vientre me entierro". -

‘Hijo de la luz y de la sombra’. Joan Manuel Serrat. Sony / BMG. Sai à venda na próxima terça-feira dia 23. A turnê começará dia 27 de março em Elche (Alicante). http://www.jmserrat.com/.
Audios:

quarta-feira, fevereiro 17, 2010

McCartney sugere uma operação para salvar os estúdios Abbey Road


McCartney sugere uma operação para salvar os estúdios Abbey Road

O ex-beatle assegura que várias pessoas "associadas" estão preparando a manobra

EL PAÍS - Madrid - 17/02/2010

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Paul McCartney conhece bem os estúdios Abbey Road. Ali sua antiga banda, os Beatles, gravaram álbuns iniludíveis como Rubber Soul e Revolver. A noticia,
difundida ontem pelo Financial Times, de que foi posto à venda por parte da gravadora EMI este templo da música pop levou o ex-beatle a se pronunciar a respeito na cadeia britânica BBC. McCartney acredita que algumas pessoas "associadas ao estúdio desde há muito tempo estão tentando salvá-lo".
Não ficou claro se com estas palavras McCartney fez pública uma negociação em andamento ou tão-somente expressou um desejo. Em qualquer caso, o artista assegurou que "simpatiza" com aqueles que levam a cabo dita tentativa. "Espero que possam fazer algo, seria genial".

Segundo o jornal financeiro que ontem adiantou a noticia, a companhia proprietária da EMI, o fundo de investimentos Terra Firma, tenta conseguir uns 136 milhões de euros para cumprir com um dos pagamentos de um empréstimo contraído com o Citigroup no valor de 3,7 bilhões de euros.

EMI sofreu em 2009 perdas de mais de 2 bilhões de euros. Com 115 anos de historia, a gravadora britânica necessita uma urgente injeção de capital para recuperar a liquidez.

quarta-feira, fevereiro 10, 2010

A década que mudou o mundo

A década que mudou o mundo

M. Á. BASTENIER – El País - 10/02/2010

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Os Estados Unidos e a China estão condenados a não se entender. O problema é simplesmente de poder. Os Estados Unidos já iniciaram o regresso de seu destino de maior superpotência do século XX, enquanto que a China inicia sua ascensão.

A ‘National Intelligence Unit’ da CIA publicou em novembro de 2008 o documento ‘Tendências globais para 2025’, que prevê a dissolução em câmara lenta da hegemonia norte-americana. O informe não duvida que, para essa data, Washington continuará sendo em termos de capacidade de destruição a primeira potência do planeta, porém um grupo de países emergentes -Índia, Brasil- ou ressurgentes -Rússia- encabeçados pela China mitigará seu poder de coerção. E em 2010 esse horizonte parece muito mais próximo que em 2008. O PIB chinês, de algo mais que dois trilhões de euros, mais que dobrará na próxima década, ficando abaixo apenas do estadunidense, mas superior ao da África, América Latina e Oriente Médio juntos, segundo o Departamento de Energia dos EUA. O PIB dos Estados Unidos, que em 2005, com 8,5 trilhões de euros, era maior que o de toda Ásia, África e América Latina, será 40% menor que o desses três continentes em 2020.

O comportamento da China já reflete semelhantes augúrios. Se nos Jogos de 2008, Pequim apresentou uma ‘première’ mundial tipo fantasia futurista, foi na conferência do clima em Copenhague, em dezembro passado, onde se mostrou com o grau de displicência que corresponde a uma superpotência. Não somente resistiu a todas as pressões de Washington para que asfixiasse suas emissões de dióxido de carbono, mas permitiu-se despachar a funcionários de nível médio para negociar com a equipe de Obama. Igualmente, umas semanas antes as autoridades chinesas haviam negado ao presidente estadunidense acesso direto aos meios de comunicação nacionais, e o presidente Hu Jintao não cedeu em sua intolerância contra qualquer um que ousasse receber o Dalai Lama, o monge que percorre o mundo para promover a independência / autonomia do Tibete. Obama sabe que a China não vai gostar que ele agasalhe o Dalai Lama em Washington, como também não gostará do arsenal que vai vender a Taiwan, quando Pequim necessita traquilidade absoluta para que funcione seu plano de reintegração da ilha pela via indolor da unificação econômica.

A grande plataforma de desentendimento está formada, contudo, pelo Irã e sua pesquisa de poder nuclear. A China conta com a importação de petróleo iraniano através de gasodutos que cruzam a Ásia central, negando a Washington o poder naval de interdição que possui sobre as rotas marítimas. E exporta gasolina a Teerã, que tem muito petróleo, mas pouca capacidade de refino, em substituição da que era vendida pela Índia e pelo Reino Unido, que reduziram seus envios em razão das sanções da ONU. Pequim já investiu mais de 80 bilhões de euros na indústria energética iraniana, dos quais 5 bilhões são para modernização de refinarias. Se a China não aplicasse as sanções internacionais, estas seriam totalmente irrelevantes. O gasto chinês com armamento já é, sem embargo, o segundo do mundo, com 60.000 milhões de euros, embora ainda muito longe dos quase 450 bilhões dos Estados Unidos em 2008. E, ainda que a médio prazo, interesse a Pequim sanar o tumor de Al Qaeda, que encontra na etnia ‘uigur’ caldo de cultivo para o terrorismo, não vai chorar pelas dificuldades que experimente Washington em suas guerras no Oriente Médio e na Ásia central.

A China tem três grandes objetivos para o século: 1. Manter o poder nas mãos do Partido Comunista, que recebeu, desde o ano 2000, 12 milhões de novos membros para aumentar sua capilaridade entre a população; 2. Preservar um altíssimo crescimento, que legitima à cúpula governante diante da opinião pública e lhe permitiu substituir os Estados Unidos como motor contra a crise, injetando bilhões em sua economia, assim como se converteu em investidor e doador favorito, em particular para América Latina e África. 3. E como corolário de todo o anterior, restabelecer o ‘império do meio’ em sua histórica grandeza.

Notáveis são também as realidades que aconselham ambas as potências a manter o ‘statu quo’: desde 2000 seu comércio bilateral quase quadruplicou. Por tudo isso, este não é o fim dos Estados Unidos, nem um anúncio de guerra, mas o começo de uma nova geometria. As grandes potências nunca jogam na mesma equipe.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Morre J.D. Salinger, autor de 'O Apanhador no Campo de Centeio'


Morre J.D. Salinger, autor de 'O Apanhador no Campo de Centeio'

Autor de culto, inovador da literatura americana, viveu afastado da cena pública. Tinha 91 anos

BARBARA CELIS - Nova York – El País - 28/01/2010

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Um personagem misterioso, esquivo com os meios de comunicação, de que se conhecem apenas algumas imagens. Jerome David Salinger, autor de ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ (1951), um romance que marcou milhares de jovens em todo o mundo, faleceu ontem aos 91 anos em New Hampshire (EUA). O jornal ‘The New York Times’, o primeiro a dar a notícia, o qualifica de "recluso literário”.

Escritor "de talento infinito", como lhe definiu Ernest Hemingway após conhecê-lo em Paris durante a II Guerra Mundial, anos antes que publicasse sua obra magna. Salinger levava cinco décadas longe da vida pública, pois após o inesperado sucesso de ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, convertido em best seller no mesmo ano de sua publicação, 1951, decidiu abandonar Nova York e se instalar no campo, na mesma casa em que faleceu. Aproximava-se, assim, do desejo do mordaz protagonista de seu romance, Holden Caufield, que numa passagem do livro afirma: "eu gostaria de encontrar uma cabana em algum lugar e com o dinheiro que ganhe instalar-me ali para o resto de minha vida, longe de qualquer conversa estúpida com as pessoas".
Aquele livro, que vendeu mais de 60 milhões de exemplares em todo o mundo e que ainda vende 250.000 cada ano, dirigia-se aos adultos, porém seu protagonista imediatamente se converteu no anti-herói por excelência de toda uma geração, a dos adolescentes crescidos em plena guerra fria, que viram nas suas críticas ferozes contra o mundo e a moral dos anos cinquenta o reflexo de suas próprias inquietudes e angustias. O enfrentamento entre o mundo dos jovens e o dos adultos refletia também o desejo universal de não crescer, outra cara de um dos muitos sonhos americanos e que de alguma maneira se repete geração após geração – daí seu sucesso universal. O romance, no qual Holden Caufield rememora em primeira pessoa, de um hospital psiquiátrico onde se encontra internado, os dias posteriores a sua expulsão do colégio, se converteu em romance de culto, algo que foi levado ao extremo por um de seus máximos fãs, Mark David Chapman, o homem que assassinou John Lennon em 1980. Chapman chegou a citar o livro do escritor como o lugar onde encontrar a explicação para aquele ato.

Talvez parte da fascinação que desperta ‘O Apanhador no Campo de Centeio’ se deva também pelo clima de mistério que rodeia seu autor. Uma das poucas imagens que se conservam dele o mostram em atitude ameaçadora contra o fotógrafo. Fugiu dos focos e do ruído mediático. Somente concedeu uma única entrevista, em 1974 ao ‘The New York Times’ e por via telefônica, para defender sua vida privada.

"Há uma paz maravilhosa em não publicar. É pacífico. Tranquilo. Publicar é uma terrível invasão da minha vida privada. Gosto de escrever. Amo escrever. Porém, escrevo somente para mim mesmo e para meu próprio prazer", disse Salinger naquela única entrevista.

Uma criança problemática

Igual a Holden, Salinger também foi uma criança problemática expulsa de diferentes escolas. Nascido em Nova York em 1919, começou a escrever em sua adolescência, à luz de uma lanterna sob os lençóis e durante os quatro anos que serviu no exército durante a II Guerra Mundial, sempre esteve acompanhado de uma máquina de escrever. Cedo começou a buscar colaborações em diversas revistas e foi ‘The New Yorker’ (sua revista de referencia, que hoje publica em versão digital todas as suas colaborações) a que identificou seu talento e com a qual firmou um contrato de quase exclusividade. Foi aí onde se pôde ler os primeiros fragmentos de ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, ainda que Holden Caulfield haja visto a luz anos antes numa historia intitulada ‘Last Day of the Last Furlough’, publicada em 1944.

No auge da fama Salinger decidiu afastar-se do mundo. Mudou-se para ‘Cornish’ e fez de sua casa uma espécie de fortaleza inexpugnável. Encontrar-lhe se converteu quase em esporte nacional entre a imprensa, que desde então especula sobre ele e sua estranha vida. Entretanto, três obras suas veriam a luz: ‘Franny and Zooey’ (Franny e Zooey), em 1961, ‘Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour: An Introduction’, em 1963 (Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira e Seymour, uma Introdução) e, sua última peça publicada, ‘Hapworth 16, 1924’, um conto curto publicado nas páginas de ‘The New Yorker’, em junho de 1965.

Contra as edições ilegais e contra o que ele considerava invasões de sua intimidade, Salinger e seus advogados promoveram numerosas ações judiciais. A última, em julho de 2009, proíbe a publicação do livro de um autor sueco cujo protagonista é um Holden Caulfield septuagenário.

Em 2000 sua filha, Margaret, publicou umas memórias intituladas ‘Dream Catcher’ , que permitiu a seus fãs incondicionais descobrir algo mais da vida privada de Salinger: ali se retrata a um homem que vivia em semi-reclusão, consagrado à sua obra e tirânico com sua família. Entregue primeiro ao budismo, logo à Cienciologia e depois à Ciência Cristã: um doente que bebia sua própria urina e estava obcecado com a religião. Margaret chega inclusive a dizer que abusou de sua segunda mulher, Claire Douglas, mantendo-a como uma "virtual prisioneira".

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Madrugada de cervejas e James Joyce


Madrugada de cervejas e James Joyce

Admiradores do escritor se reúnem em Nova York para ler 'Finnegans wake', o livro mais sombrio da história

EDUARDO LAGO – El País - 19/01/2010

Tradução de Antonio de Freitas Jr.
Revisão de Tathyane Freitas

Em um ensaio intitulado ‘O fonógrafo de Joyce’, Jacques Derrida conta que estando em uma livraria de Tóquio ouviu um turista estadunidense exclamar: "Não seria possível reduzir tanto livro que se publica no mundo a somente um?". "Teriam que ser dois", foi a resposta do filósofo francês, "Ulisses e Finnegans wake".

Nem todo mundo estaria de acordo. O consenso, praticamente universal, é que estas duas obras de James Joyce (1882- 1941) ocupam o primeiro posto de duas listas completamente distintas: ‘Ulisses’ (1922), um dos ápices da literatura universal, é o melhor romance já escrito em língua inglesa. Enquanto que ‘Finnegans wake’ (1939), último livro de Joyce, ao qual dedicou 17 anos de sua vida, possivelmente seja o texto literário mais sombrio e impenetrável de todos os tempos.

Entre o final de uma novela e o início da outra transcorreu um ano durante o qual Joyce foi incapaz de escrever o que fosse. Sua imaginação se despertou de repente em 9 de março de 1923. Em uma carta dirigida a sua amiga, a editora Harriet Weaver, datada de um dia após aquela data, o autor anunciava assim o nascimento de sua próxima novela: "Com grande dificuldade, ontem peguei a caneta e consegui escrever duas páginas". Passaram quase duas décadas de entrega absoluta. Um nutrido grupo de admiradores, entre os quais figuravam os escritores mais notáveis de seu tempo, acompanhou com atenção a laboriosa gestação do texto, que foi aparecendo por entregas em diversas publicações sob o título provisório de ‘Obra em curso’. O estranho dos fragmentos que iam aparecendo deixava boquiabertos aos fãs de Joyce, porém ninguém se aventurou a fazer um juízo definitivo até ver a obra publicada. Quando isso ocorreu, em 1939, a reação majoritária foi de rechaço. Das duas uma: ou o grande mestre havia perdido a cabeça e produzido um monstro literário inclassificável, ou talvez Joyce mergulhara numa experiência radical com a linguagem. Fosse como fosse, o texto de ‘Finnegans wake’ era completamente ininteligível.

É justo aqui onde entra em jogo a magia de Joyce: apesar da extrema inacessibilidade de suas propostas narrativas, sucumbem a sua fascinação desde os especialistas até gente com escassa preparação literária. Um artigo publicado em 16 de junho do ano passado no ‘Irish Times’, data em que transcorre a ação de ‘Ulisses’, conhecida como ‘Bloomsday’, revelou que a maioria das pessoas que saía à rua disfarçada como o personagem da novela não havia lido, apesar de muitos haverem tentado. Com ‘Finnegans wake’, cuja dificuldade é muito superior à de ‘Ulisses’, o mistério se agiganta.

Talvez seja em Nova York onde exista a maior tradição em celebrar a obscura novela do escritor irlandês. Quando se publicou a primeira edição em 1939, se armou um cenário de velório (um dos significados do vocábulo ‘wake’ é velório) na livraria Gotham no qual participaram celebridades literárias da época disfarçadas de personagens. Nesta mesma livraria, desaparecida em 2006, se fundou em 1947 a ‘James Joyce Society’, cuja carteirinha número 1 ostentava o nome de T. S. Eliot. E ali mesmo se fundó também, há exatos 20 anos, ‘The Finnegans Wake Society’. Desde então, os componentes da sociedade se reúnem na última quarta-feira de cada mês para ler e comentar a obra. Entre os membros figuram representantes de toda classe de profissões. A primeira leitura do texto, cuja extensão total é de 628 páginas, durou cinco anos. Ao se fazer um balanço, considerou-se que talvez se houvesse procedido com excessiva precipitação. A segunda leitura começou em 1996. Por enquanto estão pela página 344.

Para os ‘finneganianos’ de Nova York, o equivalente a ‘Bloomsday’ é ‘A noite de Earwicker’, em alusão a um personagem do livro assim chamado. Convém indicar que a ação transcorre integralmente de noite. Na quarta-feira 13 de janeiro, aniversário da morte de Joyce, uns 40 ‘finneganianos’ reuniram-se no antigo pub irlandês do sul de Manhattan para celebrar ‘Earwickernight’. Os participantes estabelecem uma animada conversa enquanto dão conta de uma ‘guinness’ ou um uísque antes de se sentarem para jantar em mesas comuns. "Sejamos honestos", diz Charlie Caruso, jornalista da revista Newsweek e do jornal The New York Post durante mais de 50 anos, "o livro é um desastre, porém consegue algo que não consegue nenhum outro: reunir ao seu redor um montão de gente maravilhosa". Ron White, membro fundador, não está de acordo: "Claro que tem sentido, só que não é possível descobri-lo sozinho. Tem que ler o livro em grupo".

A uma indicação de Murray Ross, o presidente, o mestre de cerimônias, um homem de cabelo branco, sorriso perene e gestos pausados, Kevin Gilroy, dá começo à velada. Antes de envolver-se no jogo de charadas, passatempo favorito da família Joyce, o grupo entoa ‘Finnegans wake’, balada tradicional irlandesa que narra a ressurreição de Tim Finnegans, quando derramaram sobre ele uma garrafa de uísque em seu velório, história que evidentemente aparece na novela. Os ‘finneganianos’ cantam ‘a capella’ e não desafinam muito. Concluída esta parte do ritual, se apressam a iniciar o jogo de adivinhações. Ross e Gilroy jogam dentro de um chapéu fundo uns papeis com as frases extraídas do enigmático volume. Distintos voluntários as leem em silêncio e, mediante gestos, tentam transmitir seu conteúdo para a plateia. Resulta assombrosa a facilidade com que, uma a uma, conseguem identificar as frases secretas, até que fica somente a última. Uma garota a retira enquanto a platéia de ‘finneganianos’ observa, em animada tensão. A esposa de Humphrey Earwicker, presença que Joyce envolve num mistério que a faz particularmente atraente, responde pelo nome de Anna Livia Plurabelle. Os sinuosos movimentos que faz com as mãos a encarregada de representar a última adivinhação conseguem transmitir a viagem que efetua pelo tempo a elusiva criatura de ficção. Como se fosse ensaiado, vários presentes se põem de pé de um salto e recitam a uma só voz: "Anna foi, Livia é, Plurabelle será". Impossível não imaginar Joyce sorrindo em sua tumba.

Eduardo Lago, diretor do Instituto Cervantes em Nova York, é membro fundador da espanhola ‘Orden del Finnegans’.

sábado, janeiro 09, 2010

Portugal aprova o casamento homossexual após um intenso debate


Portugal aprova o casamento homossexual após um intenso debate

Sócrates qualifica a reforma de "momento histórico" no "combate à discriminação e à injustiça". O texto não reconhece o direito à adoção.

FRANCESC RELEA - Lisboa – El País - 08/01/2010

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

"É um momento histórico", proclamou o primeiro-ministro português, o socialista José Sócrates. "O mundo da vida venceu o mundo dos preconceitos", disse eufórico Francisco Assis, líder parlamentar socialista. Na tribuna de convidados do Parlamento português, homens e mulheres se abraçavam e faziam o sinal da vitória. Na rua, membros de organizações gays brindavam com champanhe. A Assembléia da República acabava de aprovar, após um intenso debate de quatro horas, a lei proposta pelo governo socialista que permite o casamento civil de pessoas do mesmo sexo. Na bancada dos partidos conservadores havia caras fechadas. Seus argumentos de que o governo apenas distrai o país com temas menores não colou entre suas excelências.

A maioria de esquerda (socialistas, Bloco de Esquerda (BE), comunistas e verdes) funcionou como um rolo compressor na hora de votar o projeto de lei governamental que dá luz verde ao casamento homossexual, mas sem direito à adoção de crianças. O Bloco de Esquerda e os Verdes já haviam apresentado algumas propostas que incluíam este direito, mas foram rechaçadas pelos votos dos partidos conservadores e da maioria socialista. Os comunistas se abstiveram neste ponto.

A batalha para acabar com esta discriminação e reconhecer o direito de adoção dos casais do mesmo sexo continuará, como reconheceram os deputados de todos os partidos de esquerda, até que a lei portuguesa seja equiparável às leis de outros países que já aprovaram a matéria, como a Espanha, por exemplo, onde já está consagrado o direito de adoção.

Sem referendo

O pleno da Assembléia da República rechaçou a celebração de um referendo solicitado por setores conservadores e pela Igreja Católica, que reuniram 92.000 assinaturas. A esquerda votou contra tal pretensão por considerar que põe em dúvida a legitimidade do Parlamento.

A legalização do casamento de pessoas do mesmo sexo divide claramente à sociedade portuguesa, como comprovou sua votação. Foi imposta a disciplina de voto tanto nos grupos de esquerda como de direita, porém, num tema que transcende a ideologia política foram numerosos os deputados que exerceram o direito de explicação de voto. A Lei 119/XI é a primeira aprovada pelo Parlamento este ano, no qual se comemora o centenário da independência de Portugal, aspecto que foi destacado pelo líder do Bloco de Esquerda, Francisco Louçá.

O governo se empenhou a fundo para conseguir a aprovação da controvertida lei e foi o primeiro-ministro o encarregado de apresentar o projeto no debate decisivo. Os maiores aplausos não foram, contudo, para o chefe do Executivo, mas para Miguel Vale de Almeida, do grupo parlamentar socialista e único deputado homossexual declarado, que recordou a repressão sofrida pelos homossexuais ao longo da história. "Respiraremos um ar mais livre, no dia seguinte à aprovação da lei", disse durante sua intervenção.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

O ano de Keynes


O ano de Keynes

JOAQUÍN ESTEFANÍA – El País - 03/01/2010

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Repete-se abundantemente a tese de Keynes de que trás das políticas que se aplicam costuma estarem as idéias de algum economista e que estas resultam mais poderosas do que se pode supor. As praticas dos banqueiros e dos governantes que nos conduziram a esta crise podem remontar-se também às idéias daqueles economistas que prognosticaram que o mais eficaz era os mercados desregulados.

Detrás das políticas de ajudas ao sistema financeiro e dos estímulos à economia real que evitaram que a Grande Recessão se transformasse numa Grande Depressão estavam as idéias de Keynes. Em 2009 se produziu, com os matizes que se requerem, a confluência entre uma lógica intelectual (o keynesianismo) e uma lógica política (Obama), que substituiu o antigo eixo dominante neoliberalismo-neoconservadorismo. Por isso, 2009 foi o ano do regresso de Keynes, mais por necessidade que por uma teorização consciente do que isso supunha: quando estamos no buraco, todos somos keynesianos.

O economista de Cambridge defendia que quando existe um vazio macroeconômico o governo deve substituí-lo e se preparar para sanear o sistema. Porque isto é o que pretendia, não substituí-lo por outro. Keynes não era um revolucionário: tentou salvar um capitalismo que não admirava, porém que considerava a melhor garantia frente a suas alternativas reais, o fascismo e o comunismo. Sua solução de "dinheiro barato, gasto inteligente" para compensar a anemia de investimento privado terá de ser adaptada agora à era da globalização. É impossível aplicar o keynesianismo num só país, e isto é o que tentou fazer o G-20: as mesmas ideias-força levando em conta as peculiaridades de cada país. Substituir a falsa ideologia da eficiência perfeita pela realidade de mercados incompletos, informação assimétrica e competitividade imperfeita.

Quando Keynes defendia as ideias dos economistas como sustentadoras da política, pensava num tipo de cientista social que não é o que mais abunda. Economistas polifacéticos, como ele mesmo. Um possível presente de Ano Novo é reler um dos mais maravilhosos textos de Keynes: Ensaios biográficos. Escrevendo sobre um de seus mestres, Alfred Marshall, diz que o estudo da economia não parece requerer dotes especialmente relevantes. "Não é, por acaso, no aspecto intelectual, uma matéria extremadamente fácil, em comparação com os estudos mais elevados da filosofia da ciência pura? E, contudo, um bom economista, ou simplesmente competente, não é uma autêntica raridade?". Não lhes gostará esta diminuição de expectativas dos economistas de laboratório que pretendem o monopólio da verdade científica. O economista deve possuir uma rara combinação de dotes: "Deve alcançar um nível elevado em distintas direções, combinando capacidades que, muitas vezes, não possui uma mesma pessoa. Deve ser, de algum modo, matemático, historiador, estadista, filósofo; manejar símbolos e falar com palavras correntes (...). Deve estudar o presente à luz do passado e com a vista posta no futuro...". Keynes voltou.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Feliz Ano Novo, Feliz 2010

Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil, 2010

Feliz Ano Novo, Feliz 2010

Praia de Copacaba, Rio de Janeiro, Brasil, 2010

Feliz Ano Novo, Feliz 2010

Praia de Copacaba, Rio de Janeiro, Brasil, 2010.

sexta-feira, dezembro 04, 2009

sexta-feira, novembro 27, 2009

Mil páginas de guerra e amor


Mil páginas de guerra e amor

Antonio Muñoz Molina apresentou sua última novela, 'La noche de los tiempos'

J. R. M. - Madrid – El País - 24/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

"Uma novela de guerra cruzada por uma história de amor ou uma novela de amor na qual irrompe uma guerra. O leitor decidirá o que é em função de sua experiência". Assim descreveu o poeta e acadêmico Pere Gimferrer a última novela de Antonio Muñoz Molina, ‘La noche de los tiempos’ (Editora Seix Barral), no lotado salão de atos da ‘Residencia de Estudiantes’ de Madri, curiosamente o mesmo lugar em que começa a novela.

Antonio Muñoz Molina, como ele mesmo disse, adiantou o dia de Ação de Graças para repassar em 56 tópicos, que terminaram levando-lhe a perder a conta, os cenários, autores, amigos e leituras que há por detrás de um relato de 1.000 páginas cujo pano de fundo é a guerra civil espanhola.

Sua peculiar lista de agradecimentos começou pelo escritor romeno Norman Manea e terminou com Luis Buñuel. O primeiro lhe convidou a dar uns cursos que lhe obrigaram a viajar desde Nova York em trem durante o outono de 2006 na velha estrada de ferro que corre às margens do rio Hudson. Foram nessas viagens quando lhe ocorreu o argumento de ‘La noche de los tiempos’. A Buñuel lhe agradeceu por ‘La Edad de Oro’: "Nesse filme há dois amantes que se buscam e se separam continuamente a todo o momento. Eu os tive presentes ao imaginar meus personagens".

Entre Manea e Buñuel estiveram Pedro Salinas, sua amante e sua mulher, Arturo Barea, Max Aub e Zenobia Camprubí, esposa de Juan Ramón Jiménez. Tampouco faltou o chileno Carlos Morla, cujos diários de 1936 recuperou, não faz tanto tempo, outro dos citados por Muñoz Molina, o poeta Abelardo Linares, responsável pela Editora ‘Renacimiento’. Porém, nem tudo foram nomes e sobrenomes. Entre as atitudes que lhe incentivaram a escrever seu livro o novelista falou da "cafonice sentimental e barata difundida nos últimos anos em torno à República. Essa moda insensata me irritou e me deu muita força".

Antonio Muñoz Molina contra os fanatismos

'La noche de los tiempos' (Editora Seix Barral) é a esperada novela do escritor espanhol que Babelia antecipa com exclusividade.

WINSTON MANRIQUE SABOGAL - El País – Madrid - 16/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

A separação amorosa e as dificuldades que sofre o ser humano pelos fanatismos ideológicos, neste caso da Guerra Civil espanhola, formam a geografia da esperada novela de Antonio Muñoz Molina: ‘La noche de los tiempos’ (Editora Seix Barral). Uma obra que transcorre às vésperas do conflito fratricida que assolou a Espanha entre 1936 e 1939, porém com uma desoladora sombra, cujo primeiro capítulo antecipa Babelia com exclusividade em ELPAÍS.com, como faz toda segunda-feira com o livro mais destacado da semana. A novela chegou às livrarias espanholas dia 19/11.

Os motivos e a essência do livro os explicam o próprio Antonio Muñoz Molina (Úbeda, Jaén, 1956): "Escrevi a novela querendo indagar a maneira como a paixão amorosa transtorna não somente as vidas dos amantes unidos por ela, mas também a vida da gente que está ao redor, os que sem conhecer o deslumbramento sofrem seus efeitos, com frequência incontroláveis e cruéis. E também queria pôr-me na alma de um homem que pertencesse a essa classe de sonhadores pragmáticos que foram tão importantes no meio da grande crise do século XX, e que em muitos casos sofreram a perseguição das duas formas de totalitarismo que se impuseram na Europa, que tinham entre si muitas coincidências, entre elas o desprezo pela consciência individual e por esses ativistas do humanismo liberal aos quais se deve algumas das melhores coisas que temos. Porém, que força pode fazer a consciência racional, o compromisso cívico, quando se desatam os delírios messiânicos e em grande medida criminais das ideologias? Não havia lugar para essas pessoas: nem para Stefan Zweig, nem para Juan Negrín, nem para Clara Campoamor, gente progressista que não acreditava que em nome do progresso estivesse autorizado o crime. As duas separações, a sentimental e a política, são o eixo do meu arquiteto inventado, ainda que espero que também verossímil".

Junto a este homem e a outros seres de ficção convivem pessoas reais, algumas já citadas por Muñoz Molina, além de Moreno Villa e Bergamín. Uma narração através da história desse arquiteto que em outubro de 1936, já longe do conflito fratricida recém desencadeado, e deixando para trás sua mulher e filhos, recorda um amor clandestino e as tormentas sociais e políticas que começaram a envolver seu mundo e a envolver a milhares de pessoas.

Novela de sentimentos, emoções e reflexões em torno do amor, da intolerância e dos fanatismos ideológicos; Muñoz Molina criou o retrato de uma época onde se mostra a maneira como se destrói o país, sua sociedade e os afetos de sua população. Uma viagem à noite dos tempos e à longa sombra do passado, do qual falou o escritor numa entrevista publicada em Babelia sábado 21 de novembro.

"En la cartera que abulta en el bolsillo derecho de su gabardina guarda una foto de Judith Biela y otra de sus hijos, Lita y Miguel, sonriendo una mañana de domingo de hace unos meses: las dos mitades rotas de su vida, antes incompatibles, ahora perdidas por igual".

É o que conta o narrador da novela que se pode ler na edição digital do jornal El País, e que continua assim: "Ignacio Abel sabe que si se miran demasiado las fotografías no sirven para invocar una presencia. (...) Desde hace unos meses uno ya no puede estar seguro de ciertas cosas: uno no sabe si alguien que recuerda bien o a quien vio hace unos días o sólo unas horas está vivo aún. Antes la muerte y la vida tenían fronteras nítidas, menos movedizas...".

Capítulo I de 'La noche de los tiempos', de Antonio Muñoz Molina
El País - Editora Seix Barral

BABELIA 939: En casa de Antonio Muñoz Molina
J. RUIZ MANTILLA / Á. R. DE LA RÚA / P. CASADO
El País - 20-11-2009
O escritor abre as portas de sua casa e relata algumas das curiosidades do proceso de criação de sua última novela 'La noche de los tiempos' (en español)

sábado, novembro 21, 2009

França 'fichou' a Hitler como um "demagogo astuto, não um idiota"


França 'fichou' a Hitler como um "demagogo astuto, não um idiota"

REUTERS - Paris – El País - 21/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Um documento oculto nos Arquivos Nacionais franceses e datado de 1924 descreve Adolf Hitler - então líder do Partido Nacional-socialista Obreiro Alemão - como um "demagogo bastante astuto" e como o equivalente germânico do ditador italiano Benito Mussolini. Contudo, não levanta a voz de alarme sobre a eventual influência de Hitler na realidade europeia dos anos subsequentes.

"Não é idiota, mas um demagogo bastante astuto", afirma a breve e amarelada nota redigida por um espião francês, acompanhada de uma foto de Hitler vestido com paletó e gravata, já com seu habitual bigode e seu cabelo partido de lado. O agente apresenta a Hitler como "o Mussolini alemão" e adverte de que "comanda grupos paramilitares de orientação fascista", mas não recomenda adotar nenhuma medida contra o homem que desencadearia a Segunda Guerra Mundial.

Esta nota é parte de um enorme arquivo que se remonta ao período em que as tropas francesas ocuparam a Alemanha após o final da Primeira Guerra Mundial. O informe sobre Hitler, que logo estará à disposição dos historiadores, estava guardado separado num arquivo de metal construído em 1791 durante a Revolução Francesa, que contém mais de 800 textos, entre os quais se destacam o diário do decapitado rei Luis XVI e de sua esposa, Maria Antonieta. Estes documentos foram posteriormente transportados a Paris em 1930 e estão armazenados desde então nos Arquivos Nacionais franceses. A nota que descreve Hitler está acompanhada de textos similares com referências a seus comparsas, Goebbels, Hermann Goering e Heinrich Himmler, ministro do Interior e chefe da polícia alemã, ao qual se acusa diretamente de "racista".

quarta-feira, novembro 18, 2009

A temperatura global pode subir até seis graus


A temperatura global pode subir até seis graus caso não se tomem medidas urgentes

Um informe do ‘Global Carbon Project’ alerta para as consequências irreversíveis do aquecimento global - A diretora do estudo adverte que Copenhague é "a última oportunidade para estabilizar o clima"

ELPAÍS.com - Madrid - 18/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

A temperatura aumentará seis graus antes do fim do século, segundo um estudo publicado na revista ‘Nature Geoscience’ e realizado pela associação ‘Global Carbon Project’, que contou com a participação de 31 pesquisadores de sete países. O estudo confirma o pior dos cenários em que se movem os prognósticos sobre a mudança climática; até agora, os melhores propósitos dos Estados falam em reduzir a dois graus o aumento da temperatura daqui a 2050 já que situava aqui o umbral do que se considerava realmente perigoso.

Este aumento seria ainda mais grave próximo dos pólos e poderia ter consequências irreversíveis para a Terra. Os cientistas afirmam que a responsabilidade é do aumento de emissões de carbono, provocado, sobretudo pela indústria, pelo transporte e pelo desmatamento. O estudo afirma que até 2002, as emissões cresceram em torno de um ponto anual e a partir daí o aumento chegou até 3%.

O estudo põe de relevo a grande importância da próxima conferência de Copenhague, onde a comunidade internacional deve firmar um novo acordo para tratar de frear a mudança climática. Corinne Le Quéré, diretora do estudo da Universidade de East Anglia, assegurou que foi provado um aumento das emissões em 29% entre 2000 e 2008. Os cientistas prevêem que haverá pequenos retrocessos este ano, porém mais aumentos a partir de 2010.

"A Conferencia de Copenhague este mês é a última oportunidade de estabilizar o clima", advertiu a professora Le Quéré. "Se o acordo é demasiado fraco ou não se respeitam os acordos não vamos ver um aumento de 2,5 ou 3 graus: vai ser 5 ou 6, porque esse é o caminho por onde vamos", advertiu. O estudo também revela que pela primeira vez se detectou uma falha na capacidade da Terra para absorver dióxido de carbono, provavelmente devido ao aumento de temperatura.

quarta-feira, novembro 11, 2009

"Algo único da Espanha"


"Algo único da Espanha"

Carlos Saura filma 'Flamenco, flamenco' em Sevilha.

SANTIAGO BELAUSTEGUIGOITIA - Sevilha – El País - 11/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Vestida de vermelho e com uma manta sobre os ombros, a bailarina Sara Baras é o centro dos olhares de dezenas de pessoas. Três guitarras e um violino põem música ao movimento de Baras, que sapateia rodeada por grandes reproduções de quadros de Julio Romero de Torres. A câmera segue sua dança. Os sapatos vermelhos assenhoreiam-se do cenário. O som das palmas se faz mais alto. E soa um grito que corta este momento de gravação do filme ‘Flamenco, flamenco’, do diretor Carlos Saura, no ‘Pabellón del Futuro’, na ‘Cartuja de Sevilha’.

Quatorze anos após a gravação do filme ‘Flamenco’, Saura voltou a submergir na arte espanhola por excelência junto ao diretor de fotografia Vittorio Storaro e o assessor musical Isidro Muñoz. "Há uma quantidade de talento surpreendente. Há um florescimento poderosíssimo do flamenco em Andaluzia. Por isso a seleção de artistas foi muito difícil de fazer", afirmou Saura. "O flamenco interessa cada vez mais. Não sou um grande especialista em flamenco. Sou um apaixonado pelo flamenco. É algo único que temos na Espanha. O mais parecido ao jazz. É uma mescla de culturas. É, ademais, uma música viva, o que a diferencia de outras que não avançaram. O flamenco se enriquece com novos aportes. Está num momento vigoroso, vivo e fantástico", comentou o diretor de ‘La caza’.

‘Flamenco, flamenco’, cuja gravação acaba dia 13 de novembro, estreia em setembro de 2010. Com um orçamento de 4,2 milhões de euros, o filme conta com a participação de cantores como José Mercé, Estrella Morente, Miguel Poveda, Niña Pastori e Arcángel, entre outros. Além de Sara Baras, bailam no filme Eva Yerbabuena, Israel Galván e Farruquito. Guitarristas como Paco de Lucía, Manolo Sanlúcar e Tomatito traçam um quadro artístico que se completa com David Dorantes e Diego Amador ao piano.

Artistas que são a historia do flamenco, como José Mercé, Sanlúcar e Paco de Lucía, conformam o eixo do filme. São o tronco que sustenta o aporte dos jovens que não estiveram no filme anterior (Poveda, Morente, Baras, Galván, Eva Yerbabuena). Essa soma de procuras se estrutura em torno a um ciclo vital que vai do nascimento à morte através dos palcos flamencos. Dessa forma, começa com a ‘nana flamenca’ e as influências das músicas andaluza e paquistanesa até chegar ao canto sério e ao sentimento mais puro. Em seguida, vem o renascimento que trazido pelos jovens intérpretes. Paralelamente, há outra viagem visual baseada na luz e nas cores. "São os melhores artistas que há neste país e os melhores do mundo", liquidou Saura.

terça-feira, novembro 10, 2009

Berlim celebra a vitória da liberdade

Berlim celebra a vitória da liberdade

Merkel: "A liberdade não surge sozinha, há que lutar. Juntos podemos tirar o Muro" - Sarkozy, Medvédev, Brown e Clinton se dirigiram à multidão entre ovaciones

JUAN GÓMEZ - Berlim – El País - 10/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Às oito e meia da tarde de ontem (09/11), o líder do movimento Solidariedade e posteriormente Presidente da Polônia, Lech Walesa, empurrou junto a Miklos Nemeth, primeiro-ministro húngaro em 1989, a primeira peça do dominó gigante que simbolizava o antigo muro de Berlim. Foi o auge da grande festa da liberdade que celebrava ontem sua queda 20 anos atrás. Os aplausos diante da Porta de Brandeburgo, símbolo da divisão da cidade, eram entusiastas. Dezenas de milhares de pessoas aguentavam com impermeáveis e guarda-chuvas a forte chuva e temperaturas abaixo de zero de capital alemã.

Convidados de 30 países participaram da comemoração, entre eles os representantes das potencias aliadas que ocuparam Berlim, após a II Guerra Mundial: o presidente russo, Dmitri Medvédev; o da França, Nicolas Sarkozy; o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e a secretaria de Estado dos EUA, Hillary Clinton.

A chanceler Angela Merkel presidiu a cerimônia. Tampouco faltaram protagonistas da época, como o Chefe de Estado da desaparecida União Soviética Mikhail Gorbachev, sentado na tribuna junto ao então ministro alemão de Assuntos Exteriores, Hans-Dietrich Genscher. O presidente alemão, Horst Köhler, se referiu ao 9 de novembro de 1989 como a data de "uma mudança de época para a liberdade e a democracia". O mundo, e nisso coincidiram todos, "mudou aquele dia".

A festa da liberdade começou em Berlim às sete da tarde. O centro da cidade estava adornado pelo falso muro de mais de mil peças de dominó feitas de cortiça branca, de dois metros e meio de altura, cada uma pintada de forma diferente. Sobre as peças primavam as mensagens de reconciliação e de alegria, mas também havia algum logotipo publicitário de empresas patrocinadoras.

É a lembrança da vitoria do sistema capitalista, que teve lugar neste mesmo dia há 20 anos. Ademais, os discursos de Merkel e do Prefeito-governador de Berlim, Klaus Wowereit, assim como as palavras do diretor da Staatskapelle, a orquestra da ópera estatal de Berlim, Daniel Barenboim, recordaram o acontecimento fúnebre cujo aniversario se recordou também ontem: o ‘pogrom’ anti-semita conhecido como a ‘Noite dos cristais quebrados’, em 1938, quando a turba nazista começou uma espiral de violência que culminaria no Holocausto. A Staatskapelle tocou para relembrar ‘Um sobrevivente de Varsóvia, do compositor judeu austríaco Arnold Schoenberg. "A liberdade", disse Merkel, "não surge sozinha, há que lutar por ela". Merkel, que cresceu na antiga República Democrática Alemã (RDA) sob "a ditadura do proletariado", agradeceu às pessoas que "lutaram há 20 anos" pela abertura do Muro, em Berlim e em outros países da órbita soviética como Polônia ey a antiga Checoslováquia. "Juntos pudemos tirar o Muro", concluiu, "agora está nossa mão superar as fronteiras de nosso tempo; se acreditamos nisso podemos conseguir". Merkel concluiu: "Para mim, foi um dos dias mais felizes da minha vida".

Barenboim havia aberto a festa com peças de Wagner, Schoenberg, Beethoven e Friedrich Gold, e anunciou uma surpresa: Plácido Domingo cantou Berliner Luft (O ar berlinense) do compositor de Berlim Paul Lincke, uma espécie de hino popular da cidade. O público compartilhou a alegria com a tribuna, onde Merkel, Genscher e os demais convidados demonstraram sua alegria batendo palmas. O público pediu a Plácido Domingo um bis, que concedeu junto à ‘Staatskapelle’. A satisfação dos berlinenses era palpável.

Antes que fizesse Merkel, falaram Dmitri Medvédev, Nicolas Sarkozy, Gordon Brown e Hillary Clinton, que apresentou uma felicitação gravada em vídeo do presidente dos EUA, Barack Obama. Obteve uma grande ovação.

O distrito político da capital alemã estava tomado. O Muro era ontem de gesso e pintado, porém os centos de policiais eram de verdade. Às seis e meia da tarde, as comitivas oficiais impediam a passagem dos cidadãos. Entre divertidos e curiosos, milhares de berlinenses especulavam nas calçadas sobre quem podia ocupar cada veículo. "Aí vai o russo, como se chama?", se perguntava Christiane, berlinense do Oeste. O desfile impressionava. Quando a caravana se deteve, um grupo de pessoas permanecia ainda junto a um furgão com dois atiradores de elite da policia, com os olhos postos nas miras telescópicas. "Serão de visão noturna", lhe dizia um homem a seu boquiaberto filho. Não muito longe, na ‘Luisenstrasse’, Marius e Catarina, nascidos em 1991, celebravam a queda do Muro refugiados com uma garrafa de sidra. Vivem em Potsdam, na antiga Berlim Leste. Ela é do Oeste; ele do Leste. Diferenças? "Alguma haverá, porém é coisa de nossos pais". O Muro somente conhecem através dos livros da escola.

quinta-feira, novembro 05, 2009

Vinte anos depois do Muro a historia continua


Vinte anos depois do Muro a historia continua

MIKHAIL GORBACHEV – El País - 05/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

Vinte anos se passaram desde a queda do Muro de Berlim, um dos símbolos vergonhosos da guerra fria e da perigosa divisão do mundo em blocos e esferas de influencia enfrentadas. O período atual nos permite observar aqueles acontecimentos e a formar uma opinião menos emocional e mais racional.

A primeira observação otimista é que o anunciado ‘fim da Historia’ em absoluto não se produziu. Porém, tampouco chegou o que os políticos de minha geração confiavam sinceramente que ocorreria: um mundo no qual, com o fim da guerra fria, a humanidade pudesse finalmente esquecer a aberração da corrida armamentista, dos conflitos regionais e das estéreis disputas ideológicas e entrar numa sorte de século dourado de segurança coletiva, uso racional dos recursos, fim da pobreza e da desigualdade e restauração da harmonia com a natureza.

Outra consequência é a interdependência de importantes aspectos que têm a ver com o sentido da existência da humanidade. Esta interdependência não se dá somente entre os processos e fatos que ocorrem nos diferentes continentes, mas também no vínculo entre as mudanças nas condições econômicas, tecnológicas, sociais, demográficas e culturais de milhares de milhões de pessoas. A humanidade começou a se transformar numa civilização única.

Ao mesmo tempo, a desaparição da chamada cortina de ferro e das fronteiras justapôs não somente àqueles países que até há pouco representavam diferentes sistemas políticos, mas também a diferentes civilizações, culturas e tradições.

Os políticos do século passado podem estar orgulhosos de haver evitado o perigo de uma guerra termonuclear. Contudo, para milhões de pessoas o mundo não se converteu num lugar mais seguro que antes. Inumeráveis conflitos locais e guerras étnicas e religiosas apareceram no novo mapa da política mundial. Uma prova evidente do comportamento irracional da nova geração de políticos é o fato de que os orçamentos de defesa de muitos países, grandes ou pequenos, são agora maiores que durante a guerra fria, assim como os métodos repressivos ainda são a forma geral para resolver conflitos e um aspecto comum e corrente das atuais relações internacionais.

Desafortunadamente, ao longo das duas últimas décadas o mundo não se tornou um lugar mais justo: as disparidades entre a pobreza e a riqueza inclusive se incrementaram, não somente nos países em desenvolvimento, mas também dentro das próprias nações desenvolvidas. Os problemas sociais da Rússia, como em outros países pós-comunistas, são uma prova de que o simples abandono de um modelo defeituoso de economia centralizada e de planificação burocrática não é suficiente para garantir tanto a competitividade do país numa economia globalizada, como o respeito pelos princípios da justiça social.

Devem-se acrescentar novos desafios. Um é o terrorismo, convertido na "bomba atômica dos pobres", não somente em sentido figurado, mas em sentido literal. A incontrolada proliferação das armas de destruição massiva, a competição entre os antigos adversários da guerra fria para alcançar novos níveis tecnológicos na produção de armas e a urgência de novos pretendentes em desempenhar um papel protagonista num mundo multipolar incrementa a sensação de caos que está afligindo à política global.

A verdadeira conquista que podemos celebrar é o fato de que o século XX marcou o fim das ideologias totalitárias, em particular as inspiradas em crenças utópicas. Porém, rápido tornou-se evidente que também o capitalismo ocidental, privado de seu velho adversário histórico e imaginando-se a si mesmo como o indiscutível ganhador histórico e a encarnação do progresso global podem conduzir a sociedade ocidental e o resto do mundo a um novo e abominável beco sem saída.

Neste quadro, a erupção da atual crise econômica revelou os defeitos orgânicos do presente modelo ocidental de desenvolvimento imposto ao resto do mundo como o único possível. Assim mesmo, demonstra que não somente o socialismo burocrático, mas também o capitalismo ultraliberal tem a necessidade de uma profunda reforma democrática e da aquisição de um rosto humano, uma sorte de ‘Perestróica’ própria.

Hoje em dia, enquanto deixamos para trás as ruínas da velha ordem, podemos pensar em nós mesmos como ativos participantes do processo de criação de um mundo novo. Muitas verdades e postulados considerados indiscutíveis (tanto no Leste como no Oeste) deixaram de sê-lo. Entre eles estavam a fé cega no todo poderoso mercado e, sobretudo, em sua natureza democrática. Havia uma arraigada crença de que o modelo ocidental de democracia podia ser difundido mecanicamente em outras sociedades cujas experiências históricas e tradições culturais fossem diferentes. Na situação presente, inclusive um conceito como o de progresso social, que parece ser compartilhado por todos, necessita uma informação mais precisa e uma redefinição.

Mikhail Gorbachev, líder da União Soviética no período 1985/1991, é Premio Nobel da Paz 1990 e presidente do World Political Forum (WPF). © IPS (Inter Press Service).

terça-feira, novembro 03, 2009

A justiça argentina coloca o ditador Bignone no banco dos réus


A justiça argentina coloca o ditador Bignone no banco dos réus

O general repressor é acusado de destruir os arquivos do regime militar

ALEJANDRO REBOSSIO - Buenos Aires – El País - 03/11/2009

Tradução de Antonio de Freitas Jr.

O último ditador da Argentina, Reynaldo Bignone (1982-1983), foi submetido ontem (02/11), pela segunda vez em sua vida, a julgamento pelos sequestros, torturas e desaparições de presos políticos. Bignone foi o general que assumiu o poder depois da derrota argentina na guerra contra o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas e quem não teve outra opção que abrir a transição democrática. Contudo, no meio de tudo isso, destruiu os arquivos sobre as detenções e assassinatos cometidos pelo regime militar (1976-1983) e promulgou uma falida lei de anistia para os responsáveis pelo terrorismo de Estado que se exerceu contra guerrilheiros, políticos, militantes sociais e de direitos humanos, sindicalistas, empresários e religiosos. Seu governo foi o primeiro a reconhecer que os desaparecidos estavam mortos, ainda que contou "somente 8.000", frente aos 30.000 que denunciavam as organizações de direitos humanos.

O julgamento que começou ontem (02/11) no Tribunal Oral Federal número 1 de ‘San Martín’, um subúrbio do noroeste de Buenos Aires, é o segundo em que se julga por crimes cometidos nos centros de detenção clandestina que operavam no regimento de ‘Campo de Mayo’ e por onde passaram 5.500 pessoas. Bignone, de 81 anos, que cumpre prisão preventiva domiciliar, será julgado junto a outros sete octogenários integrantes das forças de segurança por 56 delitos de invasão de domicílio, sequestros, torturas, desaparições e homicídios entre 1976 e 1978. Antes de ser presidente de fato da Argentina, Bignone foi o segundo comandante do Comando de Institutos Militares, em ‘Campo de Mayo’, em 1977.

No banco dos réus se sentarão três militares que já foram condenados pelo mesmo tribunal em agosto, no que foi o primeiro julgamento da chamada ‘megacausa de Campo de Mayo’. Trata-se do comandante de Institutos Militares, Santiago Riveros, e dos agentes de segurança Fernando Verplaestsen e Jorge García, que foram sentenciados a cadeia perpétua, a 25 e 18 anos de prisão, respectivamente. Também serão julgados neste novo julgamento os militares Carlos Tepedino e Eugenio Guañabens Perelló, além do policial Germán Montenegro.

Uma das vítimas dos delitos apontados é o operário Héctor Ratto, que pertencia ao comitê de empresa da Mercedes-Benz. A automotora alemã, como outras empresas multinacionais e argentinas, é acusada de denunciar ao regime os seus empregados com militância sindical, que acabaram desaparecidos.

Ao regressar a democracia, durante o governo de Raúl Alfonsín (1983-1989), Bignone foi julgado culpado pelos delitos cometidos no ‘Campo de Mayo’, porém não foi preso graças às leis de perdão que promoveu o líder radical para diminuir as condenações da junta militar que encabeçou o golpe de Estado de 1976. Essas leis foram declaradas inconstitucionais pela Corte Suprema em 2005. Proximamente, também deverá comparecer como acusado em outros dois julgamentos pelas desaparições de jovens que cumpriam o serviço militar e de médicos e enfermeiros que supostamente atendiam a guerrilheiros.

Após a frustrada tentativa de recuperar as Malvinas, que custou a vida de 900 militares de ambos os lados em dois meses de guerra, as Forças Armadas da Argentina, debilitadas também pelas denuncias internacionais sobre a repressão ilegal e a crise econômica latino-americana, designaram a Bignone como encarregado da transição à democracia. Em seu primeiro discurso público prometeu eleições para princípios de 1984, que finalmente foram adiantadas para outubro de 1983 e nas quais venceu Alfonsín. O Congresso eleito pelo povo anulou a anistia de Bignone.