quinta-feira, junho 30, 2005

A nova família


La libertad de amar significa
que los Estados no tienen
para qué mezclarse
en los sentimientos y
emociones espirituales
de los humanos.

Luis Jiménez de Asuá,
em “Libertad de amar
y derecho de morir”, 1929.




A Declaração de Independência dos EUA, de 4 de julho de 1776, apesar de toda a carga de conservadorismo escravocrata, deu ao mundo uma esperança política sentimental de que cada pessoa possui o inalienável direito de buscar sua felicidade, ao afirmar: “Consideramos de per si evidentes as verdades seguintes: todos os homens são criaturas iguais; que são dotados pelo seu Criador com certos direitos inalienáveis; e que, entre estes, se encontram a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.

A maneira pela qual os seres humanos buscam a felicidade, desde que não violem os direitos dos demais, compete exclusivamente a cada um. Aos demais cabe tão-somente respeitar as opções tomadas por alguns e, na medida da inteligência e da educação recebida, conviver com a diversidade social. Dentro da democracia, a busca da felicidade deve ocorrer dentro da tolerância e do respeito à diversidade. O casamento, a família, o número de filhos, o divórcio e a opção sexual são escolhas que devem ser tomadas por cada um, de maneira individual, ou em consonância com seu cônjuge, quando convém. Entretanto, tais possibilidades devem ser disponibilizadas pelo Estado.

Como afirmou José Antonio Martín Pallín, magistrado do Supremo Tribunal espanhol, “a diversidade abarca as inumeráveis facetas do ser humano. Seus sentimentos, crenças, ideais, suas inclinações emocionais e sua forma de exteriorizá-las através da sexualidade são absolutamente respeitáveis se de verdade se acredita que o homem está acima dos dogmas e imposições dos que compartem suas tendências. A tolerância é um sinal diferencial da capacidade racional do ser humano. O anátema, ou a desqualificação, é o produto dos instintos mais degradantes da pessoa”.

A família vem sofrendo profundas transformações desde o século XX, fruto da conquista de espaço pela mulher trabalhadora e da liberdade sexual, principalmente. As velhas famílias patriarcais tendem a desaparecer, até mesmo nos grotões mais esquecidos do nordeste brasileiro, dando vazão a novas estruturas familiares. Para o filósofo Fernando Savater, as mudanças na estrutura familiar provem sobretudo da “incorporação da mulher ao mercado de trabalho, das medidas de controle da natalidade, do divórcio e dos preços dos imóveis residenciais”. Esta nova família que desponta tem se destacado, nos grandes centro urbanos, como famílias “monoparentais”, ou seja, mães solteiras ou pais solteiros. Ademais de casais de homossexuais que desde os anos sessenta reivindicam a igualdade de direitos com os heterossexuais, inclusive o direito ao matrimônio civil.

Esta semana, Espanha e Canadá aprovaram o matrimônio civil de pessoas do mesmo sexo, vindo assim a juntar-se a Holanda e Bélgica, que, respectivamente, desde abril de 2001 e fevereiro de 2003, possuem a matéria legislada. Nestes países, matrimônio é a união civil de duas pessoas, sem importar o gênero. Outros países, como a Dinamarca, Alemanha, França, Noruega, Suécia e Portugal, possuem legislação para regulamentar a união estável homossexual, sem contudo mencionarem expressamente a palavra “matrimônio”.

No caso espanhol, país tradicionalmente católico, a luta pela igualdade dos direitos civis é uma conquista socialista. Além de instaurar legalmente a possibilidade de união homossexual, a Espanha reformou sua lei de divórcio, de 1981, para agilizar as separações, e permitiu a adoção de crianças por matrimônios homossexuais. Em reposta, a direita mais conservadora juntou-se com a Igreja católica, que aportou dezoito bispos, numa manifestação contra a ampliação dos direitos civis na Espanha.

A hipocrisia corre solta nos campos do conservadorismo. Afinal, depois de ser condenada a pagar milhões de dólares nos EUA, a título de indenização pelos abusos cometidos contra menores por seus clérigos, a Igreja católica protesta contra o fato de que um Estado laico amplie os direitos civis a uma significativa parcela de cidadãos que trabalham, pagam impostos e contribuem economicamente para a riqueza do país. Para estes ‘senhores’, é melhor que as crianças cresçam em orfanatos, privadas de carinho e cuidados necessários, que vivam em um ambiente individualizado e protetor, no qual suas necessidades básicas sejam supridas num ambiente familiar.

O ideal é que uma criança cresça numa família com um pai e uma mãe. Entretanto, diante da realidade das FEBEMs e dos orfanatos superlotados, não parece um abuso a adoção de órfãos por parte de um solteiro ou mesmo por uma nova família, formada por dois pais ou duas mães. Qualquer tipo de família é melhor que família nenhuma, desde que por família se entenda o porto seguro no caminho do amor e da proteção de uma criança.

quinta-feira, junho 23, 2005

O Pianista inglês


All these years I have been trying
to unearth what she was handing me with that look.
It seemed to be contempt.
So it appeared to me.
Now I think she was studying me.
She was na innocent, surprised at something in me.
I was behaving the way I usually behave in bars,
but this time with the wrong company.
I am a man who kept the codes of my behaviour separate.
I was forgetting she was younger than I.

Michael Ondaatje,
em "The English Patiente", p. 154.



Que o Império britânico foi uma grande civilização, ninguém tem a menor sombra de dúvida. Pais dos EUA e filhos da Europa, nas palavras do historiador britânico Timothy Garton Ash, os britânicos realmente possuem uma maneira muito, digamos, fleumática, de encarar o mundo. Agora, é pra partir-se de rir a mais nova invenção da imprensa popular britânica - formada por um grupo de tablóides sensacionalistas que adoram divulgar escândalos da família real e criar fantasias que preencham o vazio existente no imaginário de gordas donas de casa menopausicas, a que se renderam inclusive o prestigioso “The Times” e o não menos "The Guardian".

E não foi de outra forma que os tablóides britânicos encararam nos últimos meses a noticia da descoberta de um misterioso pianista amnésico, que sem dizer uma palavra, tornou-se o centro de todas as manchetes. Os britânicos lançaram-se no desafio de descobrir a verdadeira identidade do “Homem do piano”, como denominou a imprensa.

A polícia encontrou no passado mês de abril, numa estrada do litoral Sudeste da Inglaterra, na ilha de Scheppey, no condado de Kent, um jovem molhado, andando a esmo, padecendo de amnésia, totalmente mudo. O jovem, aparentando idade entre 20 e 30 anos, estava bem vestido, como se fosse a um concerto, com um elegante e caro terno negro, ensopado de água do mar. Seu terno teve as etiquetas arrancadas, bem como todas as demais etiquetas de suas roupas. Até mesmo a marca de seus sapatos foi raspada. Não há maneira de identificar-lhe.

O jovem permaneceu completamente mudo. Somente quando lhe foi dado papel e caneta, este desenhou um enorme piano de cauda. Como havia um piano no hospital, foi conduzido até o mesmo, passando horas e horas ao piano, tocando canções clássicas e populares, melancolicamente. Desta maneira, é através da música tocada no piano que jovem se comunica com o mundo. E continua assim, a tocar piano, internado no West Kent National Heath Service Trust... na seção psiquiátrica.

Acontece que seu silêncio despertou a curiosidade dos britânicos, que lutam entre futricas e pistas para desvendar o mistério do “Homem do piano”, que segundo especialistas, é uma verdadeira virtuose do instrumento, interpretando de Tchaikovsky a Beatles.

Alguns jornais disponibilizaram um numero de telefone para receber pistas sobre a identidade do “Homem do piano”. Mais de mil pessoas já ligaram dando possíveis informações sobre o misterioso pianista inglês, que continua sob investigação. Até agora, as pistas não deram em nada. Ele já foi confundido com um roqueiro tcheco atacado por doenças mentais, depois de descartada a pista de que era um músico andarilho francês que trabalhou nas ruas de Roma.

O cinema já se interessou pelo caso deste jovem amnésico músico, que segundo os médicos sofreu “um colapso nervoso que comprometeu sua memória e sua capacidade de comunicação”. A estória realmente se parece muito com o enredo do filme “Shine - Brilhante”, que conta a vida do pianista australiano David Helfgott, que depois de um colapso nervoso, superou sua profunda perturbação psicológica e retornou a tocar. O filme valeu um Oscar ao ator Geoffrey Rush pela interpretação do pianista australiano mentalmente perturbado, em 1996.

Por outro lado, o caso do “Homem do piano” lembrou-me o enredo do filme “O Paciente Inglês”, (The english patient, EUA, 1996), Oscar de melhor filme, também, em 1996. Não pelo piano em si, mas pelo fato de que em ambas as estórias seus personagens perdem a memória, ou dizem que a perderam. E se entrelaçam entre mistérios e lembranças de um passado que já não podem voltar, apesar de todo o esforço para reavivá-lo. Os fragmentos da memória são peças frágeis no vendaval da vida.

Como tudo na vida não é exatamente como se apresenta - basta lembrar que Os Três Mosqueteiros eram na verdade quatro - “O Paciente inglês” na verdade era o conde húngaro Lazslo de Alamsy, interpretado por Ralph Fiennes, um homem moribundo vitima de um acidente aéreo e da morte do seu grande amor, Katharine Clifton, interpretada por Kristin Scott Thomas, casada com um colega da Real Sociedade Geográfica inglesa. O livro “O Paciente inglês”, que inspirou o filme, foi escrito por Michael Ondaatje.

Bem que poderia aparecer, também, uma enfermeira canadense de nome Hana , linda como Juliette Binoche, pra cuidar do “Homem do piano”. A vida imita a arte ou a Arte imita a vida? Quem vai saber...

terça-feira, junho 14, 2005

A noite que nunca tem fim


Lembro que
olhando pela porta do bar
vimos a indecisa aurora
que animava as ondas.
Erguemo-nos, saímos.

Rubem Braga,
em “Da Praia”,
junho de 1946


Trago dentro do coração,
Como num cofre que se não
pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi
através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto,
é pouco para o que eu quero.

Fernando Pessoa,
como Álvaro de Campos,
Em “Passagem das Horas”,
22 de maio de 1916.


Já faz algum tempo que li na revista de domingo do jornal espanhol “El País” uma matéria sobre os melhores bares do mundo.

E se me lembro bem, um dos dez melhores bares do mundo estava numa ilha perdida, no meio do Atlântico Norte. Mais precisamente, refiro-me a revista estadunidense Newsweek haver considerado o Café Sport, na ilha de Faial, nas Açores, um dos dez melhores bares do mundo. Com isso, não imaginem que é um super bar, é apenas um bar muito simples, perdido numa ilhota no meio do nada. Mas que os marinheiros que cruzam o Atlântico param para tomar um trago, aliviar suas dores, escapar um pouco da solidão marinha e lembrar de casa.

Sobre a magia do Café Sport, o escritor catalão Enrique Vila-Matas e o italiano Antonio Tabucchi já escreveram muita coisa, inclusive antes de conhecê-lo pessoalmente. Antonio Tabucchi, escreveu sobre esse bar num livro chamado “Dama de Porto Pim”, afirmando ser um local intermediário entre uma taverna, um ponto de encontro, uma agencia de informação e uma agencia de correios. Durante a II Guerra Mundial, o Café Sport foi um ninho de espiões, algo parecido ao Rick's American Café, do filme Casablanca. Do seu mural de recados é possível encontrar de tudo, “desde notas, telegramas, cartas de amor, mensagens de náufragos da vida” como escreveu o escritor catalão Enrique Vila-Matas, que transformou esse mural de madeira em protagonista do seu conto “Recuerdos inventados”.

Da minha parte, já conheci alguns bares dignos de nota, não por seu luxo ou distinção de seus clientes, mas pela mágica e fantástica atmosfera envolvente que rodeia esses lugares. Alguns bares são pura extensão de nossas residências, tal o grau de felicidade e bem-estar que proporcionam aos seus paroquianos. Apesar de poder dizer que nunca vi meu pai num bar, pois ele só consegue tomar uma cerveja na casa dos seus pouquíssimos amigos, de preferência o Moreirão e o Moreirinha. Ou em casa, com a mamãe ao lado. De maneira que minhas aventuras pelos bares da vida foram algo que nasceram da minha própria necessidade de poder falar pelos cotovelos e de afogar minha dor de viver.

O primeiro bar que entrou na minha vida, ou melhor dizendo, o primeiro boteco, foi o já inexistente Bar do Tota, que ficava quase na esquina da Rua Olavo Bilac com 13 de maio, em Teresina, onde eu e meus colegas de Diocesano começamos nossos primeiros tragos. Ficava ao lado do Bar do Gaudêncio, que não deixava a gente entrar com o uniforme do Diocesano para não ter problemas com os padres, dizia ele. Mas o Bar do Tota era algo humilde, muito simples mesmo, onde apenas se podia tomar uma cerveja gelada e comer um dos piores pasteis de carne que já comi na minha vida. Mas, naqueles anos finais da década de 80 do século passado, era um paraíso para qualquer um que estivesse entrando na adolescência etílica. Recordo, agora, que passei minhas férias de julho de 1986 naquele bar, em companhia do historiador Pedro Vilarinho, o piauiense que mais entende de mulher, que naquela época ainda não entendia tanto sobre o tema, e vivia na casa de seus pais, há apenas uma quadra daquele mágico bar. Naquelas férias de julho de 1986, sentamos na calçada do bar, olhando as estrelas, conversando com os amigos do local e imaginando mil fantasias que o futuro nos traria.

O tempo foi passando, a vida adulta com suas tristes preocupações foi chegando, mas como era bom escutar as músicas do Roberto Carlos e dos The Fevers naquele barzinho cheio de amigos. Nossos maiores problemas eram o vestibular e o coração, que por essa época já tinha sido ferido por alguma menina. Bons amigos encontrei ali, alguns pra toda vida como o Marconi, o André e o Fernando.

Depois apareceu o Paralelo 33, na João XXIII, e então eu já vivia em Recife. Mas era só botar os pés na terrinha pra reunir-me com um monte de verdadeiros boêmios de outrora naquele ambiente que cheirava a churrasco na brasa. Nessa época ainda queríamos salvar o Brasil e encontrávamos solução para todos os seus problemas. Já era o tempo da universidade e as novas leituras faziam nossas cabeças. O James estava na CESVALE e o Wellington ainda fazia Comunicação Social. Ainda estávamos na década de 1980 e a redemocratização do país trouxe a Constituição Federal de 1988, que alimentava nossas esperanças no futuro.

Também havia nessa época de universidade o Agaves, do Paulinho, que com a Geovana e uma mesa cheia de gente interessante amanhecemos varias vezes em ritmo de café da manhã no Lanchinho. E, é claro, ainda existia o Nós e Elis, todo um marco na noite boêmia teresinense daquele tempo de esperança e iniciação noctívaga, onde o grande Clidenor era um rei. E, para fazer o registro, havia a Quinta Cultural da FUFPI, onde Flavio Castro tocava The Cure e a meninada bebia todas as caipirinhas que a mesada conseguisse pagar.

Depois veio o tempo de começar a trabalhar e o Café Viena, também em Teresina, entrou na minha vida, para sempre. Creio, sinceramente, que o Café Viena foi o bar que mais freqüentei na minha vida. Lá sempre encontrava o Ruszel e o Fernando, grandes representantes da Turma do Jamais. Como era sensacional chegar naquele lugar e o garçom James pedir ao Wolfie pra botar Don't stop me now, do Queen, enquanto me servia uma vodka com soda. Até hoje, sempre que regresso à terrinha, vou tomar uma vodka com soda no balcão do Café Viena, para admirar seu ambiente, e, principalmente, para me sentir em casa com meus pensamentos naquele lugar sagrado.

Ao El Asesino, na Espanha, me levou um velho amigo com quem não falo há anos, o Juan Carlos. Encantei-me na primeira visita. O El Asesino durante aqueles anos de fim do século XX era uma mistura de todas as tribos progressistas e libertárias que conviviam na Espanha. Professores, imigrantes, músicos, estudantes de doutorado, jovens bolsistas estrangeiros, estudantes Erasmus. Havia de tudo, até jovens babacas do direitista Partido Popular espanhol. Lembro de todos os “canadians” que me serviu o poeta Pepe Txontas, proprietário do Asesino. Depois soube que um grupo de jovens fascistas tentou invadir e quebrar o bar, provando mais uma vez que a imbecilidade humana não tem fundo. A verdade é que nunca consegui escrever sobre o Asesino...

Café Manon, em Valencia, Espanha, deveria ser considerado um local mais sagrado que muito templo que existe no mundo. Com suas poltronas acolchoadas ao redor das mesas baixinhas e o forro de madeira escura, passei muitas horas conversando com Rafa no Café Manon, escutando o “torico enamorado de la luna” em noites de tão feliz amizade que até Deus quis aproximar-se da nossa mesa, como já disse uma vez. Don Jesus, o dono do Café Manón, é a pessoal mais gentil e educada que já conheci, sempre disposto a agradar seus clientes, a quem considera uma família.

As vezes, ainda me vejo sentado no Café das Letras, na Plaza de Honduras, em Valencia, encostado na primeira coluna de frente ao balcão, bebendo um “cubata” e escrevendo minhas dores que ninguém nunca lerá. Havia uma equipe de pseudo-intelectuais que se reuniam pra contar lorotas, mas nas noites de quinta sempre havia os Contadores de Contos, que reuniam muita gente jovem.

E continuo descobrindo esses lugares mágicos por onde a vida me leva. O Manga Rosa, em São Raimundo Nonato, foi uma agradável surpresa. Realmente adorei conversar no balcão com minha amiga Márcia, a proprietária, ouvindo boa música com os amigos de Rotary Club.

Ou o bar do Marcos Hidd, nos fundos do Palácio de Karnak, onde nos reuníamos aos sábados pela manhã, e sorriamos com cada estória que nem só de pensar me dá vontade de voltar correndo. Marcos Hidd é uma destas pessoas escolhidas por Deus pra viver uma vida como ela merece ser vivida, cheia de sentimentos, de todos os sentimentos. Mal amanhecia o sábado, eu já esperava encontra o Josélio, Agenor Carvalho, e todos os que sempre passavam por nossa mesa repleta de amizade e bons fluidos.

Hoje, já não sou paroquiano de nenhum bar em especial. Às vezes até prefiro ficar em casa bebericando uma garrafa de vinho enquanto escrevo minhas estorinhas que ninguém nunca vai ler. Não que eu não goste de freqüentar um barzinho e conversar com meus novos amigos, muito pelo contrário. Na verdade, minhas melhores lembranças de bares foram as que contei aqui. São apenas lembranças de um insone no meio da noite no planalto central do Brasil, mas a democracia das mesas de bar mantém acessa a chama da amizade e da vida.

Tudo tem seu momento e seu lugar. Cada um de nós terá uma estória pra recordar sobre um bar. Eu ainda tenho muitas, que o espaço e o tempo não me permitem, ainda, contar. Mas a felicidade é medida em conta gotas, enquanto passa o tempo e ficamos mais adultos e chatos, os bares estarão esperando por novos paroquianos, novas gerações de poetas, músicos, loucos e intelectuais que sentirão o chamado irresistível e doce da noite, entre doses e debates acalorados sobre quase tudo. Talvez o que sempre nos unirá será saber que sempre existirão noites e boêmios, noites e vida, música e paixão, poesia e sonhos. Quiçá, no céu, nos esperará um bar celestial com uma grande mesa, com Neruda, Vinicius, Tom Jobim, e tantos outros que já foram. E por fim, encontraremos a noite que nunca tem fim.

domingo, junho 05, 2005

Dia Mundial do Meio Ambiente


Na época imperial,
Roma era uma metrópole superpopulosa,
cosmopolita, que exercia um poderde atração
sobre todos os povos
que haviam sucumbido
a sua dominação.
(...)
As doenças não poupavam a população.
Precauções sanitárias eram desconhecidas,
e as epidemias tornavam-se
cada vez mais devastadoras.
Em 65, uma peste fez 30 mil vítimas,
sem escolher classe social:
senadores e cavaleiros morriam
em número incalculável,
da mesma forma que
miseráveis e escravos.

Catherine Salles,
da Universidade de Paris X – Nanterre,
em “As mazelas da superpopulação,Revista História Viva



Domingo, dia 5 de junho, comemorou-se o Dia Mundial do Meio Ambiente, entre protestos e mensagens de alerta de defensores da nossa casa planetária e autoridades, tentando demonstrar algum progresso no combate às misérias que afligem o planeta. O lema da campanha deste ano é “Cidades Verdes: Um Plano para o Planeta”, destacando o desafio do momento, ou seja, o crescente aumento do número de habitantes dos centros urbanos.

De acordo com pesquisas confiáveis, nos próximos 25 anos, quase a totalidade de todo o crescimento populacional estará concentrado nas cidades, principalmente naquelas localizadas nos países pobres e em desenvolvimento. Este incremento de população nos centros urbanos vem acompanhado da ampliação de problemas já conhecidos, como pobreza, desemprego, criminalidade e as drogas. A superpopulação dos centros urbanos gera, também, o agravamento dos problemas ambientais por causa do acúmulo de resíduos, ou seja, de lixo, maior produção de gases causadores do efeito estufa, e etc.

Entretanto, a maior conseqüência da falta de planejamento ambiental nas áreas de concentração urbana será o fato de que não conseguiremos atingir os Objetivos de Desenvolvimento da ONU para o Milênio, mesmo possuindo tecnologia e conhecimentos suficientes para atingir parte daquelas metas propostas.

O conhecimento e a tecnologia necessários para desenvolvermos cidades sustentáveis do ponto de vista ambiental já possuímos, somente falta-nos a vontade política consciente para implementá-los. Transporte limpo, edifícios inteligentes, saneamento básico e o uso racional da água são uma realidade hoje, para aqueles países que realmente se preocupam com o meio ambiente e a qualidade de vida de sua população.

A “Fundación Entorno”, que desde 1996 lidera o Comitê Espanhol do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, e o PNUMA, elaboraram uma lista de cifras sobre a situação atual dos problemas gerados pelo aumento do número de habitantes das cidades, merecendo destaque para as seguintes conclusões:

a) Em 2015, serão 23 as cidades com mais de 10 milhões de habitantes no mundo, sendo que 19 destas estarão em países em desenvolvimento. Todo o crescimento populacional nos próximos 25 anos acontecerá nas áreas urbanas dos países menos desenvolvidos, ainda que o crescimento mais rápido não será nas grandes cidades, mas nos centros urbanos com menos de 500 mil habitantes. Em 1950, menos de uma em cada três pessoas vivia em algum vilarejo ou cidade. Hoje, cerca da metade da população mundial é urbana. Para o ano de 2030, a proporção será de mais de 60%. No ano 2000 havia 402 cidades com população entre 1 e 5 milhões de habitantes e 22 cidades entre 5 e 10 milhões. Em 2015, serão 23 as cidades com mais de 10 milhões de habitantes, 19 delas em países em desenvolvimento.

b) Nos paises desenvolvidos, 75% da população é urbana. A urbanização no mundo desenvolvido coincidiu, em grande parte, com o crescimento econômico e o aumento da riqueza. Entretanto, esse não é o caso dos países em desenvolvimento. Nestes, em 2020, a cifra poderia chegar a mais de 2 bilhões de habitantes vivendo em subúrbios e em assentamentos irregulares. Na África, mais de 70% da população urbana, isto é, mais de 160 milhões de pessoas, vivem em áreas pobres. Desde 1990, a população das áreas urbanas pobres cresceu cerda de 5% anualmente, e está a caminho de duplicar-se a cada 15 anos. Pelo menos um bilhão de pessoas, principalmente na Ásia, África e América Latina, vivem em subúrbios improvisados e assentamentos irregulares, que não estão nem reconhecidos legalmente, nem dotados de serviços pelas autoridades da cidade. Para o ano 2020, a cifra poderá chegar a mais de dois bilhões de habitantes.

c) A diarréia é a segunda causa mais comum de mortalidade infantil. Calcula-se que seja responsável por 12% do número de mortes de crianças menores de cinco anos nos países em desenvolvimento. Ademais, aproximadamente dois milhões de crianças, menores de cinco anos, morrem a cada ano vítimas de infecções respiratórias agudas. A água contaminada e os inadequados sistemas sanitários são os perigos característicos da vida nos subúrbios.

d) A maioria das emissões urbanas provém de veículos automotores. 1,5 bilhão de habitantes de centros urbanos suportam a contaminação atmosférica em níveis superiores aos limites máximos recomendados. Um milhão de mortes pode ser atribuída exclusivamente à contaminação por partículas de dióxido de enxofre, a maioria proveniente das emissões de veículos. Nos paises desenvolvidos, os custos da contaminação do ar são cerca de 2% do PIB, enquanto que nos países em desenvolvimento a cifra está entre 5 e 20%. A geração de energia, a industria e o transporte, em geral, associados com a vida nas cidades do mundo desenvolvido, são responsáveis pela maioria das emissões de dióxido de carbono. Calcula-se que as emissões de dióxido de carbono provenientes em sua maioria dos automóveis, caminhões e usinas elétricas, se elevarão em 60% até nos próximos 25 anos do novo século. Mais de dois terços do incremento virão dos países em desenvolvimento, como conseqüência do rápido crescimento econômico e do aumento do numero de veículos particulares. De 1950 aos dias de hoje, o uso global de combustíveis fosseis incrementou-se em 500%.

e) A urbanização e o desenvolvimento econômico geralmente são acompanhados de um aumento no consumo de recursos e na geração de resíduos per capita. Os habitantes das cidades do mundo desenvolvido produzem até seis vezes a quantidade de desperdício que geram os países em desenvolvimento. As municipalidades poderão ter que gastar até 30% do seu orçamento somente com o tratamento da questão dos resíduos, principalmente no seu transporte. Nos países em desenvolvimento, o custo do manejo dos resíduos sólidos pode ser ainda maior, chegando a 50% do orçamento disponível. Existe uma falta de infra-estrutura para o manejo adequado dos resíduos, pois entre 30 e 60% dos resíduos sólidos produzidos nas cidades não é recolhido e menos de 50% da população conta com o serviço de coleta.

f) Na medida em que as cidades e vilarejos se desenvolvem, cresce também sua dependência de recursos distantes, assim como seu impacto ambiental. Uma cidade média Norte-americana, com uma população de 650 mil habitantes requer 30 mil km2 de terra para servir às suas necessidades. Em comparação, uma cidade de tamanho similar, com menor poder aquisitivo, na Índia, requer apenas 2,8 km2.

g) Água – o consumo de água potável quase duplicou a partir de 1960 e a pesca marítima quadruplicou. Mais da metade da água potável que se obtém pra consumo humano destina-se para as áreas urbanas, para se usada pela industria, para beber e para limpeza, ou como irrigação para a agricultura. Até 65% da água usada para irrigação é desperdiçada. Em muitas cidades de países em desenvolvimento, entre 40 e 60% da caríssima água potável perde-se, devido a avarias no sistema hidráulico, isto é, encanamento, e através das conexões ilegais. Nos países industrializados, desperdiça-se um quarto de toda a água canalizada.

Enfim, pouca coisa há que se comemorar neste dia, apesar de ser a data mais um elemento de conscientização que de celebração. Somente com a conscientização de que a melhora na qualidade de vida da população, de qualquer país, seja rico ou pobre, passa necessariamente por um melhor aproveitamento racional dos seus recursos naturais, é possível tratar melhor a matéria.

O ser humano deve entender, imediatamente, que o planeta é uma casa, a grande casa da humanidade, que merece e deve ser tratada como lugar único e morada de todos. Os grandes centros urbanos devem ser lugares ambientalmente sustentáveis ou estarão condenados ao fracasso. Que os alertas de hoje não sejam as calamitosas notícias de amanhã.

sábado, maio 28, 2005

O medo de ser mais Europa




No domingo,
cada um de
vocês terá em suas mãos

parte do destino da França.
A decisão que temos em nossas mãos
vai além das divisões políticas tradicionais.
Não é nem sobre a direita
nem sobre a esquerda.
Não é uma questão de dizer

'sim' ou 'não' ao governo.
É uma questão sobre o seu futuro,
o de seus filhos,
o futuro da França,
o futuro da Europa.

Jacques Chirac,
na noite de 26 de maio,
fazendo um apelo na TV
em defesa da
Constituição européia.



A França votará o referendo sobre sua adesão à Constituição da União Européia neste domingo, dia 29 de maio. E de acordo com todos os prognósticos dirá “não” à Europa, por puro medo. O jornal Le Figaro, divulgou que 55% dos eleitores votarão pela rejeição do tratado constitucional, enquanto 45% estão pela sua aprovação.

A Espanha já aprovou a Constituição da União Européia. Alemanha aprovou-a semana passada. E tanto Zapatero quanto Schröder foram a França pedir pela aprovação da Carta Européia, participando de manifestações organizadas, em sua maioria, pelos socialistas, ainda que os comunistas, os dirigentes sindicais e simpatizantes do fascista Jean-Marie Le Pen, e de seu partido “Frente Nacional”, estejam pela rejeição do tratado constitucional.


O Presidente francês Jacques Chirac foi à televisão esta semana para defender a aprovação da Constituição Européia, reafirmando a defesa dos valores europeus na disputa contra os EUA e os países asiáticos, além de avisar que um voto negativo seria um golpe contra a União Européia, abrindo assim “um período de divisões, dúvidas, incertezas”. Chirac afirmou ainda que “é uma ilusão achar que a Europa recomeçaria melhor do que nunca com outro projeto, porque não há outro projeto”.
O medo dos franceses em aprovar a Constituição Européia está na possibilidade de entrada da Turquia no bloco - que poderia provocar outro referendo na França - e a perda do seu generoso sistema de benefícios sociais. De maneira que os franceses encaram o referendo como uma ocasião para demonstrarem a insatisfação contra o governo Chirac e sua reforma do sistema de aposentadoria, educação e seguridade social.

Até o Partido Socialista francês está dividido, pois enquanto o ex-primeiro ministro Lionel Jospin defende a aprovação, o numero dois do partido, o ex-ministro da Economia Laurent Fabius é um dos principais defensores da rejeição do tratado constitucional, alegando que o mesmo é demasiado liberal e provocará o “dumping social”. Assim, uma maior liberalização da economia francesa é entendida como a destruição de sua previdência social.
O principal argumento da esquerda pela rejeição da Carta Européia é o medo ao “encanador polonês”, expressão pela qual se denomina o temor do operariado francês de que a aprovação da Constituição Européia inundaria o país de trabalhadores do leste europeu, tirando o emprego dos franceses. O desemprego na França atinge a 10% da população ativa. O engraçado é que o Presidente Chirac convidou até o presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski, para participar da campanha pelo “oui” (“sim”, em francês) no referendo.

Outro medo francês, compartido também pelos holandeses, é com relação à entrada da Turquia no bloco europeu, por causa de sua população majoritariamente muçulmana. De acordo com as opiniões mais conservadoras, isso “destruiria a identidade cristã” da União Européia.
O referendo na França mobilizou todo o país e certamente terá uma ampla participação do eleitorado, ao contrário do referendo do ano 2000, sobre o mandato de cinco anos para o Presidente da República que teve uma abstenção de quase 70%. Vale ressaltar que o referendo de 1992, sobre o Tratado de Maastricht, foi aprovado por uma margem mínima, ou seja, por 51,04% do total dos votos.


A Constituição Européia para entrar em vigor necessita ser ratificada até novembro de 2006 por cada um dos 25 países membros, através de referendo ou votação dos Parlamentos nacionais. Atualmente, sete países já aprovaram o texto constitucional através de seus Parlamentos, entre eles a Grécia, a Itália e a Eslováquia. A Espanha foi o primeiro país a aprovar a Constituição pelo povo, em fevereiro, através de referendo. Na Alemanha, foi aprovada semana passada pelo Parlamento, através de suas duas casas, o Bundestag, Câmara dos Deputados, e o Bundesrat, o Senado.


A França é fundadora da União Européia e, ao lado da Alemanha, sua principal liderança. Por isso, um resultado negativo na França repercutirá em todo o bloco. Tony Blair já avisou que uma rejeição do tratado constitucional pela França inviabilizará o referendo britânico. Na quarta-feira, dia 1° de junho, será a vez da Holanda submeter a Carta da Europa à aprovação. Também ali, as pesquisas apontam para a rejeição do tratado constitucional.


A Constituição Européia guarda especial relação com a França, na medida em que Valéry Giscard d'Estaing, ex-presidente da França (1974/1981), foi Presidente da “Convenção sobre o Futuro de Europa”, instituição que dirigiu os debates sobre as reformas da União Européia para sua ampliação a 25 membros. Considerado o pai da Constituição da União Européia, Giscard d'Estaing foi um dos maiores entusiastas da União Monetária, que resultou na criação da moeda única, o Euro. A Constituição Européia é decorrência natural da reforma de suas instituições, principalmente para facilitar a tomada de decisões em um bloco que já conta com 25 membros, desde maio de 2004, com a entrada de 10 novos membros da Europa Central e Oriental.

terça-feira, maio 17, 2005

Espanha


Que és España?
– España es nuestra amada Patria:
El conjunto de pueblos españoles
que existen y han existido.

Don Edelvives,

na Enciclopédia Escolar
Primer Grado, p. 112,

Barcelona, 1934.



Às vezes, no meio de minha tarde, meu coração se enche de Espanha. E quando digo que “meu coração se enche de Espanha” não me refiro a Espanha geográfica, porque a Espanha que carrego no peito é maior e mais pessoal. É uma sensação de saudade misturada a sabores, cheiros e tantos sentimentos que me deixam imobilizado. É um jornal, uma tarde, uma conversa numa calçada bebendo café que nunca deveria ter acabado. É andar pela avenida Blasco Ibañez durante uma chuva pela noite solitária. São minhas noites insones durante o verão de 2001 ao pé da janela daquele apartamento na Plaza de Honduras, ouvindo a Radio 3, preocupado em como terminar a tese de doutorado.

Minha Espanha está cheia de pessoas, todas que passaram pela minha vida e que continuam existindo em algum lugar da minha memória. E são estes sentimentos misturados que carrego comigo, nessa adolescência que nunca tem fim, que muitas vezes me invade e me paralisa, me adoece.

Sonho sempre com a mesma cena, de jaqueta de couro marrom, me despendido de ti, num terrível e último adeus, e saindo do meu apartamento na calle Concha Espina em direção à avenida Blasco Ibañez, certamente em direção algum bar, com frio, as lágrimas caindo pelo meu rosto, com toda a dor da separação em meu peito, seguindo para qualquer lugar, triste noite de saudade e de começo de esquecimento forçado. Como naquele domingo sem ti, que eu chorei na casa do Juan Carlos, e ele foi tão amigo que fez de conta que não me via chorando.

Por que às vezes é tão difícil esquecer? Por que tantas vezes sigo pela vida carregando tantos sentimentos, se na verdade sei que desta forma a caminhada será ainda mais dura?

E me vejo sentado no Café das Letras, encostado na primeira coluna de frente ao balcão, bebendo um cubata e escrevendo minhas dores que ninguém nunca lerá. Ou conversando com Rafa no Café Manon, escutando o “torico enamorado de la luna” em noites de tão feliz amizade que até Deus quis aproximar-se da nossa mesa.

Espanha se esparrama sobre minha saudade, sobre minhas melhores lembranças. Espanha também é cidade, é Valencia iluminada na “nit del foc” de 2003, quando juntos olhávamos o céu na ponte de Calatrava e eu segurava o turbilhão de lágrimas que se preparava pra saltar pelos meus olhos, sabendo que dentro de nada teria que partir. As “paellas” que me preparou Juan Perez Locilla, as estórias que me contou Enrique Lloris e todos os “canadians” que me serviu Pepe Txontas do “Asesino”. Quantas noites andei pelo bairro de Carmen em alegre companhia e em triste agonia. Durante anos tive o mesmo sonho, vagando pela calle Colón vazia em busca de algo que nunca encontrarei.

Espanha é meu medo e minha certeza. É pra onde seguirá minha alma quando chegue minha derradeira hora. Velho império colonial castelhano, nação de nações, baluarte da cristandade, último sopro de história no seio de um passado mítico que percorre toda América Latina, Espanha de mouros e cristãos, Espanha envelhecida por tanta culpa de pecados esquecidos, Espanha começo e fim, Espanha tens nome e aroma de mulher. Espanha, por que tua lembrança me doi tanto?

O mercadilho dos ciganos nas manhãs de domingo no estacionamento do Mestalla, com milhões de vozes de distintos sotaques, a alegria de encontrar a Rafa e Antonia em Sal y Pimenta,

Espanha, plaza do Cedro, entre bares e “porros”, de noites de pura magia, no meio do mundo, de amigos de diversos países, ávidos por emoções. Espanha do Cabañal, do peruano Carlos Taboada e seus sonhos libertários.

Espanha dos covardes, dos heróis, das pessoas comuns que não conseguem chegar ao fim do mês, dos malandros sempre buscando um otário, Espanha da cara séria, do sorriso largo, das ruas cheias de caca de cachorro, dos cupões da ONCE. Espanha do pão, da bocata, do aceite de oliva, do vinho e do jamon serrano.

Há dias que Espanha invade minha saudade. Abro um Rioja crianza e desfruto cada segundo dessa saudade. Vou lutar pra que?

* Escrito em setembro de 2004.

quarta-feira, maio 04, 2005

Endurecer sem perder a ternura




A visita da Secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, ao Brasil já está rendendo dividendos à nossa relação com a Argentina. Causou profundo incômodo aos nossos “hermanos” a frase – diplomaticamente elogiosa - dita pela senhora Rice, de que o Brasil é uma potência regional a caminho de ser uma potencia mundial. A ciumeira portenha chegou ao absurdo do ministro das Relações Exteriores da Argentina, Rafael Bielsa, convocar experientes embaixadores argentinos, para discutir um endurecimento em relação ao Brasil, segundo noticiou o jornal argentino Clarín. Nesta reunião em Washington, denominada de "retiro intelectual", participaram: Juan Pablo Lohlé, embaixador em Brasília, ex-embaixador na OEA e em Madri; Hernán Patiño Mayer, embaixador em Montevidéu e ex-embaixador na OEA; Juan Carlos Olima, embaixador na ALADI e ex-vice Ministro de Relações Exteriores; Federico Mirré, embaixador em Londres; Roberto García Moritán, Aníbal Fernández e Eduardo Sgliglia, ex-Subsecretário para América Latina. Todos políticos peronistas, além de membros do corpo diplomático argentino.

Entretanto, há mais de um mês o Chanceler Rafael Bielsa escreveu uma carta pessoal ao Presidente Nestor Kirchner, na qual - longe de toda retórica - afirmou que a relação entre Brasil e Argentina, incluindo a que existe no seio do Mercosul, não podia e nem devia continuar como se encontra. Ato contínuo, é sabido que o Chanceler Rafael Bielsa possui, neste momento, três equipes – de diplomatas de carreira - no Ministério de Relações Exteriores argentino preparando uma nova política para as relações com o Brasil: a) o primeiro estuda tão somente a situação econômica bilateral, b) um segundo identifica as possíveis demandas argentinas ao Brasil, consideradas impostergáveis pelo governo Kirchner, e c) o terceiro analisa as conseqüências de um distanciamento do Brasil.

Nada pior do que querer ser o que já fomos, se é que já fomos muito. Argentina já foi um grande país antes do calote da dívida - que arruinou a sua economia -, com um grande peso político na geopolítica da América do Sul. Entretanto, apesar de continuar a possuir um orgulho enorme do seu passado, a verdade é que a Argentina já não é mais a mesma de outrora. E isso é difícil de ser assimilado e aceito por essa importante nação, parceira estratégica do Brasil no Mercosul.

A irritação argentina, na verdade, é contra a crescente hegemonia brasileira no continente sul-americano. O projeto brasileiro de liderança natural na região, por ter a maior economia, território e população, sempre molestou os desejos argentinos de supremacia regional. Por isso, não há nenhuma novidade na irritação argentina com os diplomáticos elogios ao Brasil da senhora Rice. Argentina sempre buscou uma maior aproximação com os EUA do que com o Brasil, mesmo na fase pós-criação do Mercosul e principalmente durante o governo do Presidente Menem.

Para a política externa brasileira, o início do processo de integração de todo o subcontinente americano foi dado com a criação da Comunidade Sul-Americana de Nações – CSN, na reunião de Cuzco, no Peru, em dezembro de 2004. Para ressaltar a discrepância argentina com o projeto de unidade sul-americana e de liderança do Brasil, o Presidente Nestor Kirchner sequer participou daquele encontro, que fora agendado com ex-Presidente Eduardo Duhalde. Mesmo assim, o presidente argentino foi convidado a participar da Cúpula América do Sul e Países Árabes - CASPA, que reunirá representantes de mais de 33 nações, durante os dias 10 e 11 de maio, em Brasília.

A gota d’água do mal estar argentino foi a atuação brasileira na crise recente do Equador, através da Comunidade Sul-Americana de Nações – CSN, e não pela Organização dos Estados Americanos – OEA, que se encontrava, naquele momento, sem presidente. Vale recordar que o Chanceler Celso Amorin convidou o governo argentino para participar da gestão do problema equatoriano, sem encontrar resposta de Buenos Aires. O governo argentino entendeu como uma demonstração de prepotência brasileira o asilo político dado ao ex-presidente equatoriano deposto.

Como se não bastasse, a balança do comércio bilateral vem pendendo nos últimos tempos para o lado brasileiro. Argentina vem sofrendo déficits comerciais com o Brasil, o que implica em maiores pressões do setor industrial daquele país. Segundo dados do Jornal do Brasil, em abril, as exportações brasileiras à Argentina alcançaram um total de US$ 764 milhões, uma alta de 49,8%, ao passo que as compras de produtos argentinos totalizaram em abril US$ 514 milhões.

O diálogo entre os dois países mais importantes do cone sul-americano deve ser reaberto imediatamente, pois não existe Brasil líder da região sem uma Argentina parceira e cooperante. A aliança estabelecida desde a criação do Mercosul, com a assinatura do Tratado de Assunção em 26 de março de 1991, foi a única demonstração plausível de integração na América Latina, e esse mérito pertence a Brasil e Argentina. Nenhuma outra forma de integração Latino-americana, em qualquer tempo da história, foi capaz de chegar ao patamar de entendimento conjunto alcançado pelo Mercosul. E tanto é verdade que além dos quatro países iniciais – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – alguns países já se associaram ao bloco, como Bolívia e Chile, e outros já solicitaram sua participação, como por exemplo Venezuela e México.

Com relação à entrada do México como sócio de pleno direito no Mercosul, vale lembrar que o ex-Presidente mexicano Carlos Salinas de Gortari, por mais de duas vezes, ofereceu seus país a Carlos Menem, como contrapeso político ao Brasil dentro do bloco sulista. Por outro lado, como questiona inteligentemente o jornalista argentino Oscar Raúl Cardoso, quem pode afirmar que o México não viria como cavalo de Tróia com a ALCA por dentro?

Enfim, Argentina espera receber algo em troca da hegemonia brasileira na região. Isto está claro. O problema, agora, é saber se o Brasil está disposto a dar algo a Argentina, em troca de uma aliança estratégica que nunca nos respaldou nos nossos objetivos mais ambiciosos e que vão além da geografia sul-americana, ou seja, ser líder dos países em desenvolvimento na OMC e ter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU.

Ser líder implica assumir responsabilidades para com os liderados. Os argentinos deveriam reconhecer que sempre intercedemos por eles junto ao FMI e jamais aceitamos a soberania britânica sobre as Malvinas, como já demonstramos muito recentemente com o nosso mal-estar ao verificarmos a presença das ilhas no mapa da União Européia. Melhor que buscar por Washington sempre que ocorre um melindre com Brasília, seria Buenos Aires se entender definitivamente com Brasília. Ao final, o Brasil necessita da Argentina para assumir “seu destino manifesto” de potencia regional hegemônica na América do Sul.

Por fim, os jornais argentinos destacaram o fato engraçado de que o ex-Presidente Eduardo Duhalde, representante argentino no Mercosul, recentemente presenteou o Chanceler Bielsa com um livro do ex-embaixador brasileiro na Argentina, José Botafogo Gonçalves, em que apresenta a curiosa tese, sobre as relações bilaterais Brasil-Argentina: afirma que tanto Brasília, quanto Buenos Aires, quando ressentidos, buscam a aproximação de Washington. Não seria o momento ideal para lê-lo?

segunda-feira, abril 18, 2005

Que diabos será a vida?



Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drumond de Andrade,
em “Poema de sete faces”.

Rapazes, não confundam a calma
destas linhas preparatórias
com a melancolia comum.
Não tem melancolia aqui.
Sou feliz. Estou convencido que
cumpro o destino que deviam ter
meu corpo em sua transformação,
minha alma em sua finalidade.
E passo bem, muito obrigado.

Mário de Andrade,
em Advertência,
no livro “O losango Cáqui”, 1922.


Como toda segunda-feira, saltei da cama feliz da vida de não acordar e dá de cara com outro domingo. Não que eu tenha algo pessoal contra o domingo, longe disso. Eu acredito firmemente que é ele, o domingo, que não vai muito com minha cara. Saí correndo a comprar um envelope para mandar um presentinho para uma amiga que completa mais uma primavera nesta quinta e não vive mais nesta cidade. Peguei uma pequena fila para pagar a conta de telefone e estava indo pro supermercado mais perto de casa quando vi a aglomeração e o carro da policia.

O normal, como nos ensinaram nossas mães, é passar sem sequer olhar pro quê está acontecendo, mas como ninguém segue mesmo a risca o que diz a mamãe, parei. Havia um papel alumínio cobrindo um banco do passeio da avenida e pelo volume, era claro que havia um corpo ali.

Não foi necessário perguntar a ninguém o que ocorria, porque os seis senhores com pinta de aposentados da calçada já comentavam tudo. Alguém morreu no banco do passeio enquanto tomava o sol da manhã. Havia dúvidas sobre a identidade do falecido, mas todos eram unânimes em afirmar que era um senhor de idade, que sempre ocupava aquele banco do passeio pela manhã.

As caras deles comentando o ocorrido, me fizeram pensar no que estariam pensando no fundo de suas almas, muito embora o que saía de suas bocas era muito diferente. E os olhares, tão amedrontados que fariam uma criança chorar. Sem querer, formavam um grupo de velhos aposentados na calçada a olhar um corpo, rodeado de policiais fardados que esperavam o carro fúnebre.

Bem, a verdade é que continuei meu caminho e entrei no supermercado. Mas meu pensamento foi atingido pela idéia da debilidade da existência, essa coisa que não podemos explicar e que somente em situações como essa, nos obriga a ver que a vida é ... nada. Algo tão frágil, tão sem sentido, tão absurdo, e nós criamos tantas ilusões e sonhos, tantas ambições ridículas que chega a dar pena.

A luta pela existência, a dor de viver que habita cada homem sobre a face da terra, o amor perdido, a espera por aumento de salário, tudo parece tão absurdamente ridículo em comparação com um corpo tombado num banco de praça, rodeado de gente estranha e funcionários insensíveis à rotina de seus deveres. E, ao mesmo tempo, a vida é uma seqüência de fatos alegres e tristes que se entrelaçam no caminho de qualquer um, tanto fazendo se você mantém as rédeas da sua vida ou se já desistiu há muito tempo e apenas se deixa levar pelos acontecimentos.

A religião, a filosofia, os livros de autoajuda, nada consegue dar uma resposta a esta pergunta que às vezes aflige a mente humana depois de haver conseguido pagar as contas do mês. E ali estavam os velhos aposentados, boquiabertos com suas bengalas e gorritos, protegidos do vento primaveril que apesar de fraquinho, corta a cara e avermelha as orelhas.

A vida é o supremo mistério da ciência, com o sem o mapa do genoma humano. De que vale clonar um ser humano se não sabemos o porquê de sua existência? A ciência, assim como as ideologias, são feitas por pessoas que, por maior boa vontade que tenham, estão mais preocupadas com pequenas coisas que na verdade, pouco valem.

Os velhos continuavam ali, e imagino seus medos, o difícil que será tomar o sol amanhã no mesmo passeio, sabendo que naquele banco sentando tantas vezes, estava tombado um senhor que como eles, poderia ter feito as mesmas coisas de sempre. Os jogadores de damas da esquina até suspenderam o jogo e olhavam em silêncio os carros da policia chegando. Mas ninguém se aproximava, ninguém se arriscava a falar com o oficial que buscava informações sobre o morto.

Saio do supermercado e passo por eles, cruzo a avenida em silêncio e chego em casa me lembrando das quarenta folhas que devo apresentar ao meu orientador nesta semana, pois ao final, devo produzir e terminar a bendita tese. Mas, Deus saberá, como esta cena ficará gravada em minha memória, com todo o mistério que existe.

* Escrito na cidade de Valencia, Espanha, em 11 de março de 2001.

sexta-feira, abril 01, 2005

O fenômeno Da Vinci

Talvez a imensa quantidade
de tentadoras pistas
deixadas por Da Vinci
não passasse de uma promessa vazia
para frustrar os curiosos
e fazer surgir um sorriso malicioso
no rosto de sua astuta Mona Lisa.

Dan Brown,
em “O Código Da Vinci”


A nota causou espanto geral. A meados de março, o Cardeal Tarcisio Bertone - arcebispo de Gênova e assistente do cardeal Joseph Ratzinger na Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição) - portanto uma alta autoridade eclesiástica, pede aos católicos que “não comprem nem leiam 'O Código Da Vinci'”, livro que denominou de “castelo de mentiras”. Antes dele, um bispo chileno, membro do Opus Dei, já havia dito o mesmo. Ainda bem que o Papa Paulo VI já extinguiu o Índice de Livros Proibidos pelo Vaticano, caso contrário, a obra do estadunidense Dan Brown estaria incluída. Mas afinal, de que trata o livro que já vendeu mais de vinte milhões de cópias em todo o mundo, para despertar a fúria da Igreja católica? Por que iniciar uma cruzada contra uma obra de ficção, um verdadeiro Harry Portter para adultos ?


“O Código Da Vinci” (2003), um romance policial de ficção, trata de uma hipotética descendência de Jesus Cristo com Maria Madalena, que resultaria na dinastia merovíngia, antigos reis da França. As provas desta união estariam nas obras de Leonardo Da Vinci (1452-1519), o gênio italiano do Renascimento. Ainda de acordo com o livro e obviamente sem qualquer comprovação histórica, a descendência de Jesus e Madalena seria o maior segredo da Igreja Católica, que ainda atribui ao Opus Dei o papel de vilão da trama. Até aqui nada de novo, pois o livro de Dan Brown está baseado num best seller dos anos oitenta denominado “O enigma sagrado” (1983), que levantou a tese de que o Santo Graal era literalmente o sangue de Cristo, ou seja, sua descendência com Maria Madalena. Seus autores, Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, estão inclusive processando Dan Brown por plágio.


Dan Brown era um professor de inglês antes de escrever ficção. Filho de um matemático e de uma compositora de música sacra, ele já publicou 'Digital Fortress', 'Anjos e Demônios' (1999), 'Deception Point' (2000) e 'O código Da Vinci' (2003), que na semana de lançamento conquistou o primeiro lugar na lista dos mais vendidos nos EUA do “The New York Times”. Casado com uma especialista em História da Arte, que lhe ajuda em suas pesquisas, Dan Brown rodeado por uma aura de mistério – pois se recusa a dar entrevistas fora dos EUA e mantém a grande imprensa informada simplesmente através de sua página na Internet (www.danbrown.com), no momento escreve seu próximo romance, uma trama sobre lojas maçônicas que revelará a história oculta dos EUA.


O fenômeno Dan Brown, segundo as editoras, constitui numa “mescla de intriga, mistério e história”, e ao que tudo indica possui como antecessor “O nome da rosa”, best seller de Umberto Eco publicado em 1981 e levado ao cinema. A obra do professor Eco inaugurou a era dos “best seller com densidade cultural”, que sua leitura dava ao leitor uma aura de cultura e modernidade. De qualquer forma, o sucesso de “O Código da Vinci”, fez com que aparecessem outras obras no filão editorial aberto, como “O Enigma dos Quatros” de Ian Caldwell e Dustin Thomason, “O Clube Dante” de Matthew Pearl, “A Savana santa” da espanhola Julia Navarro e “O enigma Vivaldi”, do californiano Peter Harris.


Além da aura de cultura que envolve a leitura de “O Código Da Vinci”, seu tremendo sucesso não seria possível sem a Internet. A jogada de marketing que acompanhou o lançamento do livro foi a criação de um jogo “on line” que somente pode ser solucionado após a leitura do livro. Outra estratégia de marketing levada a cabo pela editora de Dan Brown foi distribuir o livro entre os trabalhadores da editora, um ano antes do lançamento oficial do mesmo. Atualmente, as editoras estão investindo na incipiente estratégia do “bookcrossing”, que consiste em deixar alguns exemplares em locais públicos para que sejam lidos por quem os encontre, e daí façam a promoção da obra. Essa foi a estratégia de marketing usada na Espanha para promover “O enigma Vivaldi”, de Peter Harris, onde foram escondidos cem exemplares da obra por todo o país.


Com relação ao Opus Dei, grupo fundamentalista católico que apoiou a ditadura franquista na Espanha e que aparece no livro no papel de vilão, atualmente labora por mostrar-se algo distinto do romance. Na tentativa de mudar essa imagem, a conservadora instituição ofereceu seus arquivos internos ao mais prestigiado vaticanista do momento, o católico progressista e estadunidense John Allen, correspondente do National Catholic Reporter, que publicará um livro sobra o Opus ainda este ano.


Antes do pronunciamento do Cardeal Bertone, a Igreja Católica nunca havia se manifestado em documentos oficiais sobre a disparatada tese do livro, que permitiu ao autor tecer uma trama que envolve contexto histórico, ocultismo, conspiração e uma envolvente trama policial. O Cardeal Bertone, de 70 anos, cotado para sucessão do Papa João Paulo II e ex-catedrático de teologia Moral e Direito Canônico, é um personagem controvertido. Na Itália, é conhecida sua fixação por armas de fogo e esportes, chegando a ser um popular comentarista de futebol dos jogos do Gênova e do Sampdoria.


O jornal britânico "The Times" destacou, inclusive, o fato de que o livro continua entre os mais vendidos em países com grande população católica, como os EUA, França, Argentina e Brasil. Contudo, causa estranheza que o governo do Líbano, país do Oriente Médio onde convivem mulçumanos, cristãos e drusos - portanto sem maioria católica -, tenha proibido a venda de 'O Código Da Vinci', graças à queixa de líderes católicos locais, que entendem ser o livro ofensivo ao cristianismo. Igual às estórias de Harry Porter, “O Código Da Vinci” - com as aventuras do protagonista Robert Lagdon, um especialista em simbologia que ganha a vida dando aulas de iconologia religiosa na Universidade de Harvard - possui o mérito de iniciar milhares de pessoas no prazer da leitura. Só por isso já deve ser louvado, pois vivemos numa época em que o livro cada vez mais perde espaço para os meios eletrônicos de diversão.


Nos EUA, “O Código Da Vinci” apenas foi superado, no primeiro posto em vendas, pelo "The 9/11 Commission Report", que nas suas 567 páginas apresenta, por dez dólares, o resultado da comissão de investigação sobre os atentados de 11 de setembro de 2001. Enfim, a ficção nem sempre supera a difícil realidade.

quarta-feira, março 23, 2005

O Mago e o mundo


Despúes reflexione
que todas las cosas
le suceden a uno precisamente,
precisamente ahora.
Siglos de siglos
y sólo en el presente
ocurren los hechos;

Jorge Luis Borges,
em "El jardín de senderos que se bifurcan",
publicado em Ficciones, 1944.



Paulo Coelho conquistou o mundo. E conquistou por fim o Brasil, ao que parece. Quase todas as revistas semanais estamparam a foto do mago em suas capas esta semana, numa fantástica manobra de marketing para anunciar o lançamento do seu novo livro, O Zahir, primeira obra em língua portuguesa lançada mundialmente, que terá 8 milhões de cópias distribuídas por 83 países. Se os portugueses têm a Saramago e seu Nobel, nós temos a Paulo Coelho e a consagração mundial. Juntos, são dois escritores da língua de Camões pelo mundo globalizado, quer queiram ou não.


Paulo Coelho já vendeu 65 milhões de livros pelo mundo. Destes, 8 milhões só no Brasil. Teve sua obra lançada em 150 países e traduzido em 56 idiomas. Somente O Alquimista, lançado em 1988, já vendeu 11 milhões de exemplares. Ultrapassou, há muito, o espaço de escritor e se transformou numa verdadeira celebridade internacional. Somente pra se ter uma idéia, antes dele, apenas Jorge Amado vendeu tanto e divulgou o Brasil pelo mundo. Jorge Amado vendeu mundialmente 40 milhões de livros, sendo 20 milhões apenas no Brasil. Sua obra foi lançada em 55 países e traduzido em 49 idiomas.


Paulo Coelho sempre foi esnobado pela crítica literária brasileira, que criou uma polêmica ridícula sobre se sua obra é ficção ou auto-ajuda. Nem mesmo sua eleição para a cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras - ABL em julho de 2002 ajudou-o a ser respeitado como um verdadeiro literato. Sua resposta aos críticos sempre foi o silêncio. Com uma elegância admirável, Paulo Coelho jamais ofendeu a qualquer um dos seus críticos, ou melhor, seus agressores. Agora, depois de anos de silêncio como resposta, afirmou que a crítica detesta o sucesso. Acredito que o desprezo da crítica especializada com a obra de Paulo Coelho é fruto do esoterismo que o rodeava e os poderes de “mago” atribuídos ao escritor. Nada tem a ver com sua literatura, pois a maioria - dos seus detratadores – afirma tão somente que não leu e não gostou. De qualquer forma, mesmo desdenhado pela crítica, Paulo Coelho continua sendo um dos autores mais lidos no mundo, continua a ser um tremendo sucesso.


Em seus livros, Paulo Coelho utiliza frases de outros escritores, filósofos e profetas. A famosa afirmação lida no Alquimista de que “todo o universo está contido num grão de areia”, é uma citação atribuída ao poeta britânico William Blake. Mas tal acusação de que o autor utiliza pensamentos e frases de outros autores não simplifica a questão, e muito menos justifica a acusação de produzir uma literatura menor. Afinal de contas, o Quixote é uma sátira às novelas de cavalarias, e nem por isso Miguel de Cervantes Saavedra é desprezado pela crítica. O próprio Jose Luis Borges utilizou vários autores e estórias na construção de sua obra, uma das maiores da literatura universal. Na atualidade, Dan Brown baseou-se em diversas idéias e estórias de outros autores, lendas e textos apócrifos para escrever seu O Código Da Vinci, best seller mundial que já vendeu dez milhões de exemplares.


Pessoalmente, lembro que por volta de 1985, minha mãe chegou em casa com um calendário da Seicho-No-Ie, onde li uma frase que muito me marcou naquela época, que mais ou menos afirmava o apoio conspirador do universo aos nossos desejos. Anos depois, reencontrei a frase lida na infância, desta vez num artigo de revista sobre O Alquimista, lançado em 1988, onde estava escrito: “Quando você quer uma coisa, o universo inteiro conspira a seu favor”. Ademais, no capítulo um do seu novo livro, Paulo Coelho escreve na página 30 que “Alguém quando parte é porque outro alguém vai chegar-”, que me fez lembrar imediatamente de uma música da Rita Lee, dos anos 70, creio que se chama “Pra que sofrer”, onde se ouve a mesmíssima frase contida no novo livro. Tudo isso não significa demérito para Paulo Coelho, pois estes dois exemplos são limitados pelos meus conhecimentos e minha idade, de maneira que outra pessoa com maior horizonte cultural e etário pode muito bem afirmar que as frases acima foram citadas originalmente em outras obras. De maneira que o conhecimento e as idéias atravessam o tempo e cruzam o planeta, principalmente quando são simples e verdadeiras.


Enfim, ao escritor compete a tarefa de reescrever a realidade e, porque não, a lenda. Sua liberdade criativa não deve explicações a ninguém, nem mesmo àqueles que lhes explicam nas faculdades de letras. Somos o produto de tudo que lemos, ouvimos e vivemos. Todas as idéias e estórias circulam a espera de que um contador de estórias as entenda e as transmita. Paulo Coelho, com seus livros, nos ensina a sermos simples e acreditar nos nossos sonhos. Romances são apenas estórias. A diferença, que resulta no sucesso mundial, está na maneira de contá-las. O resto é magia, coisa de mago.

sexta-feira, março 11, 2005

Enquanto o tempo passa





Vem, meu amor,
é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem eu sou
Eu tenho um segredo e uma oração.

"Soul Parsifal"
Renato Russo e Marisa Monte



É incrível como continuo gostando de canções de mais de dez anos atrás. E o mais incrível ainda é que eu continuo lembrando das mesmas situações e pessoas de mais de dez anos atrás. Não é saudosismo não, é apenas comprovar que o que eu pensava há dez anos atrás sobre um monte de coisas, eu continuo pensando o mesmo, depois de todos esses anos. Ainda acredito no amor verdadeiro, na paixão, no fogo que arde na cama entre duas pessoas que se querem. Ainda acredito em grandes beijos de amor, nas lágrimas das despedidas em aeroportos vazios e em recomeços esperançosos depois de anos de saudades escondidas. Enfim, ainda acredito em amizade sincera, no poder do abraço mudo e em melosas canções de amor.

Talvez seja porque eu já tenha vivido em tantas cidades, que muitas vezes simplesmente não sei onde estou na maioria dos meus sonhos. Confesso que já estive em lugares que não sei onde ficam. Principalmente quando tento recordar do distante ano de 1983, quando briguei com o meu pai pela guitarra elétrica que me tornaria um astro do rock nacional e decidi apenas ser mais um escritor da minha geração, mesmo sozinho com meu coração no meio do sertão. Completamente perdido entre Teresina, Manchester, Liverpool e as provas bimestrais. Dando aulas de violão, pro meu melhor amigo, pra pagar os meus discos ou tentando conseguir clorofórmio pra fazer loló, eu vivi todas as dúvidas da adolescência. Até parece que foi ontem o Setembro Rock, a Feirinha e o Cine Royal. A mamãe me ajudando a roubar o carro do meu pai nas noites de domingo são lembranças difíceis de esquecer.

Mas a verdade é que estas lembranças já passaram há tanto tempo que são apenas lembranças. Enquanto o tempo passa, as lembranças começam a desaparecer. É sempre muito complicado admitir que o tempo passa, numa velocidade que você nunca pode imaginar quando se tem dezesseis anos, e todas as tuas preocupações se resumem a conseguir uma cena romântica com uma menina que nem sabe que você existiu. Enfim, é bom comprovar que ainda gosto dessas velhas canções de mais de dez anos, remasterizadas e cheias de boas lembranças bobas. Mas, o melhor de tudo é saber que ainda acredito em tudo aquilo que embalou minhas madrugadas insones cheias de desejos eróticos e medo de receber boletins do colégio dos padres. Difícil é encontrar alguém pra conversar e dividir todas estas lembranças empoeiradas, principalmente agora que estou com trinta e cinco e que no próximo julho completo trinta e seis. Talvez seja somente mais uma noite de insônia que me faz parecer tão nostálgico e sentimental, talvez seja apenas essa música antiga e a falta que me faz minha mulher que dorme no quarto ao lado.

Mas a verdade é que olho pro presente e vejo todos os desafios que me propus, todas as batalhas que preparei durante anos a fio e sinto o aço da espada imperial que combateu na Guerra do Paraguai do meu bisavô nas minhas mãos, ainda pronta pro combate. Meus inimigos já estão em seus postos de guerra, fortes e cheios de empáfia, enquanto um tênue sorriso confiante se desfia entre meus lábios eu olho pro campo aberto, verde, da honra e da glória. Minha sorte está selada. A vitória é uma doce mulher com as mãos repletas de ouro e o coração cheio de paz. De repente se abre o amanhecer e, calmamente, caminho pro meu destino. Serão as próximas manhãs de glória e sentimentos alegres? Só o tempo poderá dizer, só o tempo poderá dizer
.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Faroeste cabolclo



Hoje, grande parte da elite amazônica
é subproduto do crime organizado.
Há um vasto esquema de poder.
Os grupos que se baseiam em
grilagem de terras e exploração clandestina
de recursos naturais têm um poder
muito maior que o do próprio estado.
Por isso, a violência vem dessa forma chocante.
A estrutura de criminalidade faz
da Amazônia uma imensa Sicília verde.

Lucio Flávio Pinto
Jornalista e sociólogo,
em entrevista ao JB, 21-02-2005



Em 2001, quando da minha primeira visita à floresta Amazônica, uma frase dita por um amigo - que residia em Manaus desde muito – nunca esqueci: - Aqui na Amazônia, estamos longe do Brasil. Por isso, tudo aqui é feito do nosso jeito mesmo, não esperamos nada de Brasília não. A frase demonstrava o abandono da região amazônica pelo Estado brasileiro, incapaz de levar a tênue e débil civilização brasileira aquelas lonjuras verdes.

O assassinato da missionária estadunidense de 74 anos Dorothy Stang, naturalizada brasileira, ocorrido na manhã do dia 12 de fevereiro último, no assentamento Esperança, em Anapu, a 600 quilômetros de Belém, Pará, me fez novamente pensar naquela frase ouvida em 2001. Até quando o Estado brasileiro vai abandonar a sua própria sorte a Amazônia? Que compromissos civilizadores possuem os Estados-membros amazônicos da federação brasileira? Qual o grau de responsabilidade da nação brasileira na série de crimes ocorridos nos últimos anos pela disputa da terra naquela região?

De acordo com a Ouvidoria Agrária Nacional e a Comissão Pastoral da Terra – CPT, o Estado do Pará possui os maiores índices de violência no campo de todo o país, além do maior número de mortes por disputas de terras. A maioria destas mortes em conflitos sobre a posse de terras devolutas usadas pelo governo federal para reforma agrária. A violência no campo brasileiro é enorme, e o Estado do Pará é, sem sombra de dúvida, o campeão: entre 1985 e 2004, se contabilizou 1.357 assassinatos sem que o mandante fosse preso, sendo 509 somente no Pará. Ademais do sul do estado do Pará, as regiões brasileiras de maior potencial de conflito agrário são o Pontal do Paranapanema, no Oeste de São Paulo, a Zona da Mata, em Pernambuco, áreas da Bahia, como a da região de Porto Seguro, além dos focos no Mato Grosso do Sul (região de Dourados) e no Rio Grande do Sul (região de Cruz Alta).

Irmã Dorothy, que pertencia à ordem as Irmãs de Notre Dame de Namur, trabalhou durante 30 anos na região Amazônica, sempre em defesa dos trabalhadores rurais, na sua luta por um pedaço de terra pra assentar a família e viver em paz. Os grileiros e os madeireiros ilegais eram seus grandes inimigos. Tal qual as favelas nas grandes capitais brasileiras, em muitas paragens imensas da Amazônia vigoram a lei do mais forte, a lei da barbárie, por total e completa ausência do Estado brasileiro. O assentamento Esperança, em Anapu, no Oeste do Pará, local do assassinato de Irmã Dorothy, teve o maior crescimento populacional do país, segundo o deputado federal Fernando Gabeira, do Partido Verde (RJ), sem o necessário crescimento da atuação estatal na região.

Tanto a Associação das Indústrias Madeireiras quanto a Associação dos Juizes Federais condenou o assassinato da missionária. A primeira culpou a morte da Irmã Dorothy à “falta de regularização fundiária”. A OAB, através do Presidente Roberto Busato, cobrou uma solução do governo federal para a guerra civil que atualmente existe no Estado do Pará. A imprensa internacional, mais uma vez, não deixou por menos, e a notícia mereceu uma página inteira do New York Times e o jornal inglês The Independent afirmou que o assassinato destaca o fracasso do governo em combater os desmatamentos ilegais.

A reação do governo federal ao caos agrário na região Amazônica denomina-se “Pacote Verde”, e conforme foi divulgado constará de: a) Medida Provisória criando mecanismo de limitação administrativa para exploração de madeira em áreas passíveis de se tornarem unidades de conservação; b) Decreto determinando proibição da exploração de madeira em áreas públicas à margem esquerda da rodovia BR-163 no Estado do Pará, além de suspender a concessão de novas autorizações de exploração de madeira; c) Instalação de Gabinete de Gestão Integrada (GGI) em caráter provisório no Estado do Pará, com sede em Belém ou em Altamira, para dar suporte às ações dos agentes do Ibama, Incra e da Polícia Federal; d) Criação de cinco unidades de conservação: 1- Estação Ecológica da Terra do Meio (PA) – com 3,4 milhões de hectares, 2- Floresta Nacional Serra do Padre (PA) – com 445 mil hectares, 3- Reserva extrativista do Riozinho da Liberdade (AC/AM) – com 325 mil hectares, 4- Floresta Nacional de Balata-Tufari (AM) – com 802 mil hectares, e 5 - Floresta Nacional de Anauá (RR) – com 259 mil hectares; e) Projeto de lei para tratar da gestão de florestas públicas, criando o Serviço Florestal Brasileiro, órgão para administrar o setor, e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, para financiar ações de preservação e exploração sustentada de florestas.

Segundo noticiou a imprensa, algumas pessoas na cidade de Anapu, ao tomarem conhecimento da morte da irmã Dorothy, soltaram fogos de artifício em comemoração. Uma terra onde se comemora o assassinato de uma freira realmente não pode ser um local civilizado. Portanto, falta a presença civilizadora do Estado na região Amazônica, em substituição a grileiros e jagunços de madeireiros ilegais. Que o Brasil imponha o império da lei, de uma vez por todas, neste verdadeiro faroeste caboclo.

domingo, fevereiro 13, 2005

O Poder respeita o poder









O Reino Unido não tem força
pra levar os EUA.
Mas Europa tem muita força.
Washington terá que escutar
mais a 450 milhões de europeus
que a 60 milhões de britânicos.
O poder respeita o poder.
Desde o ponto de vista econômico,
a União Européia é uma superpotência.
E o poder respeita ao poder.

Timothy Garton Ash,
no artigo “No mas Jeeves”,
El País, 03-10-2004.


O Brasil não deve jamais afrontar aos EUA. Ao contrário, o Brasil deve aliar-se aos EUA para reafirmar nossa liderança na América do Sul. Esse pensamento não é neoliberal, ao contrário, é um pensamento defendido pela esquerda européia, como política exterior no seio da União Européia. Se eles, os europeus, que possuem sociedades mais igualitárias e ricas defendem esta tese, o mais inteligente para um país em desenvolvimento, com uma dívida social e externa tremenda, é seguir e aplicar essa idéia de política exterior.

E não seria uma inovação em matéria de política exterior brasileira, visto que a seguimos desde o tempo em que fazíamos parte do Império Português - e a Inglaterra era a superpotência hegemônica do momento-, com proveitos incontáveis para o nosso desenvolvimento enquanto potência regional.

Aliás, essa é a política adotada atualmente pela Inglaterra, apesar de que de forma exagerada, conforme admite muitos politólogos ingleses. E pior, pois dá a nítida impressão de que o Reino Unido é apenas uma colônia americana, dado o grau de submissão à Casa Branca. As origens desta submissão britânica aos EUA remontam-se na necessidade de Churchill conseguir apoio americano durante a II Guerra Mundial, no momento posterior à queda da França, quando os britânicos se encontravam em perfeita solidão.

Entretanto, existe o problema do unilateralismo do governo Bush, do qual Alemanha, França e, agora, a Espanha tentam saltar o passo, mesmo desejando a necessária aliança com os EUA. O exemplo espanhol é claro: ao retirar as tropas espanholas do Iraque, o senhor Zapatero – Primeiro Ministro espanhol e socialista - reforça a participação militar do seu país no Afeganistão. Em claro apoio às tropas americanas estacionadas naquele país.

Uma política exterior inteligente, para um país como o Brasil, passa necessariamente por uma aliança com os EUA. Acontece que essa aliança não há de ser entendida como total e incondicional apoio à política exterior do senhor Bush. O poder somente respeita o poder, e isso é uma verdade tão grande como um gol de bicicleta de Pelé numa final de Copa do Mundo contra a Argentina. Ninguém pode negar.

Por fim, cabe lembrar a lição do historiador inglês Timothy Garton Ash, que contou que uma vez perguntado sobre o papel do Reino Unido com relação aos EUA, Harold MacMillan, Ex-Premier britânico, respondeu que deveria ser o mesmo papel dos gregos com relação ao Império romano. Somente esqueceu, que esse papel costumava ser o papel de escravo. O Presidente Reagan tinha como aliado na Europa a Margaret Thatcher, Primeira Ministra britânica, mas isso não o impediu de invadir a ilha de Granada – que faz parte da Commonwealth - sem jamais consultá-la.

Portanto, necessitamos da aliança com os EUA para desenvolver plenamente nossa hegemonia no subcontinente americano, bem como para conseguir um assento definitivo no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Entretanto, não podemos seguir incondicionalmente a política exterior da Casa Branca. Devemos ser aliados preferenciais dos EUA em nossa região, sem perder a independência de buscar soluções nacionais para desenvolver nossa política exterior. Aliados e independentes poderemos até vir a ter poder internacional, pois o poder somente respeita o poder.

sábado, fevereiro 12, 2005

Discurso anual do Império





Na velha Roma imperial, os Césares faziam discursos no Senado não para prestar contas, mas para exaltar suas figuras e demonstrar ao mundo o poder e glória de Roma. No dia dois de fevereiro passado o Presidente Bush discursou sobre o Estado da União estadunidense, uma tradição da política americana, na qual o Presidente não só presta contas da sua administração, mas também indica os elementos de destaque e suas prioridades para o ano que se inicia.

O Presidente Bush, no seu discurso, igual aos Imperadores romanos do passado, não tratou meramente de temas internos, mas sim dos temas importantes para o Império. O Império americano. Quase como uma extensão do seu discurso de posse de janeiro, o senhor Bush lançou mais incertezas e ameaças que palavras tranqüilizadoras aos povos do mundo, ainda que a notícia positiva seja a pretensão americana de liberar 350 milhões de dólares para a Autoridade Palestina, a título de ajuda internacional na reconstrução das instituições palestinas. Com relação ao Iraque, os ianques vão permanecer naquele país por mais tempo do que imaginavam. Existe a possibilidade real de que se instaure uma guerra civil e o caos total, caso as tropas internacionais comandadas pelos EUA se retirem neste momento do território iraquiano.

Com as acusações, à Síria e ao Irã, de colaboração com o terrorismo internacional, os EUA indicaram quais serão os próximos alvos da diplomacia militar estadunidense. Os sírios se apressaram em informar que apenas prestam apoio político aos grupos palestinos Hamas, Jihad Islâmica e Hisbolá. Em nome da República Islâmica do Irã, o aitolá Ali Khamenei alertou os EUA de que quatro ex-Presidentes daquele país já haviam fracassado na tentativa de derrubar a revolução islâmica iraniana. No tocante à Coréia do Norte, anteriormente denominada de vértice do “Eixo do Mal”, apenas o “blábláblá” de sempre. Pode ser que a boa vontade americana para com o país seja fruto da capacidade nuclear do regime coreano. Talvez o objetivo da próxima cruzada do senhor Bush seja realmente o Oriente Médio – detentor de 60% das reservas de energia do mundo – e não o Extremo Oriente.

De maneira que o destaque internacional ficou, como sempre, para o Oriente Médio, sendo a América Latina – mais uma vez – ignorada. Pelo menos não nos invadem com a desculpa de apear algum ridículo ditador do poder ou de combater o terrorismo islâmico. Nunca foi tão útil ser católico nessas terras hispanas.

O Império romano – que durou oito séculos – foi tolerante em matéria religiosa e tinha como justificativa moral levar a civilização aos povos bárbaros. O Império britânico – em seus trezentos anos de duração - também o foi, ainda que incentivasse a catequese cristã, e se justificava na missão de espalhar a civilização e a ciência aos povos ditos “atrasados”. O Império soviético – que durou quase setenta anos - era totalmente repressor em matéria religiosa e sua missão era promover a revolução socialista. O segundo mandato do senhor Bush trouxe à tona o lado mais provinciano e intolerante dos EUA, o país mais rico e invejado do mundo. Tão condenável quanto o fundamentalismo islâmico, o fundamentalismo religioso da extrema direita estadunidense é contrário a todo progresso cientifico, chegando a negar até mesmo a Teoria da Evolução, de Charles Darwin. Ao mesclar política e religião, o senhor Bush negou os valores do Iluminismo que nortearam a fundação dos EUA e fizeram deste país a pátria da liberdade.