domingo, maio 14, 2006

Manual do Mercosul - Globalização e Integração Regional

Autor: Antonio Freitas Júnior

Sinopse

Os elementos mais representativos do momento atual em que vivemos são a globalização e o processo de integração regional.

A nova configuração política e econômica que se manifesta na nova ordem internacional têm sua expressão mais visível nas tendências à regionalização e multilateralização das relações entre os Estados.

O Estado - nação ainda mantém - se mantém como ator importante no contexto das relações internacionais, muito embora padeça de uma enorme perda de poder.

A integração regional entra neste contexto como uma possível resposta à fragmentação do sistema internacional e a globalização.

O reforço da estrutura internacional, através da integração regional e da cooperação internacional, pode vir a ser uma solução para os problemas causados pela acentuada globalização, que ultrapassam as fronteiras nacionais e causam o aparente caos da ordem econômica internacional, dando a esse processo pouca estabilidade.

O processo de integração do MERCOSUL enquadra-se perfeitamente dentro da dinâmica do último processo de globalização ou mundialização dos fluxos econômicos e da formação de blocos regionais, que tem seu começo no fim da II Guerra Mundial na Europa Ocidental, mas encontra sua raiz histórica na carta do Atlântico, de 14 de agosto de 1941, firmada por Roosevelt e Churchill.

O Mercado Comum do Sul - MERCOSUL é um processo de integração regional de Estados, iniciado através da integração de dois países historicamente adversários, a similitude do que ocorreu na Europa, entre França e Alemanha.

SUMÁRIO
Capítulo 1 - Introdução
1.1 - A globalização e a Integração regional
1.2 - A Globalização
1.3 - A Integração Regional
Capitulo 2 - Globalização: triunfo do neoliberalismo?
2.1 - As características da atual onda globalizadora
2.2 - A outra Globalização possível: vozes em contra do atual processo de globalização neoliberal
2.3 - Os acontecimentos de 11 de setembro de 2001
Capítulo 3 - A Integração regional e os blocos econômicos
3.1 - A idéia de Integração
3.2 - Modelos de Integração regional
3.3 - A Integração Européia como modelo
a) Introdução
b) Primeira etapa: de 1945 a 1947
c) Segunda etapa: de 1947 a 1957
d) Terceira etapa: de 1957 a 1973
3.4 - Europa no final do século XX e início do século XXI
3.5 - Os processos de integração Ibero-americanos
3.6 - A Integração através da CEPAL
3.7 - Associação Latino-americana de Integração - ALADI
3.8 - Os Acordos de Integração intracontinental
3.9 - O Acordo de Livre Comércio das Américas - ALCA
3.10 - Integração Ibero-americana versus IntegraçãoEuropéia
3.11 - A Integração Ibero-americana hoje em dia
Capítulo 4 - O Mercador Comum do Sul - MERCOSUL
4.1 - Antecedentes
4.2 - O Tratado de Assunção
4.3 - Os Protocolos de Brasília, Ouro Preto e de Olivos
4.4 - A estrutura institucional do MERCOSUL
a) Conselho Mercado Comum - CMC
b) Grupo Mercado Comum - GMC
c) Comissão de Comércio do MERCOSUL - CCM
d) Comissão Parlamentar Conjunta - CPC
e) Fórum Consultivo Econômico-Social
f) Secretaria Administrativa do MERCOSUL
g) Órgãos auxiliares do CMC, do GMC e da CCM
h) O Tribunal Administrativo-Trabalhista
i) O Tribunal Permanente de Revisão
4.5 - O MERCOSUL como integração além do econômico
a) Na política
b) Na democracia
c) Na cooperação científica
d) Na segurança e defesa
e) Na cooperação fronteiriça entre regiões
f) Na proteção ambiental
g) No sócio-cultural
4.6 - O MERCOSUL hoje
Conclusões
Bibliografia
Bibliografia: notas de imprensa

Características detalhadas

Edição: 2006
Numero de Páginas: 392
Altura:21 cm
Largura: 14 cm
Profundidade: 2,3
Acabamento: Brochura
I.S.B.N.: 85-88239-38-8
Código de Barras: 9788588239388
Valor: R$ 68,00
Compras através da Editora BH:

segunda-feira, maio 08, 2006

O petróleo é deles


Para a consecução de seus objetivos,
todos os povos podem dispor livremente
de suas riquezas e de seus recursos naturais,
sem prejuízo das obrigações decorrentes
da cooperação econômica internacional,
baseada no princípio do proveito mútuo
e do Direito Internacional.
Em caso algum poderá um povo
ser privado de seus próprios meios de subsistência.

Item 2, do Art. 1º,
do Pacto Internacional sobre
Direitos Civis e Políticos (1966)
e do Pacto Internacional dos
Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais (1966),
ambos assinados
pelo Brasil e pela Bolívia.


A festa do 1º Maio deste ano teve um sabor amargo para a Petrobrás. Apesar de todos os afagos feitos a Evo Morales, Presidente da Bolívia, a Petrobrás sofreu, até agora, uma verdadeira expropriação de seus investimentos de mais de US$ 1 bilhão naquele país.

Pelo ‘Decreto Supremo nº 28.701’, apelidado de “Heroes del Chaco”, de 1º de maio de 2006, o Estado boliviano, através de sua “Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos – YPFB”, recuperou a propriedade e o controle “total e absoluto” sobre a produção, transporte, refino, armazenagem, distribuição, comercialização e industrialização de seus hidrocarbonetos, cabendo a todas as companhias petroleiras estrangeiras adaptarem-se às novas regras de exploração e comercialização dentro de 180 dias. O Decreto foi seguido da ocupação militar dos campos petrolíferos e das refinarias estrangeiras naquele país, comandada pelo próprio Evo Morales.

Não é a primeira vez que a Bolívia nacionaliza seus hidrocarbonetos, mas a terceira. Na verdade, a Bolívia foi o primeiro país Latino-americano a proceder assim, quando em 1937 nacionalizou a Standar Oil Co. e em 1969 a Gulf Oil, ambas estadunidenses.

A noticia pegou de surpresa o governo brasileiro, notadamente o ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau, o ministro interino das Relações Exteriores, Samuel Pinheiro Guimarães e ao presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli. O aumento para 82% dos impostos bolivianos sobre a produção da Petrobrás torna antieconômica a permanência da empresa na Bolívia.

A expropriação boliviana abre uma enorme crise política entre o Brasil e o país mais pobre da América do Sul, pois até a presente data ainda não se sabe se o governo boliviano irá ou não indenizar as empresas estrangeiras e de que forma, uma vez que o país não dispõe de reservas monetárias para tanto.

Apesar de louvável a atitude do governo socialista boliviano, do ponto de vista estritamente do povo boliviano reter os benefícios de suas riquezas naturais, não se deve esquecer que o país necessita de investimentos estrangeiros para sua exploração. Destarte, caso a Petrobrás se retire do território boliviano, seria substituída por investimentos oriundos da Venezuela e da China.

Contudo, a credibilidade das garantias jurídicas bolivianas foi abalada com a nacionalização dos hidrocarbonetos. Com certeza o mercado, esse grande destruidor de mitos no século XXI, reagirá ao ato nacionalista boliviano e as conseqüências serão imprevisíveis. Afinal, nenhum grande líder nacional deseja tornar seu país um pária a nível internacional.

Que o povo boliviano deve ser o verdadeiro beneficiário de suas riquezas naturais é uma verdade inabalável e ninguém será louco de defender o contrário. Contudo, os investimentos estrangeiros são importantes para esse beneficio, principalmente quando participam do desenvolvimento do país, pagando preços justos pelo gás e petróleo explorados.

Merece destaque, ainda, o fato de que o decreto expropriador boliviano haver sido assinado no momento em que o Presidente Evo Morales retornava de uma visita a Havana, onde criou junto a Fidel Castro e Hugo Chávez o “Tratado de Comercio dos Povos”. Ademais, Bolivia somou-se à “Alternativa Bolivariana para as Américas – ALBA, que Castro e Chávez lançaram em dezembro de 2004, que ainda não disse a que veio.

Atualmente, América Latina vive dias de tensão: o Mercosul patina, enquanto o Uruguai afirma que irá abandonar o bloco; Hugo Chávez ao criticar a assinatura de um acordo bilateral entre o Peru e os EUA, em detrimento da Comunidade Andina de Nações – CAN, detonou uma crise diplomática entre a Venezuela e o Peru; enquanto vários países assinam acordos bilaterais com os EUA.

Por fim, uma frase dos “Considerandos” do Decreto boliviano cabe destaque, ainda, por vincular a recuperação das riquezas naturais daquele país à luta dos movimentos sociais e dos “povos originários”, como base da recuperação da própria soberania nacional.

sexta-feira, abril 28, 2006

Já morreu


A morte é uma vida vivida.
A vida é uma morte que chega.
Jorge Luís Borges

Nascer é começar a morrer.
Teófilo Gautier
(1811 - 1872
escritor francês)

Enquanto estão vivos,
nossos pais são a fronteira
entre nós e a morte.
Quando morrem,
nós passamos para
o primeiro lugar da fila.
Jane Fonda

Eu também já morri. Foi há muito tempo, por volta de 1988 ou 1989. Havia um outro eu, um Freitas Júnior ou Freitas Filho, cujo pai chamava-se também Freitas e trabalhava, também, no mesmo Banco que meu pai. Lembro-me vagamente dele, nadando com seus irmãos na piscina de algum clube da minha infância. Freitinhas morreu voltando de moto de Parnaíba no mês das férias, julho, sozinho.

A notícia se espalhou como pólvora e alguns mais chegados até me ligaram em Recife, onde eu morava naquela época, estudando Direito. Outros se assustavam ao ver-me bebendo no antigo P Center.

– Ué? Você aqui?
- Cheguei ontem, já estou de férias.
- Não me refiro a isso, mas...
- Mas o quê?
- Você... aqui... vivo...
- Eu vivo?
- Nada não, valeu, a gente se fala.
Ninguém realmente consegue levar um papo normal sobre o tema morte. Simplesmente o tema não existe quando somos jovens e cheios de sonhos malucos, mas a verdade é que à medida que envelhecemos o tema se torna ainda mais terrível.

Tenho um amigo que desaparece da vida de qualquer outro amigo que perde um parente próximo por no mínimo um ano, para sequer sentir a tristeza provocada pela morte no amigo enlutado. Na verdade o que ele detesta é a perspectiva de encarar a sombra mortal que paira sobre qualquer luto.

A primeira vez que senti a dor pela perda de alguém querido foi em 1983, quando morreu meu avô. Eu ainda lembro daquele dia. Estava na 7ª série do curso ginasial do colégio dos jesuítas e naquele momento assistia a missa semanal. De repente, entra a pedal e com um sinal de mão me chama à porta da capela. – Suba à sua sala, arrume seus livros que seus pais te esperam na Secretaria. Teu avô morreu.

Puxa vida, isso sim é que é classe em comunicar um falecimento. Um verdadeiro anjo do inferno, a porta-voz do cramunhão, o oráculo do boizebú.

Anos mais tarde morreria minha avó, mas eu já estava mais crescidinho e encarei aquela perda de maneira mais... adulta, digamos assim.

Depois aprendi a matar. Isso mesmo, foi com Jorge Amado. De maneira que há pessoas que andam, falam, respiram, mas em verdade estão mortas. Já não existem mais por mil motivos, pela vilania, pelo excesso de picaretagem e etc.

Talvez a morte seja apenas uma passagem de plano, uma mudança de energia ou qualquer outra explicação esotérica. Pra mim, melhor é não mexer com isso. Fica pra depois, pra bem depois que formos todos nós, em paz, pro maravilhoso bar celestial que nunca fecha.

sexta-feira, abril 07, 2006

Depois do começo do fim




Todo pasa.
Nada dura más que un rato.
Si aprendes esto,
la vida se hace más fácil.

Marlon Brando



Amar à distância somente não é pior que amar uma pessoa sem alma. E existe muita gente sem alma neste mundo. Zombies que vagam pelo planeta a maldizerem de sua própria sorte, encantados com as vidas das outras pessoas, mas incapazes de viverem suas próprias, se enganando com suas mesquinhas vidas pequenas e idiotas. Elas encontram resposta pra tudo, menos pro óbvio: estão mortas.

“- Agora, depois de tanto tempo calada, me diz o que realmente aconteceu”.

O medo pode devorar um ser humano a tal ponto que apenas a histeria nervosa vem a ser sua senhora. Dar ouvidos à razão pode te levar a um imobilismo neurótico irreversível. A paralisia mental de atitudes te conduz pelo estreito e escuro caminho da sensação de fracasso perpétuo.

“- Conta-me uma novidade”.

E tem que ser assim. Não há segunda chamada pra vida e que as Carolinas que esperam nas janelas fodam-se sozinhas. O tempo é agora e o lugar é aqui. Não dá pra esperar mais.

“- Você está comigo ou não?”

Chega de esperanças e bons sentimentos nobres. Chega. Já me sinto abusado de tanta paciência, tanta negatividade e tanto sentimento de desprezo pelos meus sentimentos. Pra mim, basta de doces e fodidas historietas de amor sem rumo, com personagens maníaco-depressivas que se entopem de comprimidinhos cor-de-rosa pros nervos diante de qualquer desafio diante da vida.

“- Vai pôr a culpa em mim, de novo?”.

O tempo vai passar e isso é a única coisa positiva desta historinha toda. Que passe o tempo, vem logo tempo, passa logo, transforma todo esse amor em angústia e sentimento de fracasso até que tudo seja apenas nostalgia, esquecimento e vazio.

“- Cuida-te muito, tchau”.

sexta-feira, março 31, 2006

História congelada



Sigue los deseos de tu corazón;
busca la felicidad.
Haz en este mundo
todo aquello que tu corazón desee.

Terenci Moix,
nas palavras do canto
do harpista na tumba
do rei Intef



Leo Musttonen era um jovem soldado do Exército dos Estados Unidos, que naquele dia completaria seu treinamento como navegador aéreo, sobrevoando as montanhas brancas de Sierra Nevada, na Califórnia. A cabeleira loura, algumas moedas, suas cadernetas de endereços pessoais e seu amuleto da sorte, uma caneta tinteiro Sheaffer, lhe acompanhavam naquele vôo treinamento, antes de cruzar o Oceano Atlântico abordo dum navio de transporte de tropas em direção a Inglaterra, pra desde lá, sobrevoar a Europa dominada pelos nazistas.

Também levava uma piada boba de cunho sexista que dizia: “Um pássaro na mão vale mais que dois voando. Todas as grotas sabem”. Ele já havia realizado dezenas de vôos e somente o friozinho normal de sempre lhe percorria o estômago, forrado de café preto e panquecas. Seus pais, Arvid e Anna Musttonen, imigrantes finlandeses, estavam muito orgulhosos do soldado Musttonen e do papel que seu novo país desempenharia no teatro da II Guerra Mundial. O jovem Leo havia nascido há 22 anos em Brainerd, Minessota, e no colégio fazia parte da banda de música da escola.

Mas, naquele dia o destino de Leo Musttonen estava selado pra sempre. Ele seria mandado, por alguma razão ou lógica que desconhecemos totalmente, direto daquele longínquo 18 de novembro de 1942 para o ano de 2005. Contudo, ninguém jamais saberia o que lhe ocorreu depois daquele último salto do jovem navegador aéreo loiro. Pelo menos, durante os 63 anos seguintes que se seguiram ao desaparecimento do avião que o levava, junto a três outros colegas.

No ano passado, alpinistas encontraram o corpo congelado do jovem soldado Leo Musttonen no alto da Geleira Darwin, com sua cabeleira loira e sua cabeça esmagada, carregando nas suas costas um perfeito e fechado pára-quedas no qual se lia “Exército dos EUA”. Como um túnel do tempo, o encontro do corpo do soldado remeteu-nos ao período histórico da II Guerra Mundial.

Naquele dia, o avião que levava o soldado Musttonen entrou em pane. Ele conseguiu saltar, mas o pára-quedas não abriu. Assim é a nossa vida, muitas vezes pensamos que estamos seguros, com nosso pára-quedas bem atado às costas, caso o avião que voamos entre em pane. Então o pára-quedas não abre e a viagem muda repentinamente de rumo, jogando-nos de encontro ao vazio, num último e definitivo vôo, direto pra dentro da História.

quarta-feira, março 22, 2006

São demais os canalhas desta vida














SIC TRANSIT GLORIA MUNDI.Dessa maneira,
São Paulo define a condição humana em
uma de suas epístolas:
a glória do mundo é transitória.
E, mesmo sabendo disso,

o homem sempre parte
em busca do reconhecimento
pelo seu trabalho.
Por quê?

Paulo Coelho



O meu país possui muitos canalhas. E os canalhas dominaram o Brasil. Mas não dominaram de repente. Não, os canalhas foram dominando devagarzinho, cheios de moral, de peito inchado, bradando a retórica da desfaçatez e do cinismo. Foram ocupando o bar, o clube, a praça, as cidades do interior, a faixa de pedestres, o estádio de futebol, os movimentos sociais, os partidos políticos, o carnaval e os cargos federais.

Os canalhas estão por toda parte, na fila do banco, no estacionamento do shopping center, almoçando a seu lado, te olhando no elevador. E são das mais variadas formas e tamanhos. Há canalhas sorridentes, canalhas sérios, canalhas baixos de barba, canalhas altos e de cara limpa, canalhas analfabetos e outros nem isso. Mas existem os bons canalhas, os que prometem e não cumprem, os que pensam que são espertos e que ninguém desconfia da sua salafrarice. Os canalhas municipais solicitam aos canalhas estaduais que peçam aos canalhas federais doses extras de broches coloridos para a lapela, para o desfile nacional. Os safardanas que nunca administraram nada, nem mesmo suas miseráveis vidas ordinárias.

Tudo igualmente canalha, tudo normalmente canalha, tudo tão claramente canalha. Os novos canalhas de sempre foram substituindo os velhos canalhas de ontem. E tudo ficou tão canalha, mas tão canalha, que ninguém mais se assusta com nada. As pessoas ficaram paralisadas, sem se dar conta que tudo passa, tudo mesmo, e até os canalhas passarão. Mas enquanto isso, vamos convivendo com os canalhas. Canalhas que fazem as leis e não cumprem, que sonegam e ainda por cima apresentam a prestação de contas com notas frias. Canalhas que se agarram com unhas e dentes a seus DAS.5, porque precisam pagar as pensões alimentícias das pobres coitadas que pariram seus filhos estudantes de filosofia e que no futuro serão o mesmo que seus papais: canalhas. Os canalhas procriam aos turbilhões, são férteis, promíscuos e ruins de cama. Mas sempre haverá uma gorda horrorosa para um velho canalha movido a pílulas azuis.

Os canalhas dirigem carros enormes, quase sempre comprados de segunda mão. Os canalhas necessitam de muito espaço, necessitam serem louvados. Os canalhas vestem camisas pólo e calça social. Os canalhas têm sotaques. Os canalhas bebem chope e sempre possuem uma explicação para todas as suas derrotas categóricas. Os canalhas estão cercados de gente burra, que pesam que por terem vivido uns anos adquiriram sabedoria aos esbarrões. Os canalhas plantam mal e colhem pior ainda. São incapazes de respeitar seus testículos e jamais se irritam com nada: o importante é manter as aparências, mesmo caindo de podre, disse o velhaco. Os canalhas possuem o vil sangue de barata!

Mais que merda de canalhas fizeram isso com meu país? Foi pra essa canalhada analfabeta e mal cheirosa, de dentes mal cuidados, ditarem as regras? Foi pra isso que as pessoas comuns escolheram os patifes? Foi pra isso que derrubamos os velhos canalhas? Para sustentar novos canalhas cheios de diárias para países que nunca jamais poderiam passear por seus próprios bolsos? Cadê a rapaziada que acredita na vida? Onde estão os verdadeiros nobres de espírito do Brasil? Foram embora? Fugiram? Estão tentando cruzar a fronteira mexicana? Por que os homens de verdade deste Brasil não gritam? Pra onde escorreu o sangue das veias? Então é que os canalhas venceram?

Sem perceber, o canalha do teu lado bateu tua carteira, saiu correndo e pulou o muro do colégio de freiras carmelitas. Justo agora, quando você ia pagar a conta, e dar uma gorjeta pro desgraçado do garçom magro e mal nutrido, que engordou de repente, quando foi promovido a gerente do puteiro que você jamais freqüentou. Nesse exato momento, enquanto você olhava as pernas da filha gostosa da colega de trabalho do teu tio do TCU, o canalha saltou o alambrado do parque e gritou – pega ladrão, pega!



* Escrito na cidade de Brasília em 18 de novembro de 2005

quarta-feira, março 01, 2006

Até o fim


Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
(...)
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro, acabou minha renda
(...)
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Chico Buarque
"Até o fim",
1978.
Tem dias que a gente fica tristão mesmo, principalmente depois do carnaval, achando que aquela alegria boba apenas adia o momento de decidir tanta coisa que a gente considera importante e que nem começou a pensar direito. Aí vem uma amiga nova que já conhece um pouquinho do nosso jeito de ser e, olhando praquela cara triste de dar pena, diz: - Você está sem plano de vôo. E acerta na mosca. Bingooooooo. Na mosca mesmo, porque faz tempo que você anda sem rumo, sem “plano de vôo”. Porque está escrito na tua cara que você navega sem rota há séculos num oceano Atlântico de opções, com toda tua vontade de ser feliz e de comer o mundo.

Mas quantas vezes você já navegou sem plano de vôo e afinal, que diabos significa ter um plano de vôo na vida? Claro que eu já fiz mil planos na vida e que todos escorreram feito cerveja gelada pela garganta de um sedento no passar dos anos. E tinha que ser assim, não há outro modo. Porque a vida é isso mesmo. Hoje você faz planos e planeja tudo certinho, aí vem o destino amanhã e revira tudo, deixa tudo igual que antes, de pernas pro ar. Minto, isso acontece se você tiver um caquinho assim de sorte, porque pode ficar muito pior. Então o melhor é ter idéias, ter princípios, confiar em você mesmo, esperar um pouquinho enquanto passa o “banzo” pra voltar a sorrir e, de novo, fazer mil planos, esperando sempre que a grande roda da vida volte a rodar e parar no teu nome.

Todo dia é segunda-feira, todo dia é dia de recomeçar, de sacudir a poeira e dar a volta por cima. Dizem que os suicidas odeiam as segundas-feiras. A idéia de recomeçar os arrasa. Pois nada disso ocorre comigo. Eu simplesmente amo as segundas-feiras, encanta-me a idéia de recomeçar a cada dia, com mais garra, com mais pique, esperando sempre aquela sensação de gol do Fluminense no estádio das Laranjeiras lotado. Segunda é dia de ir pro Armazém do Ferreira e beber chope, e comer quibe, e encontrar o Piauí e perguntar pela última piada de Brasília. É dia de chegar no trabalho e berrar na porta: - Bom dia torcida brasileira!

É que às vezes é preciso dar um tempo nos planos e viver o dia. Agüentar a chatice da melancolia pra escrever algo interessante. Como em “Coração de caçador”, às vezes faz falta sofrer um pouquinho pra começar a filmar, mesmo estourando o orçamento, deixando os atores malucos e o produtor arrancando os cabelos de puro desespero. De vez em quando faz falta ficar meio perdido mesmo, esperando que as idéias amadureçam um pouquinho, que o mundo se esqueça de nós pra podermos sorrir outra vez. Mas, como diz a canção nordestina: Não se avexe não.

Então vamos com calma. Já já aparece outra loucura, outra fantasia, outro projeto. A vida não pára. Pode ser aqui, agora, ou no estrangeiro, aí eu vou embora. Quem sabe ser funcionário da ONU ou mesmo professor em Angola. Largar tudo e investir em viver de literatura ou mesmo voltar pra província e contar estórias de como você foi “cavaleiro andante” pra impressionar adolescentes estudantes de direito ou letras. Eu já me acostumei em viver assim, flibusteiro cigano, sem ter casa nem bandeira, vivendo de qualquer maneira, no meio de um mundo tão louco, encontrando bondade e maldade em cada porto.

No meio da calmaria eu não me stresso. Afio minha espada, bebo meu rum, canto minhas canções. Sou caolho e perna-de-pau. E tenho um lenço atado à cabeça. As velas estão inçadas, as amarras estão soltas e minha âncora há muito está levantada. Quando o vento soprar, eu vou a mil, gritando feito um louco no meio do oceano mais desconhecido ou nos mares do sul. Tenho munição, a tripulação está descansada e temos fome de riquezas e botins de guerra. Oh, inimigos meus, preparem-se, porque este judeu errante está transbordando de desejo de vitórias.

E será como sempre, novos desafios, grandes projetos, batalhas inesquecíveis, vitórias e derrotas. Vida, acima de tudo. Que os adversários estejam à altura dos nossos heróis e que as mocinhas estejam com os corações cheios de paixão e lábios abarrotados de ternura molhada, entre outras coisas. Sempre em frente, jamais voltamos, feito a “Royal Navy”, mas sem bandeiras ou portos obrigatórios a que retornar. Sem amos nem escravos. Apenas nós mesmos e o grande e desconhecido futuro. Cara a cara.

Seja o que for, eu há muito estou preparado. Porque quem vive sem plano de vôo sempre está preparado. Pra encontrar você ao dobrar uma esquina, pra desencantar de vez com nossa América Latina ou mesmo pra apertar o nó da gravata. Meu coração é novo e meu anjo da guarda já enlouqueceu faz tempo. O importante é saber tirar proveito do silêncio, da falta de riso, da falta de saco, deste vazio momentâneo. É saber quem você é de verdade, no meio do tiroteio infernal ou no meio da companheirada mais boçal. Sempre com grandes planos pro futuro, cuidando dos pequenos, celebrando a vida e cantando todo dia: Força sempre, até o fim.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Para Rubem Braga, com carinho





Entra, vizinho,
e come do meu pão
e bebe do meu vinho.
Aqui estamos todos a bailar e cantar,
pois descobrimos que a vida é curta
e a lua é bela.

Rubem Braga,
no semanário ‘Comício’,
de 1952.


Todo mundo já teve, ou ainda tem, algum ídolo. Alguém pra admirar, sonhar, ou apenas o desejo secreto de ser aquela pessoa, em algum momento de sua vida ou durante toda a vida.

Meu primeiro ídolo foi o Roberto Carlos. Sim, mas não pensem que foi o RC de hoje em dia, mais sertanejo que qualquer catador de tomates que sonha em cantar numa festa de peão de rodeio. Não, definitivamente desconheço o “Rei” de hoje. Eu me refiro ao RC dos filmes dos anos sessenta, que somente assisti no final dos setenta, na velha e ainda viva “Sessão da Tarde”, na Globo. Ele era incrível. Tinha todas as meninas a seus pés. Era pura magia ver seus filmes, escutar os discos que minha mãe tinha comprado há anos e descer a toda na minha “Monareta” gritando “eu sou terrível”.

Depois, em 1977, morreu Elvis. E assistimos a todos seus filmes na “Sessão da Tarde”. De repente, todos os garotos da minha rua queriam ser Elvis. Ele também tinha todas as meninas na sua. Apesar de, naquela época, eu achar que o nosso Roberto Carlos era bem mais bonito que o Elvis.

Por fim, virei fã do John Wayne. Eu já tinha crescido um pouquinho e aquele símbolo de masculinidade serena, senhor de qualquer situação, tinha mais a ver que a ‘porralouquice’ dos ídolos da infância.

E tive muitos outros ídolos no passar dos anos e começo da adolescência. Chegaram os Beatles, o Led Zeppelin, Jack Kerouac, Getúlio Vargas, Luis Carlos Prestes, e muitos outros que foram tão efêmeros que nem merecem figurar nesta crônica.

Hoje em dia, considero-me parcialmente um adulto. Afinal, estou beirando os quarenta, apesar de tentar manter um coração adolescente no meio de tanta hipocrisia adulta e contas pra pagar. De maneira que já não tenho ídolos, e imagino que tampouco os terá minha geração.

Contudo, um autor que descobri cedo, ainda nos livros de “Comunicação e Expressão” do colégio, consegue manter-me cativado. Esse autor é Rubem Braga. Cada vez que releio algo do Rubem Braga, mais me emociono e mais admiração e respeito aquele camarada consegue obter de mim. Porque não sei se será pela maturidade que insiste em chegar, totalmente contra a minha vontade, ou pela identidade refletida nas suas crônicas, Rubem Braga sempre saca o melhor de mim, e sinto-me reconfortado ao lê-lo, como se fossemos velhos amigos de toda vida, e soubéssemos exatamente de que estamos falando.

Rubem Braga também nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, como o Roberto Carlos. Só que bem antes dele, em 12 de janeiro de 1913. Viveu em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no Recife e em Porto Alegre. Foi correspondente de guerra com a FEB durante a II Guerra Mundial e, por isso, viveu alguns anos na Europa. Ocupou cargos representando o Brasil no Chile e no Marrocos. Contudo, Rubem Braga entrou pra literatura brasileira falando de si mesmo, de sua memória, de seus sentimentos mais profundos através da crônica diária nos jornais. Quase todos seus livros sempre foram coletâneas de suas peças diárias publicadas na imprensa nacional.

Seu texto “A Navegação da Casa” já foi lido por mim milhões de vezes, e não posso ter uma visita regada a vinho aqui em casa que eu não a peça pra lê-lo outra e outra vez. É simplesmente fantástico. E há um trecho desta crônica escrita em abril de 1950, em Paris, que considero pura poesia. Aquele que ele escreve: “Oh! deuses miseráveis da vida,por que nos obrigais ao incessante assassínio de nós mesmos, e a esse interminável desperdício de ternuras?” Confesso que vou às lágrimas só de imaginar aquele velho escritor amigo de farra do Vinicius de Moraes afirmando isso. Esta será um dia considerada uma das melhores frases já escritas em língua portuguesa.

Porém, Rubem Braga escreveu muito mais. Na crônica “Ao Amigos na Praia”, de 1956, que já dei cópia pro Pedro e pero Wellington, se não me falha a memória, há uma frase de verdadeiro significado para aqueles que já tiveram a sorte de ter velhos amigos: “Éramos três velhos amigos e cada um estava tão à vontade junto dos outros que não tínhamos o sentimento de estar juntos, apenas estávamos ali”. Simplesmente divino. Claro e direto como um velho amigo.

Em outra crônica, intitulada “Uma tarde, em Buenos Aires”, também de 1956, Rubem Braga escreveu: “Uma tarde em Buenos Aires eu estava meio triste – mas não bebi, não telefonei, não procurei nenhuma pessoa amiga”. Somente quem já se sentiu “meio triste” e bebeu, e telefonou ou procurou a alguma pessoa amiga poderá entender os verdadeiros versos contidos nessa frase.

Rubem Braga foi-se para nunca mais voltar numa quarta-feira, dia 19 de dezembro de 1990. Dois dias antes, havia reunido seus mais próximos amigos pra jantar na sua cobertura de Ipanema, que na porta tinha uma plaqueta escrita: “Aqui vive um solteiro feliz”. Ele já tinha preparado tudo. Inclusive havia contatado com um crematório de São Paulo para suas exéquias.

Uma vez, o poeta Paulo Lemisnky escreveu que quando tivesse setenta anos iria acabar sua adolescência. Sobre ter ídolos, eu diria que o fim da adolescência ocorre quando você deixa de ser Harry Porter no filme "Cálice de Fogo" ou John Wayne em "Hatari!", e passa a ser você mesmo, em seu próprio filme, chamado vida.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

E mesmo assim eu espero




It's time the tale were told
Of how you took a child
And you made him old
Reel around the fountain
Slap me on the patio
I'll take it now

Oh ... Fifteen minutes with you
Well, I wouldn't say no
Oh, people said that you were
virtually dead
And they were so wrong

Reel around the fountain,

THE SMITHS,
1984

E mesmo assim eu espero, espero que você me chame no dia do meu aniversario. É muito engraçado, porque afinal eu nem te liguei no teu. Mas não importa, eu continuo esperando tua ligação. A diferença horária é de cinco horas e será quase meia noite agora no Brasil, e eu continuo aqui, às cinco da matina, desperto, esperando tua chamada que eu sei que não chegará.

O dia passou como todo aniversario, com um montão de gente que não tem nada a ver me chamando e dizendo coisas sem sentido, pelo menos para mim. Mas você não chama, você não está nem aí. O pior foi que uma amiga em comum me disse que você está viajando, está na praia com os seus, com sua gente, enquanto que eu passo a noite em claro, esperando uma chamada que certamente nunca virá.
E quanta saudade de ouvir tua voz, de ouvir tua suave voz dizendo as palavras mais bobas, dizendo meu nome como só você sabe pronunciar. As lembranças são como sonhos bons e antigos, que às vezes a gente já não sabe se sonhou ou aconteceu de verdade, alguma vez. Triste é saber que sem querer, que de verdade sem a menor intenção, já começo a te esquecer. Puxa, que mau, eu não quero te esquecer, eu não consigo te esquecer e já começo a não me lembrar bem em que cidade estávamos quando jurei nunca te deixar, que já não tenho certeza qual é nossa música, que já começo a duvidar de nós mesmos.

Talvez você pense que sou o mesmo romântico, louco por amores impossíveis, complicando as coisas simples, sempre fugindo de nós dois, se escondendo de mim mesmo. Mas a verdade é que eu não sei quase nada além de passar a noite do meu aniversario longe de casa esperando tua chamada. Quem sabe se você sabe algo mais???? Quem sabe você sabe um montão de coisa a mais que isso e só por orgulho não me diz nada???? Ou talvez você tem mas dúvidas que eu e lá no fundo já não confia mais em nós????

Bem, as pessoas imaginam o que querem e somente às vezes acertam no que realmente querem. O duro é romper o coração de uma outra pessoa que, por pura emoção se aproximou e ficou cativa do teu coração, de ti. Todos os fantasmas que morreram sozinhos me rodeiam nesta noite tão triste...

Mas a esperança é parada derradeira e meu trem segue cruzando a noite deserta da velha península, chegando por fim ao cais do porto de onde os galeões cruzavam o grande oceano em direção a América. E quantos poetas me acompanham nessa cruzada vazia...

* Escrito na cidade de Valencia, Espanha, em 26 de julho de 2001

terça-feira, janeiro 17, 2006

Amores impossíveis



Prefácio de
um livro nunca escrito,
mas já imaginado,
sonhado, discutido,
borrado e reescrito
durante anos.
“Amores impossíveis” é uma série de contos, estórias de romances de estação, amores de verão, recordações que escutei conversando com pessoas mais velhas, que já tinham vivido e errado muito. Traduzem sentimentos há muito escondidos, mas nunca esquecidos. São fragmentos de vidas humanas que jamais foram revelados e que se perderiam para sempre, caso não fossem escritas e talvez lidas por alguém. Certamente alguns terão vivido casos semelhantes e se identificarão. Outros, tendo vivido uma vida sem grandes aventuras e paixões, apenas sorrirão. Mas, a grande maioria ficará calada. E lá no fundo de suas almas, naquele lugarzinho que somente nós mesmos percorremos, guardará silêncio eterno sobre suas verdadeiras estórias de amor impossível.

O tempo é senhor, o tempo a tudo cura, dizem os sábios. Entretanto, esta série de contos comprova que alguns de nós carregamos sentimentos que o tempo não foi capaz de curar, se é que existe cura para o amor. A solidão, mesmo acompanhada, ou como disse o poeta, “solidão a dois”, ainda é a tônica dos nossos tempos, principalmente neste começo de século XXI, onde as incertezas e o medo prevalecem sobre quase tudo, e o amor não seria exceção. Vivemos a Era do Medo, nas palavras dos especialistas em decifrar catástrofes reais. Então, pra que falar de amor?

Mas que podemos fazer além de amar e amar, de amar e esquecer, de amar e esperar ser amado? Nós, pobres criaturas, afirmou outro poeta, que podemos desejar além do amor?
E desejamos muitas coisas. Queremos morar bem, vestir-nos bem, possuir o melhor carro, pagar aos filhos a melhor educação, comermos bem, enfim, viver a melhor vida que o dinheiro puder comprar. Mesmo se o preço para a melhor vida seja o sacrifício de nossos sonhos, de nossos desejos, de nossa própria essência. O preço que pagamos não nos deixa enganar, basta verificar o que se gasta em drogas pra dormir e em consumo de coisas totalmente supérfluas, que na verdade não durarão até o próximo lançamento da moda primavera/verão.

Tenho um amigo que coleciona aparelhos celulares velhos. Até aí nada demais. Todos nós temos nossas manias e hobbies, e o Caetano já disse que de perto ninguém é normal. Acontece que sua coleção de aparelhos celulares velhos é sua maneira de esquecer que uma vez amou e sua estória de amor não acabou bem. Ele coleciona objetos jogados no lixo pra esquecer que um dia também ele jogou algo, que pensava estar ultrapassado, no lixo. Esse algo foi seu amor. Um amor tão profundo e desinteressado que somente alguém como ele, que coleciona quinquilharias, poderia dar.

Nada pode ser eterno, a não ser que seja eterno enquanto dure, cantou Vinícius, um homem que foi chamado de o poeta da paixão, pois seus incontáveis casos já não são considerados casos de amor, mas casos de paixão, tal o grau de imperatividade amorosa do poeta. Mas não devemos julgar a todos os poetas apenas por Vinícius de Moraes, pois o grande poeta chileno Pablo Neruda, que ninguém pode dizer que amou menos que Vinícius, era um homem que defendia o matrimônio e a fidelidade até as últimas conseqüências, e jamais pode entender àqueles seus amigos que viviam em total e extravagante solteirice. Neruda era o homem que nunca soube viver só. Tal qual meu amigo Rafa, o casamento lhe era algo tão necessário como respirar ou tomar uma dose de JB.

Enfim, o difícil deste prefácio é como o difícil de escrever sobre sentimentos de outras pessoas, porque jamais saberemos o que realmente pensaram ou sentiram quando afirmam que pensaram ou sentiram algo. Sempre nos restará a dúvida sobre suas reais intenções e sobre seus sentimentos. Mas não é assim que somos? Nunca entregamos aos demais nossa identidade real ou nossos verdadeiros sentimentos? Ou será que alguns de nós conseguem realmente amar e calar, amar e esquecer, amar e guardar, amar e calar? Será que existe vida em preto e branco ou apenas podemos sobreviver nesta cor?

Vamos a nossas estórias de amores impossíveis.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

A livraria dos meus sonhos


"(...)
declaran los infieles que si ardiera,
ardería la historia. Se equivocan.
Las vigilias humanas engendraronlos
infinitos libros. Si de todos
no quedara uno solo, volverían
a engendrar cada hoja y cada línea,
cada trabajo y cada amor de Hércules,
cada lección de cada manuscrito (...)

Jorge Luis Borges,
Alejandría, 641 A. D.",
em Historia de la noche,
1977.
Sempre que a vida prega-me alguma peça e vejo-me meio assustado, com medo do futuro, penso em minha livraria. Sim, eu tenho uma livraria. Uma livraria que carrego dentro de mim, talvez minha loucura definitiva, como diria minha mãe, um sonho de abrir uma livraria numa imensa terra de analfabetos.

Mas minha livraria, como todo sonho, é feita de livros e momentos, de pessoas e sentimentos, de poesias e contos, de cafés e conhaques, de alegrias e de algumas lágrimas. Ela vive dentro de mim e sempre que me sinto triste, retiro-me à minha livraria e sinto o odor de madeira e papel que vem de suas estantes. Vejo o belo sofá branco convidando os visitantes ao conforto de seu colo e a cafeteira fumegante a espalhar no ar o cheiro forte e quente de café, aliado incondicional de um cigarro.

As livrarias resistem, apesar de este ano, meu bom amigo Gaspar haver fechado sua “Punto y Coma”, uma das melhores livrarias da Espanha. Passei infinitas horas a ‘buquinar’ naquela livraria e a conversar com Gaspar. Aprendi muito naquelas tardes de solidão e melancolia durante a tese em que eu buscava refugio entre as estantes de madeira e o cheiro de papel novo da “Punto y Coma”. Recordo da eterna promessa de Gaspar, jamais cumprida, de levar-me a Denia para comermos um arroz negro. Lembro sua jocosa proposta de deixar a livraria aberta durante a noite, para que eu pudesse entrar sorrateiramente a surrupiar meus livros favoritos, tudo para criar a inacreditável manchete dos jornais da manhã seguinte: Livraria assaltada. Tudo isso pra demonstrar sua teoria de que ninguém rouba uma livraria, pelo menos seus livros.

E existem as livrarias irreais, as verdadeiras e mágicas livrarias, como aquela que entrei no Quartier Latin, em Paris. Era uma velha livraria, daquelas que vendem mais livros velhos que novos. E possuía um dono de cabeleira branca e suspensórios, a ler o jornal com uma enorme lente de aumento. Aquele lugar, com seu ambiente noir, parecia saído do passado. Quando regressei a Espanha, ainda era verão e fui pro meu balcão favorito, o do Café das Letras. Para minha surpresa, Dani, o proprietário, havia pedido duas cópias de um cartaz de um concurso fotográfico promovido pela Universidade de Salamanca, ilustrado exatamente pelo retrato da minha livraria francesa!!! O nome da foto era “O Livreiro Egípcio”. Mas eu insisto, até hoje, que aquela livraria está em Paris.

Muitas outras livrarias passaram por minha vida, como a Leonel Franca, naquela Teresina do começo dos anos 80, a Livro 7, no Recife do meu início de curso de Direito, e a livraria da Moema, que acho que se chamava Papirus, em São Luís. Todas tiveram seu momento mágico e hipnotizaram aquele menino que um dia queria capturar toda a cultura.

Hoje, os grandes centros comerciais estão matando as livrarias, com seus “best sellers” vendidos em estantes aos quilos, como qualquer produto de limpeza, cheios de descontos promocionais. Tudo pra quebrar a livraria, a verdadeira livraria, aquela onde os atendentes são alfabetizados e conseguem até dá uma opinião razoável sobre a obra que despertou teu interesse.

Eu, por minha vez, freqüento hoje em dia duas livrarias enormes: a Livraria Cultura e a Fnac, ambas em Brasília. Passo horas naqueles lugares sagrados, principalmente em minhas tardes de domingos, mas.... não compro nada. E não o faço pela simples razão de que eles, por serem grandes livrarias, não precisam de minhas moedas para sobreviver. De maneira que eu desfruto de minha visita, analiso os lançamentos, rememoro as velhas edições, namoro as obras clássicas e não compro absolutamente nada. Devo ser o desgosto de todas as atendentes. Prefiro ir a uma pequena livraria café chamada Rayuela, na 413, que significa “Jogo da Amarelinha” em português, como no titulo da imortal obra de Julio Cortaza, para tranqüilamente comprar-me algo.

Então, como agora, enquanto todos estão sorrindo e festejando o Ano Novo, eu caminho lentamente para a livraria dos meus sonhos, a livraria que carrego dentro de mim. Elejo algo que me dará um imenso prazer de ler, sento na poltrona de couro marrom, minha caneca de café a mão, um Parliament acesso no cinzeiro. Começo a leitura entre aromas de velhas prateleiras e papel. Papel vivo, cheio de estórias, sabedoria, informação, diversão e companhia. Papel cheio de vida.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Sorte no amor



Moonlight and love songs
Never out of date.
Hearts full of passion
Jealousy and hate.
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny.
It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die.

The world will always
welcome lovers
As time goes by.

As Time Goes By,

Herman Hupfeld, 1931

O amor é uma dádiva de Deus aos homens para que estes se sintam um pouquinho menos só, nesta existência tão vazia. O amor, também, é sorte. Porque não basta somente amar e amar, mas é necessário ter a sorte de ser amado. E ser amado não por qualquer pessoa, mas pela pessoa a quem se ama. O amor é jóia preciosa, perdida no meio do lixo da vida humana, à espera que alguém de sorte o encontre e saiba lhe dar valor. O amor é o começo e o fim, é a volta ao princípio da partida, é a solidão acompanhada e a companheira no alto do Everest.

Tantas vezes tentei o caminho do amor, acreditando num futuro a dois, e tantas vezes chorei sozinho no escuro do meu quarto entre lembranças e rancores. As frases que’u nunca disse, as flores que nunca dei, a loucura de amor que’u nunca fiz. Minhas lembranças nunca saíram de mim, isso eu sei, e já não posso seguir com elas. É necessário descarregar o peso da minha alma cansada em algum cais de porto. Quando se anda tanto, a gente acaba sendo um pouco de todo lugar e, ao mesmo tempo de nenhum lugar. A busca do amor em paz esconde em si a busca do amor maior, do grande amor.

Mas o amor é bicho caprichoso, requer cuidado acima das forças de um homem comum, sem maiores pretensões que amar uma mulher que lhe queira mais que ao mundo. Deixei passar tantas oportunidades de felicidade por acreditar nos indecifráveis desatinos do meu coração. Um coração “viciado em amar errado”, como um dia disse Cazuza. Um coração que quebrou as amarras do porto há anos e navega num mar de amores que trouxeram mais dor e solidão que companhia para as tristes tardes de domingo.

Por isso, ao me verem sozinho, não pensem que ali está sentando um homem que nunca amou, mas acreditem que ali está um homem que amou demais e que imagina conhecer quase todos os mistérios existentes no ato de amar. Sim, eu sei o sabor de todos os adeus, conheço os sons das portas batidas a esmo e toda a solidão das salas de espera dos aeroportos.

E depois de tudo, principalmente no Natal, ainda confundo essa dor de estomago com saudade, e este gosto amargo de lágrimas e soluços com o mais pesaroso sentimento de fracasso diante desse amor partido que nunca vai voltar, e que nunca será o mesmo.

Hoje a noite eu dormirei sozinho. Mais uma vez.

* Escrito em Brasília, em 12 de fevereiro de 2005.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Evo Morales da Bolívia



Um índio descerá de uma estrela
colorida e brilhante
De uma estrela que virá
numa velocidade estonteante
E pousará no coração
do hemisfério sul,
na América,
um claro instante

Índio,
Caetano Veloso

Durante as guerras de independência da América espanhola, no século XIX, Bolívia era apenas uma província do Vice-reino da Prata, que viria a ser hoje a Argentina, assim como o atual Paraguai. A região do altiplano andino já tinha financiado a riqueza e decadência do Império espanhol, através das minas de prata de Potosí. O próprio nome de Bolívia foi uma homenagem interessada ao libertador Simon Bolívar, para assegurar assim, sua pessoal defesa da independência da região não somente dos espanhóis, mas também dos futuros argentinos. Entretanto, a Bolívia se liberta do Império espanhol pelas mãos do General Sucre, e não pelas de Bolívar, como muitos imaginam.

O certo é que a Bolívia conseguiu sua independência, de europeus e crioulos, para tornar-se o país sul-americano com o maior número de golpes de Estado de sua história e um dos mais pobres. O país perdeu todas as guerras em que entrou, com conseqüências graves o território nacional, mas muito piores para sua população, majoritariamente de indígenas Aymara e Quéchua: a Guerra do Pacífico (1879-1883) – Apoiou o Peru contra o Chile, perdendo ao final sua saída ao Oceano Pacífico; b) Guerra do Chaco (1932-1935) – Contra o Paraguai, em que perdeu dois terços da região conhecida por “Chaco”.

O Professor espanhol Manuel Alcántara, no seu clássico “Sistemas Políticos de América Latina” afirma que a Bolívia “tradicionalmente foi uma república oligarca, monopolizada pela minoria branca, assentada no Altiplano, onde praticamente o Estado não existiu até meados do século XX”. A mineração, sua tradicional maior riqueza, e hoje em dia o gás natural, sempre caminharam juntos com a política, tendo o exército nacional como elemento de força a serviço das classes dominantes.

Neste quadro terrivelmente terceiro-mundista, de distanciamento entre a classe política, as elites econômicas e a população, o país sofreu protestos sociais desde 2004 que cumularam na deposição dos presidentes Gonzalo Sánchez de Lozada e, em junho de 2005, a Carlos Mesa.

Contudo, Bolívia poderá eleger neste domingo seu primeiro presidente saído da maioria étnica espoliada e esquecida durante séculos. O ‘aymara’ Evo Morales, atual deputado pelo Partido “Movimiento al Socialismo - MAS” e líder dos “cocaleros”, leva 34% das intenções de voto. Seu principal adversário, o ex-presidente direitista Jorge Quiroga, segue na disputa com 29% das intenções de voto, segundo a imprensa boliviana.

Evo Morales fundou o “Movimiento al Socialismo – MAS” em julho de 1987, mesclando oriundos do sindicalismo, do marxismo da década de 1970 e do movimento social dos produtores de coca. Desde então o partido apenas cresceu, sendo o segundo mais votado em 2003 e o primeiro nas eleições municipais de 2004. Concorrendo à presidência em 2002, Evo Morales ficou em segundo lugar. Caso vença domingo, Evo Morales já possui a palavra do Mercosul de que seu país será elevado à categoria de membro de pleno direito.

Sobre sua afinidade com o Presidente Lula, disse Evo Morales: “Me sinto muito unido a Lula, que vem da luta sindical, assim como eu venho da luta dos trabalhadores rurais. Seus pais eram analfabetos como os meus. Eu não terminei o segundo grau e jamais tive uma empregada doméstica. São muitas coincidências e por isso o considero como um irmão mais velho”.

Esta será a sétima presidencial boliviana, desde a redemocratização do país em 1982. Ademais, se elegerão, pela primeira vez, os governadores de seus nove departamentos administrativos, denominados “Prefectos”, que prepararão o referendum sobre a autonomia destes departamentos, em julho de 2006. Para 2006 o país convocará uma Assembléia Constituinte que promulgará uma nova Constituição. Oito partidos políticos concorrem nestas eleições.

Pela atual Constituição boliviana, a eleição presidencial acontece em um único turno, no qual o candidato para sair vencedor deve conseguir a maioria simples dos votos. Caso isso não ocorra, o Congresso nacional deve escolher o presidente.

Neste domingo, pouco mais de 3,5 milhões de bolivianos elegerão a 130 deputados, 27 senadores e nove governadores de departamentos. Decidirão sobre algo mais, decidirão sobre seu próprio futuro como nação, escolherão quem deve ser beneficiado pelas riquezas de seu país. Que Bolívia eleja o ‘aymara’ Evo Morales, que Bolívia eleja a Bolívia, pela primeira vez em sua história, neste domingo.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Simplesmente John



Love is the answer
and you know that for sure

Love is a flower,
you got to let it,
you got to let it grow

John Lennon,
Mind Games,
1973.



Estávamos nas férias de dezembro de 1980, quando a noticia da morte de John Lennon chegou na minha casa. Acho que foi o Cid Moreira quem anunciou no Jornal Nacional. Eu tinha apenas 11 anos, mas adorei “Imagine” desde a primeira vez que ouvi. Sim, a primeira vez que ouvi “Imagine” foi com a noticia da morte de Lennon. Depois, pedi dinheiro ao meu pai e comprei um compacto simples, na loja Caiçara que ficava pertinho da praça João Luis Ferreira, e “Imagine” passou a ser presença constante nas festinhas que a meninada organizava na vizinhança. Acredito, sinceramente, que a minha primeira paixão aconteceu no exato momento em que eu dançava com a filha da vizinha, embalado por essa música, no terraço da nossa casa.

Depois, em 1981, eu já estava estudando inglês e me lembro do dicionário do Yázigi, aquele da capa amarela e páginas cheirando a Bíblia, aberto pra traduzir a canção. Aí comecei a ganhar disco dos Beatles no meu aniversário. Todo mês de julho começou a chegar disco dos Beatles em casa, numa tradição que se repete até hoje. Tenho uma amiga escocesa chamada Linda que até hoje me manda discos piratas dos Beatles no meu aniversário, pois os discos catalogados já tenho todos, em “bolachão” e em CD.

De maneira que os Beatles passaram a ser companheiros de adolescência, verdadeiros amigos naquelas tristes tardes de tédio, sonhos vazios e consciência pesada pelas notas baixas e pela falta de perspectivas de mudança num futuro próximo. O tempo se arrastava naquelas tardes agarrado ao livro de química do Geraldo Camargo, mas com a cabeça viajando por longínquos lugares cheios de pernas, coxas, peitos e pelos pubianos. Como a puberdade cobrava seu preço naquelas tardes ausentes de musas sensuais.

John morreu em 8 de dezembro de 1980, tinha 40 anos, e desde então lá se vão 25 anos. Tempo que transformou aquele pré-adolescente e que mudou alguma coisa nesse louco mundo em que vivemos. John agora é só um mito, talvez o maior de todos os mitos da cultura pop do século XX.

Suas músicas continuam tocando, principalmente "Happy Xmas (War is over)", a mensagem originalmente escrita pra o natal de 1969, no Natal (e aqui abro um parêntese para mandar ao diabo a versão ridícula cantada pela Simone). Inclusive Yoko Ono fez as pazes com Paul McCartney, bem antes da morte de George Harrison, autorizando a gravação da inédita “Real love”, cantada por John e incluída no “Anthology 2” dos Beatles.

Nestes 25 anos sem John, a música dos Beatles e a produção individual de Lennon apenas cresceram e se valorizaram ainda mais. Desde que a banda inglesa Queen gravou a música “Life is real”, tornou-se lugar comum qualificar a John como gênio. Ele mesmo já tinha referido a si mesmo como gênio, afirmando ser uma carga por demais pesada. Suas posições políticas - destacadamente sua posição pacifista, em contra da guerra do Vietnã, seu apoio aos movimentos de esquerda estadunidenses, a defesa do feminismo e sua luta em favor dos Direitos Civis – o tempo demonstrou que foram acertadas. Como também se demonstrou mais tarde, ao abrirem-se aos arquivos da CIA, que não era paranóia sua a perseguição que sofreu nos EUA pelo governo Nixon.

John certamente foi o último grande nome da cultura pop a rebelar-se contra o sistema. Um rebelde com uma guitarra e uma idéia de igualdade na cabeça, gritando pela transformação do mundo em que vivia, de mãos dadas com sua mulher de quimono. Um exemplo pra todo idiota que pensa que está bem na vida, pois inclusive os milionários podem ser revolucionários, podem querer transformar o mundo, mudar o planeta e lutar pelas enormes injustiças que acontecem todo dia em qualquer cantinho da terra. Pensando globalmente, mas agindo localmente. Dar uma real contribuição para melhorar nossa comunidade. Tudo isso era John, e nada disso ficou desbotado nestes 25 anos passados.

Há uma imagem de John andando super feliz pelo Central Park, em Nova York, sorrindo na cidade que ele escolheu pra viver. É essa imagem que vou recordar neste 8 de dezembro de 2005, a imagem de um homem resolvido consigo mesmo, com o seu passado, e feliz da vida.

quarta-feira, novembro 30, 2005

O feijão e o sonho


Debemos mirar más que somos
padres de nuestro porvenir
que hijos de nuestro pasado.

Miguel de Unamuno

Todos sabemos que o governo Lula sofreu abalos pelos escândalos provocados pelas denúncias de pagamento de congressistas para votar os projetos do Governo no Congresso Nacional, a partir de junho de 2005. As denúncias de pagamento de “mensalão”, feitas pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson, ex-presidente do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB, causaram a saída do ex-ministro e homem forte do governo Lula, José Dirceu, Chefe da Casa Civil da Presidência, além da abertura de uma série de Comissões Parlamentares de Inquérito – CPIs. Ademais, o escândalo tolheu a Delúbio Soares, tesoureiro nacional do Partido dos Trabalhadores – PT e ao Secretário Geral do partido, o deputado José Genoino.
O Presidente Lula já deixou escapar que pretende ser candidato à reeleição. Em sua candidatura de 2006, os cronistas políticos apontam a possível presença do Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Nelson Jobim, como forte candidato a ocupar a vaga de Vice-presidente na chapa encabeçada pelo Presidente Lula.

Entretanto, atualmente, a economia brasileira é uma das mais saudáveis e dinâmicas da América Latina, tendo o PIB de 2004 alcançado o índice histórico de 5,1% de crescimento, segundo dados da CEPAL. O país terminará uma relação de 24 anos com o ‘Clube de Paris’, pagando àqueles credores quase 2,5 bilhões de dólares até dezembro de 2006. Inclusive, as amortizações da dívida externa para 2006 serão as menores desde os últimos seis anos, graças à redução do endividamento pela adoção do regime de câmbio flutuante, adotado em 1999. Até o Relatório de Desenvolvimento Humano 2005, que mostra a situação do desenvolvimento humano no mundo, no tocante ao ranking dos países quanto ao Índice de Desenvolvimento Humano – IDH, coloca o Brasil ocupando a 63ª posição, de um total de 177 países. Vale recordar que em 2004, o país ocupava a 72ª posição.

Durante os três primeiros anos do governo do Presidente Lula, vários programas sociais foram lançados para combater escandalosa desigualdade social do país, sendo o “Bolsa Família” o programa modelo, que pretende integrar a 8,7 milhões de famílias pobres até o final de 2005. As estimativas do governo federal é que 11 milhões de famílias sejam atendidas pelo “Bolsa Família” até 2006.

Em 2005, os indicadores sociais brasileiros tiveram uma melhoria significativa, como demonstra as pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE e da Fundação Getúlio Vargas – FGV.

De acordo com o IBGE, os dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios – PNAD, referentes a 2004, a desigualdade diminuiu no Brasil, sendo que o Índice Gini, que mede a concentração de renda, registrou sua melhor pontuação nos últimos 23 anos: 0,559. Destarte, segundo o IBGE, a redução da desigualdade no país, apenas nos dois primeiros anos de governo do Presidente Lula foi 50% maior que nos mandatos do Presidente FHC, e graças aos ganhos dos mais pobres. Ademais, a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios – PNAD, do IBGE, registrou uma acentuada melhoria no nível de escolarização de crianças e adolescentes em todas as regiões do país.
Os índices de melhoria social registrados pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, são condizentes com aqueles apresentados pelo IBGE. Assim, os dados da FGV apontam para o fato de que o Brasil poderá cumprir uma das Metas do Milênio da Organização das Nações Unidas – ONU, ou seja, a redução da miséria em 50%, dez anos antes do previsto, posto que o prazo estipulado era de 25 anos, de 1990 a 2015. De acordo com o Centro de Estudos Sociais - CES da FGV, a diminuição da desigualdade social durante apenas os três primeiros anos do novo milênio já é a maior de toda história brasileira.

A FGV destaca que a diminuição da pobreza no país entre 1993 e 2004 foi de 31,41%, porém é a partir de 2001, com políticas de distribuição de renda, que o Brasil começa realmente a reduzir o número de pobres. Por fim, as razões concretas para a diminuição das desigualdades sociais no Brasil, apontadas pela FGV foram o aumento expressivo da escolaridade e do emprego, bem como do “acerto do governo em programas sociais”.

Portanto, entre 2003 e 2004, nada menos que 3,180 milhões de brasileiros saíram da indigência, isto é, da miséria absoluta, segundo os dados estatísticos publicados em 2005. Este volume humano corresponde a uma população equivalente ao Estado de Alagoas ou do Espírito Santo. A última vez que a pobreza diminuiu no Brasil foi durante o Plano Real, em 1995.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Arde Paris




Avante, filhos da Pátria,
o dia da Gloria chegou.
O estandarte ensangüentado da tirania
contra nós se levanta.
Ouvís nos campos rugirem
esses ferozes soldados?
Vêm eles até nós
degolar nossos filhos,
nossas mulheres.
Às armas cidadãos!
Formai vossos batalhões!
Marchemos, marchemos!
Nossa terra do sangue impuro se saciará!

A Marselhesa
Rouget de Lisle & Dietrich,
Hino nacional francês


O mundo ficou paralisado diante das notícias sobre a revolta urbana na cidade de Paris. O que muitos já denominam de “Revolução do Subúrbio” ou “Intifada Francesa” estourou, pondo em xeque-mate a política francesa de integração social dos imigrantes, e de seus descendentes, que ocupam os bairros pobres da periferia das grandes cidades, especialmente na de Paris. Mais de trezentas localidades já foram palco de distúrbios por toda a França. O balaço parcial dos incidentes aponta para mais de 6.600 veículos destruídos, quase 1.800 pessoas presas, 11.500 policiais destacados para conter a violência e um morto.

Tudo começou em Clichy-sous-Bois, periferia parisiense, no sábado, dia 27 de outubro, quando dois adolescentes, Bouna Traore e Zyed Benna, de 15 e 17 anos, respectivamente, morreram eletrocutados, quando fugiam da polícia. Nesta mesma noite, cerca de 200 jovens começam a revolta e incendeiam quinze veículos. No dia 29 de outubro, uma passeata silenciosa de cerca de quinhentas pessoas protesta pela morte dos adolescentes, vestindo camisetas onde se lia: Mortos por nada!

O segundo fato que aumentou a combustão da revolta ocorreu dia 30 de outubro, quando uma bomba de gás lacrimogêneo, de uso policial, foi jogada dentro de uma mesquita da periferia de Paris, La Forestiére, durante um momento de oração.

A resposta do governo, através do Ministro do Interior, Nicolas Sarkozy - potencial candidato da direita para ocupar a Presidência francesa em 2007-, foi endurecer a repressão policial, defendendo a política da “tolerância zero”, além de negar a participação da polícia na morte dos adolescentes. Ou seja, tratando o problema como simples caso de violência urbana de gangues, e não como um caso social. Para complicar ainda mais, o ministro utilizou uma linguagem pejorativa para referir-se aos jovens revoltosos, o que apenas realçou seu papel de vilão dos excluídos do sistema, moradores do subúrbio. No Congresso francês, a oposição de esquerda lembra o fato de que o ministro extinguiu a “policia de bairro”, criada pelo ex-Premier socialista Leonel Jospin, bem como o corte brutal nos gastos sociais.

Desde então, a violência campeia nas madrugadas da periferia de Paris, estendendo-se por diversas outras cidades francesas, sendo os principais atores do movimento jovens desempregados e sem estudos, entre 14 e 20 anos de idade. O momento crucial ocorreu na noite do dia 5 de novembro, quando quase 1.300 veículos foram queimados e mais de trezentos jovens foram presos.

Depois que o Presidente Jacques Chirac se pronuncia publicamente destacando que a prioridade absoluta seria o restabelecimento da segurança e da ordem pública, o Primeiro-ministro Dominique de Villepin autoriza que seja decretado “toque de recolher” em todo o país. Como se não bastasse, desde o dia 8 de outubro, está em vigor na França o “estado de emergência”, pelo qual se permite ao governo aplicar “medidas extraordinárias para garantir a ordem pública”, como por exemplo suspensão de habeas corpus, proibição de circulação e de reunião. Essa legislação remonta a 1955, período em que a França se encontrava metida até o pescoço na guerra colonialista contra a independência da Argélia.

A periferia de Paris é habitada por imigrantes ilegais, principalmente oriundos do Marrocos, Argélia, Tunísia e Mali. Essa população, que oscila entre 30 e 150 mil pessoas, sofre por altos índices de desemprego, violência, drogas, discriminação, extremismo islâmico e pela precariedade sanitária, frutos do abandono estatal. Se na França o desemprego roda a casa dos 9,9% da população ativa, na periferia atinge os 20,7%, chegando aos 26% com relação aos jovens suburbanos do norte de Paris. O governo direitista francês já cortou, desde os tempos de Jean-Pierre Raffarin, em 2002, mais de trezentos milhões de euros que seriam aplicados em programas sociais para essa parte da população, destacando programas de coesão social e de moradia popular.

Essa periferia, denominada em francês ‘banlieue’, pela própria origem da palavra já se explica. No século XVII, o Rei expulsava, em francês bannir, à periferia de um determinado lugar, lieu em francês, àqueles súditos considerados perigosos. Hoje, o sistema expulsa para a periferia os pobres de todos os credos e cores. Para o sociólogo Alain Touraine, “a França entrou numa fase aguda de desintegração marcada por sua vez pela rejeição do país pelos grupos minoritários e por um progressivo fechamento comunitarista”. Para ele, “os jovens não querem mudar as coisas, mas destruí-las”.

Durante mais de cem anos, a República Francesa, com seus valores universais, recebeu operários poloneses, italianos, espanhóis e portugueses, transformado seus filhos na vibrante classe media francesa. Entretanto, esses mesmos valores universais não seduzem, nem integram, àqueles que vieram de seu antigo império colonial. Como afirma o sociólogo Alain Touraine, sobre os bairros dominados pelo islã, a segunda religião do país: “Hoje, na França, se produzem fenômenos de segregação, guetos. Antes não existiam bairros homogêneos, mas agora há bairros inteiros nos quais ninguém compra carne de porco nem bebe vinho". E conclui: “o problema hoje não é a exploração, mas a exclusão".

O fracasso do estado francês, essa imensa máquina de valores republicanos universalistas capaz de fabricar franceses felizes, é patente. Os Trinta Gloriosos anos de crescimento econômico, período comandado por Charles de Gaulle, suplantou a perda do império colonial durante as décadas de 1950 e 1960. Contudo, o país não se reconhece, e tampouco se entende. A rejeição da Constituição Européia no referendum deste ano demonstra a falta de harmonia da sociedade francesa atual, que juntamente com a alemã, formam a locomotiva da União Européia. Por outro lado, o crescimento eleitoral da ultra-direitista Frente Nacional, comandada pelo fascista Jean-Marie Le Pen, que chegou ao segundo turno nas eleições presidências de 2002, se aproveita da revolta para ampliar suas profecias apocalípticas contra a imigração.

Enfim, o problema francês possui uma vitrine, que no entanto não ilustra a totalidade da exclusão, que vai além da cor e do credo: A seleção francesa de futebol, que joga com sete negros na equipe titular. Entretanto, não há nenhum no Parlamento nacional.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Rosa do Alabama




Foi um dia como outro qualquer.
A diferença foi que as pessoas se uniram.
Nunca pensei que se transformaria nisso.

Rosa Lee Parks


Era uma vez uma costureira pobre que voltava para casa no fim da tarde, depois de um dia duro de trabalho. No ônibus, um sádico motorista gritou para que ela, e três outros passageiros, se levantassem para que um único passageiro pudesse eleger onde sentar. Mas, o que alçava aquele passageiro à categoria de melhor passageiro entre os demais, se todos pagaram o mesmo valor pelo bilhete da viagem?

No Estado do Alabama, EUA, durante os anos da década de 1950, vigoravam leis de discriminação racial, pelas quais os negros eram considerados cidadãos de segunda categoria, e, conseqüentemente, segregados em escolas, banheiros e transportes coletivos. Nos ônibus, os assentos dianteiros estavam reservados aos brancos, os de atrás aos negros e os do meio, também aos brancos. De acordo com as leis daquele verdadeiro apartheid estadunidense, aquela pobre costureira negra deveria ter se levantado para ceder seu assento a um passageiro branco, pois se encontrava em um assento do meio do ônibus. Assim determinava a lei. A lei que embora norma jurídica fosse, era ilegítima e imoral, e que portanto atentava contra o Direito.

Naquele 1º de dezembro de 1955, a senhora Rosa Lee Parks, a costureira pobre de nosso artigo, moradora da casa 634 no conjunto habitacional proletário de Cleveland Court, decidiu não se levantar. E desde aquele momento a chama da liberdade voltou a brilhar no altar da dignidade humana e a história dos EUA jamais foi a mesma. Imediatamente presa por desrespeito à lei do Alabama, a senhora Parks, aos 42 anos, tornou-se um símbolo da luta contra a discriminação racial não somente nos EUA, mas em todo o mundo. Em reação à sua prisão, a população negra da cidade de Montgomery, capitaneada pelo então jovem pastor batista Martin Luther King, promoveu um boicote ao transporte coletivo que durou mais de ano, e forçou o fim das leis racistas no sul dos EUA.

Vale lembrar que os principais atos de resistência pacífica naquele período foram promovidos por mulheres, o verdadeiro substrato do movimento. E não somente mulheres negras, pois houve uma participação ativa de muitas mulheres brancas, conscientes e comprometidas com o movimento, como por exemplo a patroa da senhora Parks, Virginia Durr.

O incidente serviu de estopim para a luta pelos direitos civis nos EUA, que culmina em 1964 com a revogação das leis de segregação racial estadunidenses e que, posteriormente, encontrarão eco, anos depois, nos assassinatos de Martin Luther King, ganhador do Nobel da Paz, e do Presidente Kennedy. Além de transformar a senhora Rosa na verdadeira pioneira da luta contra a discriminação racial nos EUA.

A senhora Parks cresceu marcada pela humilhação e desde criança estava acostumada a dormir vestida, caso precisasse fugir de sua casa no meio da noite por causa de algum ataque da Ku Klux Klan. Sua militância contra a discriminação racial apenas aumentou quando não pôde votar no Presidente Roosevelt, pois naquela época nos EUA, os negros tinham que pagar uma taxa especial para votar, além de prestarem um teste escrito. Mais tarde, foi eleita secretária da ‘Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor’, hoje o maior lobby negro dos EUA, como relata a jornalista Maria Ramírez, para o jornal espanhol El Mundo.

A senhora Rosa Parks morreu esta semana, em companhia dos amigos, aos 92 anos de idade, respeitada e reverenciada por sua luta, coberta pelo reconhecimento nacional. Pela sua militância em prol dos direitos civis, ela ganhou os dois maiores prêmios estadunidenses: a Medalha Presidencial da Liberdade, em 1996, e a Medalha de Ouro da Honra, do Congresso dos EUA, em 1999.Contudo, a senhora Rosa Parks não foi a primeira mulher a ser presa por descumprir a lei de apartheid estadunidense, pois naquele ano de 1955 duas outras já o haviam sido, sendo que a primeira foi Claudette Colvin.

Em 1956, a Suprema Corte do Alabama decidiu pela inconstitucionalidade da lei de segregação racial no transporte coletivo. Entretanto, naquele dia 1º de dezembro de 1955, alguém reagiu quase que em silêncio aos gritos irracionais do racismo, olhando pela janela do ônibus uma solitária senhora deu uma das maiores lições de dignidade humana a toda humanidade. Seu nome era Rosa Lee Parks, louvado seja.